Blog do Odir Cunha

O ombudsman do Santos FC

Month: março 2010 (page 1 of 12)

O futebol brasileiro não precisa mais ser deficitário

A Vila nos tempos em que o Santos vivia só da bilheteria

Poucas marcas são tão conhecidas no Brasil como a do Flamengo. No entanto, nenhum outro clube deve tanto neste país. Há coisa de seis meses, Leonardo, hoje dirigente do Milan, disse que a dívida do rubro-negro era “impagável”. Uma fonte confidenciou-me que chegava a R$ 1 bilhão. Mesmo com os juros bancários mais baixos que se encontrar, é fácil perceber que a estrutura atual do futebol nacional não permite que se quite esse enorme passivo.

Outra agremiação de grande contingente de torcedores é o Corinthians. No entanto, só agora, com uma gestão mais moderna, o Alvinegro da Capital está conseguindo acalmar os credores. E quanto ao Santos? Bem, as últimas análises dão conta de que a dívida está em R$ 177 milhões, dos quais cerca de R$ 100 milhões são de impostos antigos.

“Santos” e “dívida” são duas palavras que há anos se relacionam – com alguma turbulência no começo, mas agora sob o acomodado clima de tolerância mútua. Parece uma praga, um gripe que volta todo ano, um mal que quase chega a ser necessário. Clube de futebol no Brasil e “problemas de fluxo de caixa” não se desgrudam. Mas será que tem de ser assim?

Confesso que quando Pelé parou e o clube não era mais capaz de pagar altos salários e manter um elenco forte, temi pelo pior. Estava começando a carreira jornalística e nas idas à Vila Belmiro, em meados dos anos 70, a visão era desoladora. O campo esburacado e o estádio caindo aos pedaços me faziam ter inveja, por exemplo, do Brinco de Ouro da Princesa, do orgulhoso Guarani, que em 1978 tornou-se campeão brasileiro.

Como a Ponte Preta foi vice-campeã paulista em 1977 e 79, o título brasileiro do Guarani marcou uma época em que muitos diziam que o futebol de Campinas ultrapassaria o de Santos, onde o Jabaquara já estava nas últimas, a Portuguesa Santista se contentava em não ser rebaixada e o Alvinegro Praiano claudicava a cada competição.

A revista Placar chegou a publicar que o Santos teria de se acostumar a ser pequeno e que Guarani e Ponte eram os novos grandes de São Paulo. O presidente do Juventus, José Ferreira Pinto, foi a um programa de tevê para mostrar o plano que tornaria o seu clube o novo grande da Capital. Pelos cálculos do dirigente, a torcida santista debandaria toda para o time da Moóca com a ausência de Pelé.

Em uma de minhas primeiras entrevistas, perguntei a Zito, então dirigente do clube, como sanar as dívidas do Santos. Ele, naquele jeitão tranqüilo, respondeu apenas que sempre ouviu falar de dívidas no Santos, mas isso nunca impediu o time de ganhar títulos e revelar grandes jogadores.    

De fato. Como do nada, surgiram os Meninos da Vila que, com algumas modificações, deram alegrias e esperanças aos santistas de 1978 a 84. Percebi, ali, ao ver Pita, João Paulo, Juary, Nilton Batata e Ailton Lira, entre outros, que grandes times não se formam só com dinheiro, mas com paixão, com carisma, com a força da camisa, coisas que o Santos tem de sobra. 

Antes, até o sucesso gerava o fracasso

Parece brincadeira o que vou dizer agora, mas durante muitos anos a verdade é que a estrutura do futebol brasileiro fazia com que o sucesso trouxesse o fracasso… Explico:

Imagine um time grande qualquer, com um elenco razoável, um técnico compatível com a equipe, torcida numerosa e quer ainda assim conseguia manter suas finanças em dia. Ótimo. Se fosse uma equipe que só almejasse não ser rebaixada, talvez pudesse viver dessa maneira anos e anos sem maiores problemas. Mas time grande quer ser campeão. Eternamente. E aí começava o problema.

