O garoto pode ser a surpresa da Copa

Isso de o técnico já ter o “grupo fechado” para a Copa do Mundo nunca deu certo, a não ser em 1962, quando o Brasil foi campeão com uma equipe que tinha a média de idade de 30 anos – mas era um time com Pelé, Garrincha, Nilton Santos, Didi, Zito, Mauro, Gylmar… Agora, o discutido espírito de gratidão de Dunga pode impedir que a revelação do momento do futebol brasileiro vá ao Mundial. Estou falando de Neymar, é claro!

Desde que comentei, pela CBN, a goleada de 4 a 0 do Santos sobre o ex-Barueri (hoje Prudentino), tenho dito que Neymar está jogando o fino, em todos os sentidos. Não é um atacante apenas de jogadas de efeito e superou a tentação de se tornar individualista. Joga para o time, e como! Lança, tabela, volta para marcar, provoca cartões amarelos nos adversários, consegue faltas na boca do gol, ou pênaltis, já que quando para a bola na frente do zagueiro, é um Deus nos acuda.

Ao vê-lo em sua estréia no Santos, há um ano, decretei que se tratava de um craque. Era bem mais fraquinho, um menino no meio de adultos, mas já tinha duas qualidades que me impressionaram: a tranqüilidade e a inteligência.

Neymar não faz nenhum lance a esmo. Há sempre um objetivo em cada toque que dá na bola. Não foi à toa que Robinho comentou, ao final do jogo contra o São Paulo: “O Neymar pensa muito rápido, é muito inteligente”.

Sim, o craque antevê a jogada. Sabe o que vai fazer antes de receber o passe. Esta sempre foi uma qualidade dos superdotados, mas hoje está mais complicado para eles, pois a preparação física tornou todos os atletas, habilidosos ou não, fortes e velozes. O atacante que não tem velocidade de raciocínio, não consegue fazer nada. Mal mata a bola e o zagueiro está fungando no cangote.

Mas vendo Neymar jogar, o futebol parece um bailado simples, fácil, como o do toureiro franzino que tonteia o gigantesco touro bravio com o movimento quase despretensioso de sua capa. Neymar tem apenas os seus pés, o seu gingado, para ultrapassar os marcadores e escapar de seus pontapés. É uma tarefa temerária, que requer sangue-frio, habilidade e coragem (parece fácil da arquibancada, mas lá dentro o sucesso ou o fracasso de um lance depende de fração de segundos).

Geração hight tech do futebol

Dizem que as crianças de hoje já nascem adaptadas para o mundo high tech em que vivemos. Aprendem, não se sabe como, a mexer com jogos eletrônicos, computadores, celulares e tudo o que não conseguimos entender nem consultando o manual. É como se já nascessem programadas para os novos tempos.

Neymar, tenho certeza, veio com alguma programação diferente. Está preparado para o corre-corre brutal do futebol de resultados. Já nasceu com o antídoto, com algum chip que só é implantado nos craques desta ou de qualquer era.

Contra o Rio Claro ele fez a sua quarta partida excepcional seguida. Destacou-se não só pelas jogadas ofensivas, pela atuação direta nos dois gols do Santos, mas pela dedicação, pelo espírito de equipe. Quem viu pela tevê provavelmente não pôde notar, mas os que estavam no Pacaembu assistiram ao garoto – visivelmente mais forte – roubar bolas no meio-campo, correr para bater rapidamente o lateral, ou o escanteio. Parecia um veterano de 18 anos. A ele, mais do que qualquer outro em campo, o Santos deve a virada.

A Copa, um sonho possível

Não digo que hoje Neymar deva ser convocado. O que digo é que o técnico da Seleção Brasileira deve prestar muita atenção nele, pois se continuar jogando assim, o jovem astro do Santos nos dará a certeza de que poderá atuar muito bem contra qualquer adversário – os beques de cintura dura que o Brasil encontrará na África do Sul, inclusive.

Como se tem dito por aí, a Seleção Brasileira já levou várias vezes jogadores muito jovens para os Mundiais, e um deles, de 17 anos, convocado a contragosto de muitos para a Copa da Suécia, simplesmente se tornou o atleta do século.

Sei muito bem que jogadores mais afamados acabam tendo a preferência e que outros são convocados mais por gratidão do que por merecimento técnico, mas sei também que nada resiste ao talento quando ele aflora e encanta a todos. Talvez uma das poucas vezes em que a unanimidade não é burra, é quando ela elege o craque.

Currículo é importante, mas, como diria o meu amigo e ótimo texto Roberto Avallone, “futebol é momento”. Portanto, é bastante temerário definir um elenco para a Copa com quatro meses de antecedência. Até lá Neymar pode se firmar como o melhor jogador em atividade no Brasil (o que talvez já seja hoje) e sua presença na África do Sul se tornará um anseio nacional.

Digo tudo isso antes do jogo dae amanhã à noite, contra o Bragantino, na Vila Belmiro. Claro que a imponderabilidade do futebol poderá me fazer queimar a língua, ao menos na partida de amanhã. Mas as últimas atuações de Neymar me dão a certeza de que, mesmo que não jogue tudo o que sabe, ainda assim será um dos destaques da partida. Sim, porque um craque, mesmo em noite pouco inspirada, ainda brilha muito mais do que um jogador comum.

Você acha que Neymar tem chance de ir à Copa, ou não acredita que Dunga mudará a sua lista de favoritos? Se fosse o técnico, o que você faria?