A Vila não será pequena para O Grande Jogo?

Discute-se ainda a decisão da diretoria do Santos, presidida por Luis Álvaro de Oliveira, de marcar o clássico com o Corinthians para a Vila Belmiro e, para compensar a capacidade reduzida do estádio, quadruplicar o preço dos ingressos.

No meio da semana, de tanto ser inquirido sobre a questão, Luís Álvaro declarou que “não dá para assistir a um espetáculo do Cirque de Soleil pagando preço de circo de periferia”. Que tal analisarmos com carinho, e sem paixões, o que esta frase representa…

Em primeiro lugar, o Cirque du Soleil, assim como um renomado espetáculo de teatro, dança ou música, segue um alto padrão constante. As exibições, sempre, são espetaculares. O consumidor sabe o que vai encontrar, e encontra.

Você nunca irá a uma grande ópera em que os principais atores são poupados no segundo ato, ou, no caso de uma peça teatral, esquecem as falas. O rendimento de todos é uniforme, assim como a beleza dos cenários, figurinos e a harmonia do enredo.

O futebol, por sua vez, vive sob o signo da imponderabilidade. Mesmo o grande Santos de Pelé & Cia às vezes frustrava seus espectadores. O cansaço, a violência dos adversários, a parcialidade do árbitro ou mesmo a má jornada dos craques santistas podiam fazer de um domingo de festa um dia de decepções e aborrecimento.

No meio desta semana o Corinthians cobrou arquibancadas a 120 reais, em sua estréia na Libertadores. A renda chegou a dois milhões de reais, apesar de sobrarem mais de 5.000 lugares no Pacaembu. Para os financistas foi ótimo, mas quem foi ao jogo temeu pela revolta da torcida quando o Racing do Uruguai abriu o marcador. Um fracasso naquele jogo teria despertado grande revolta nos corintianos, que já assistiam à partida incomodados com o preço abusivo que pagaram pelo ingresso.

Este Santos que jogará domingo é um time com alguns jogadores bem talentosos, mas ainda é uma equipe instável, que paga o preço da juventude. Não há garantia de que seu rendimento será elevado e constante, como se pode esperar dos artistas do Cirque du Soleil.

Pagar mais pelo mesmo sofrimento?

No Brasil, ir a um estádio de futebol é estar disposto a sofrer. Quem vai, sabe. Você é assaltado desde o momento que estaciona seu carro, até o instante em que resolve matar a sede. Primeiro, o flanelinha só falta enfiar a mão no seu bolso para tirar os 15 reais que ele decidiu ser o valor justo para “tomar conta do seu carro”. Em seguida, os cambistas exigem o absurdo por ingressos que ainda deveriam estar nas bilheterias e já não estão. Por fim, os vendedores do estádio cobram 4,00 por um copo de refrigerante e ainda “ficam devendo” o seu troco.

Nem falemos de banheiros e acomodações. Há estádios, como a Vila Belmiro, com pontos cegos, em que você precisa torcer para que alguma grande jogada aconteça no seu raio de visão, ou o sujeito que ficou em casa diante da tevê, terá mais histórias interessantes para contar.

Infelizmente, apesar de todos os direitos do consumidor apregoados de uns tempos para cá, nossos estádios têm estruturas de no mínimo meio século de existência. Para que os clubes possam exigir mais do consumidor, precisarão também oferecer mais.

Todos sabem que nos grandes estádios europeus o cidadão estaciona seu carro rapidamente, passa no shopping, almoça e pode tomar o elevador a cinco minutos para o início da partida que seu lugar estará lá, intocável e com visão cinematográfica do campo. Aqui, convenhamos, a realidade é bem diferente. Por isso, é óbvio que não se pode aumentar o preço dos ingressos.

Mas a nova diretoria decidiu que sim, que se pode e se deve cobrar mais caro pelo jogo de domingo. Desta forma, a arquibancada, o lugar mais comum e mais barato da Vila Belmiro, passou a R$ 80 (meia por R$ 40), quatro vezes mais do que os usuais R$ 20. As cadeiras de fundo e o Setor Visa, R$ 160 (meia por R$ 80). Já as cadeiras laterais, R$ 200 (meia por R$ 100). Os ingressos para o torcedor-família não estarão disponíveis para esta partida.