Se o título demorasse a vir, certamente a despesa com o elenco seria maior a cada temporada – atendendo aos apelos cada vez mais desesperados da torcida – o ponto de equilíbrio financeiro seria atropelado, os presidentes e seus planos mirabolantes se sucederiam e em menos de uma década a orgulhosa agremiação, além de continuar na fila, estaria falida. 

Se um ótimo time fosse formado e os títulos viessem, obviamente tudo ficaria melhor no começo, mas seria apenas uma questão de tempo para que os problemas ressurgissem. Vejamos:

Jogadores campeões querem aumento, sem contar que alguns se tornam ídolos e mui justamente exigem receber como tais. A folha de pagamentos é a maior despesa de um clube de futebol e logo o seu inchaço jogava o balanço no vermelho. Ainda não havia patrocínio de camisa ou a verba milionária da tevê. A única saída era negociar os melhores jogadores, às vezes a preço de banana, pois até pagar os seus salários se tornava impossível.

Assim, em um período máximo de cinco anos, um clube que tivesse encantado o Brasil voltava novamente à estaca zero, à espera do imponderável surgimento de novos craques, que ganhariam títulos, seriam ídolos e depois iriam embora. Naquela realidade, não havia como impedir isso. 

Fontes de renda x despesas

Segundo José Carlos Peres, ex-superintendente do Santos em São Paulo, hoje executivo do G4 Paulista, um clube como o Santos, sem parque esportivo e social, voltado exclusivamente para o futebol, pode ser mantido com uma verba de R$ 3 milhões mensais. “Com este valor você mantém um time top”, diz ele.

Bem, isso dá R$ 36 milhões por ano. Como os orçamentos nunca batem,  arredondemos para R$ 40 milhões anuais de despesas. Muito bem, agora vamos às receitas estimadas do Santos em 2010:

TV – R$ 7,6 milhões pelo Campeonato Paulista e R$ 20 milhões pelo Campeonato Brasileiro. Com Copa do Brasil e Copa Sul Americana, fechamos conta em R$ 29 milhões.

Camisa – Com os calções deve-se chegar a R$ 15 milhões.  

Bilheteria – Líquido de R$ 10 milhões por ano (revezando Pacaembu e Vila Belmiro).

G4 Paulista – Já entrou R$ 3 milhões e há a possibilidade de se entrar mais R$ 10 milhões para cada um dos quatro grandes de São Paulo.

Marketing (Licenciamento) – Por enquanto tem dado cerca de R$ 900 mil.

Veja, leitor e leitora, que mesmo sem conseguir a meta estabelecida para a camisa e ainda sem o contrato assinado pelo G4, que pode dar mais R$ 10 milhões ao clube ainda este ano, o Santos deve arrecadar R$ 57,9 milhões em 2010, R$ 17,9 milhões a mais do que seria o suficiente para se manter um time de ponta no Brasil.

Claro que boa parte dos direitos de tevê já devem ter sido antecipada e que os juros das dívidas comem uma fatia generosa da receita, de forma que este cálculo deve ser visto apenas como um exemplo de que é possível, sim, um clube com a estrutura enxuta do Santos conservar-se competitivo e extremamente saudável financeiramente.

Como os valores da TV, do patrocínio de camisa, das arrecadações e do marketing só tendem a crescer, é impossível não ficar otimista com o futuro do Santos, apesar desta dívida anunciada de R$ 177 milhões.

E note que, de propósito, eu nem citei o que para os grandes clubes do Brasil já é o principal item de receita, que é a venda de seus melhores jogadores para o exterior. Porque o ideal seria faturar o suficiente para manter os seus astros, o que aceleraria não só o crescimento do Santos, mas do mercado brasileiro de futebol.

Tanto no passional, como no profissional…

Minhas duas últimas entrevistas para a seção Cara a Cara da revista FourFourTwo – João Paulo Rosenberg, diretor de marketing do Corinthians, e J Hawilla, diretor-presidente da Traffic, parceira do Palmeiras – trazem, basicamente, a mesma mensagem: para crescer e marcar presença no mundo competitivo do futebol moderno, os clubes não podem mais contar com amadores em cargos importantes.

A mesma paixão que é importante em campo, pois costuma levar a equipe a vitórias empolgantes, pode ser extremamente prejudicial fora dele, quando a vaidade pueril de alguns diretores pode afastar pessoas essenciais para o crescimento do clube. Quantos técnicos e jogadores de prestígio e alto salário já não foram marginalizados ou demitidos após uma discussão à toa com um dirigente não remunerado, que ambiciona o cargo apenas para exibi-lo como um troféu?

Felizmente, os grandes clubes de São Paulo parecem estar, a cada dia, mais alertas para esta armadilha que é deixar uma fortuna nas mãos de pessoas que mal sabem cuidar das finanças pessoais. A profissionalização chega decididamente aos clubes e aquele que não a adotar, que preferir continuar montando suas equipes de trabalho pela amizade e camaradagem, ficará para trás.

E você, leitor e leitora, acha que há remédio para a terna penúria dos clubes brasileiros? Tem alguma idéia que pode aumentar o faturamento de seu time? Vá aos comentários e mande ver.


Há 50 anos, a imprensa saudava o primeiro campeão brasileiro

Quando a primeira Taça Brasil foi disputada, em 1959, o Brasil tinha 70 milhões de habitantes e a ponte aérea Rio-São Paulo tinha sido inaugurada naquele mesmo ano. Os clubes de futebol viviam exclusivamente das arrecadações. Não havia nem como pagar passagens de avião. Um campeonato nacional com jogos de ida e volta era uma utopia. Então, como em outros países, fez-se o que era possível para definir um campeão brasileiro que representaria o País na primeira Copa dos Campeões da América, hoje conhecida como Copa Libertadores da América.

Como hoje cada país seleciona seus poucos representantes para a Libertadores, a Taça Brasil era disputada apenas pelo campeão de cada Estado. Todos os participantes dos estaduais tinham, assim, a possibilidade de lutar pelo título brasileiro. Logo na primeira edição, 16 estados foram representados na Taça, quase o dobro dos que hoje disputam a Série A do Brasileiro.

Quando a última das quatro edições do Torneio Roberto Gomes Pedrosa foi jogada, já com o nome de Taça de Prata, em 1970, o País abrigava 90 milhões de pessoas. Nesse ínterim, graças à massiva cobertura da imprensa, ninguém que acompanhasse o futebol teve qualquer dúvida de que o campeão destas duas competições era também o campeão brasileiro. Hoje, muitos dos brasileiros daquela fase de ouro do nosso futebol já morreram. Felizmente, porém, a história não vive só de testemunhas oculares. Milhares de documentos sobrevivem para comprovar a veracidade eterna dos fatos.

Desde a primeira competição da Taça Brasil a cobertura dos jornais deixou claro que a competição dava ao seu vencedor o título de campeão brasileiro. Os arquivos estão aí, repletos de documentos para quem procura se informar antes de dar opiniões. Devemos acreditar na imprensa da época? Devemos acreditar em jornalistas como Armando Nogueira, Nelson Rodrigues, João Saldanha, Thomaz Mazzoni, Mário Filho, Ney Bianchi, Vital Bataglia…?  Se não devemos acreditar nesses profissionais de extrema competência, o que nos faria acreditar na imprensa esportiva atual?

O presidente da Confederação Brasileira de Desportos, João Havelange, em uma entrevista exclusiva a Ney Bianchi, já tinha anunciado que a Taça Brasil era o Campeonato Brasileiro de Clubes, nos mesmos moldes do Campeonato Brasileiro de Seleções, que já existia há décadas. Assim, quando a Taça Brasil foi iniciada, não havia um só brasileiro que acompanhasse o futebol que não soubesse que ela daria ao vencedor o título de campeão nacional e o direito de representar o país na primeira competição sul-americana de clubes oficial.

Relembremos algumas matérias publicadas sobre a primeira Taça Brasil e confirmemos o caráter de primeira competição nacional de clubes que ela tinha:  

Taça Brasil na fase decisiva. Santos x Grêmio hoje na Vila. Chega, afinal, à sua fase de maior interesse, a Taça Brasil, destinada a apontar o campeão nacional interclubes. E o Santos, na qualidade de campeão paulista de 1958, terá a responsabilidade de enfrentar o Grêmio Portoalegrense, que é tricampeão do Rio Grande do Sul (A Gazeta Esportiva, chamada de capa, 17 de novembro de 1959). 