Marketing x Bom Senso

Há indícios de que a decisão de se jogar este clássico – que é o mais importante na história do Santos – na Vila Belmiro, segue a estratégia de forçar o torcedor a associar-se ao clube. Haverá tantas mais facilidades de se assistir a um jogo desses sendo sócio, que o quadro social deverá aumentar rapidamente. Ao menos é o que esperam os mentores do plano. Bem, parece um motivo frio e mercadológico, mas, admito, às vezes os administradores precisam mesmo deixar a paixão de lado.

No entanto, se o Santos tem à sua disposição o Pacaembu, um estádio maior, que comporta o dobro de pessoas, onde ese poderia cobrar menos pelos ingressos e mesmo assim o faturamento seria maior do que na Vila. Por que não se pensou nisso? Apenas por causa das promessas de campanha? Ora, a prioridade, hoje, é tirar o time do buraco financeiro. Os banqueiros que fazem parte do conselho diretivo do Santos estão carecas de saber disso.

É um contra-senso cumprir uma promessa ao torcedor sacrificando este mesmo torcedor. Será que, se consultado, o santista preferiria pagar quatro vezes mais para que o jogo fosse na Vila? Obviamente, não. Então, o cumprimento dessa promessa está mais ligada a um romantismo retrógrado do que à praticidade que o momento exige.

O resultado do jogo trará a resposta

Por mais ângulos que analisemos a questão, entretanto, admito que as respostas só virão no domingo à noite, após o jogo. Sim, no futebol as teorias econômicas, os planos de marketing e as estratégias de comunicação, por mais ousadas e mirabolantes que sejam, dependem mais do goleiro e do centroavante do que de um professor-doutor em qualquer coisa. Se a bola entra e o time ganha, está tudo bem, do contrário, estabelece-se a insídia e a revolta.

Sempre foi assim e é importante que os homens que hoje dirigem o Santos tenham plena consciência disso. Foi o Deus Resultado que os colocou no poder e é este mesmo senhor todo-poderoso que pode manter uma gestão indefinidamente, ou guilhotiná-la num piscar de olhos.

Foram os resultados do time, apenas eles, que decidiram as últimas eleições do Santos. A maioria dos associados que votaram em Luís Álvaro de Oliveira não o conheciam, assim como conheciam poucos da chapa oposicionista. Mas já conheciam muito bem Marcelo Teixeira e não estavam mais satisfeitos com sua administração.

Porém, apesar de todos os problemas que cercavam a gestão anterior -como a caótica administração financeira, suspeitas de desvios de arrecadações e de corrupção no departamento de futebol profissional e nas divisões de base – foram os fracassos do time que derrubaram o presidente que há uma década se mantinha no poder.

Dois anos seguidos de futebol apático e medíocre, apesar do alto salário dos jogadores, foram suficientes para fazer o orgulhoso torcedor santista decidir que aquele rumo não era mais o certo. Assim, o mesmo torcedor que até ali tinha dado vitórias esmagadoras a Teixeira, o presidente mais vitorioso do clube após Athiè Jorge Cury, foi às urnas para votar contra ele, qualquer que fosse o candidato da oposição.

Apesar de todo o currículo, o caráter e a simpatia de Luis Álvaro, que ele não se iluda: ele está na liderança do Santos graças ao chamado “voto de protesto”. Fosse o time campeão de alguma coisa em 2009 e o poder certamente não teria mudado de mãos.

Portanto, Luís Álvaro de Oliveira e senhores gestores do mais alto calibre, prestem atenção: o sócio do Santos merece, mais do que nunca, ser ouvido. Ele, só ele, resolveu mudar os destinos do clube. Por isso é preciso lhe dar satisfações de todos os atos desta nova diretoria, principalmente quando estes atos mexem com o sagrado bolso do torcedor santista.

Bem, esta é a minha opinião, mas neste blog ela é apenas um referencial. Quero ouvir a sua. No espaço dos comentários você tem o espaço que quiser para defender seu ponto de vista – e aproveito para convidar a todos para lerem os comentários deste blog, os mais coerentes e bem escritos que eu já li em um blog de futebol.