Bahia, depois de vencer o Vasco, terá de enfrentar amanhã o Santos. Em plena luta pelo Campeonato Paulista, do qual é líder absoluto, o Santos, amanhã, será obrigado a se empenhar em um compromisso diferente, este valendo pelo título de campeão do Brasil. Para esta noite, com início às 21 horas, está marcada a partida entre o Santos F. C. e o E. C. Bahia, iniciando a série final relativa à Taça Brasil. Trata-se de um choque dos mais sugestivos, desde que reunirá dois esquadrões em situação de singular prestígio (A Gazeta Esportiva, título de página, 8 de novembro de 1959).

Luta pelo título de campeão do Brasil: Santos x Bahia. Hoje à noite, em Salvador, Santos e Bahia estarão lutando pela segunda vez na série final de jogos da Taça Brasil. O objetivo único é tornar-se o primeiro campeão do País. O embate na capital baiana está atraindo a atenção do público esportivo brasileiro (A Gazeta Esportiva, título de página, 30 de dezembro de 1959).

Santos. Bahia. Decisão hoje à noite da Taça Brasil. Será conhecida no Maracanã a equipe campeã brasileira entre clubes (Capa de A Gazeta Esportiva de 29 de março de 1959).

O E. C. Bahia conseguiu esta noite, no Estádio do Maracanã, o título inédito no futebol brasileiro, qual seja o de campeão brasileiro por equipes, garantindo sua participação no próximo Campeonato Sul-americano de Clubes Campeões (A Gazeta Esportiva, 30 de março de 1959).

O futebol do Norte do país voltou a brilhar. Depois da atuação da Seleção de Pernambuco no Campeonato Brasileiro, ficando em segundo lugar, foi a vez do E. C. Bahia vencer a Taça Brasil, o primeiro campeonato brasileiro de clubes (A Gazeta Esportiva, 30 de março de 1959).

Bahia é o campeão. O E. C. Bahia sagrou-se ontem à noite campeão da Taça Brasil ao derrotar o Santos, no Maracanã, por 3 a 1. O título, que equivale ao de primeiro campeão brasileiro interclubes, foi obtido em partida acidentada, na qual foram expulsos três jogadores santistas (Folha da Tarde, última página, 30 de março de 1960).

Grande atuação do campeão baiano, sagrando-se campeão brasileiro de futebol por equipes (A Gazeta Esportiva, 30 de março de 1960).

E. C. Bahia venceu a Taça Brasil!… O campeão baiano não teve a mínima culpa nos acontecimentos verificados entre o juiz e os jogadores santistas. É o primeiro campeão brasileiro por equipes e será o representante nacional no próximo Campeonato Sul-americano de Clubes Campeões (A Gazeta Esportiva Ilustrada, matéria de duas páginas, abril de 1960).

Esporte Clube Bahia conseguiu um título inédito no futebol brasileiro. Sagrou-se Campeão Brasileiro por Equipes (A Gazeta Esportiva Ilustrada, legenda de foto de meia página com o time posado do Bahia, abril de 1960).

É possível que não estivesse nos cálculos dos catedráticos. Mas a realidade é que o Esporte Clube Bahia detém o primeiro título máximo brasileiro… Aí está, portanto, o desfecho da Taça Brasil. Todos acreditavam no Santos. Mas o Esporte Clube Bahia contrariou a todas as previsões. Agora, de acordo com o que ficou assentado, caberá ao campeão representar o futebol brasileiro no Campeonato Sul-americano de Campeões que será disputado em maio próximo (A Gazeta Esportiva Ilustrada, matéria de duas páginas, abril de 1960).

Bahia, campeão do Brasil (A Tarde, de Salvador, título de capa, 1º de abril de 1960)

O que mais ninguém pode negar, é a força técnica do Bahia. É um quadro que joga pra frente mais sabe se portar na defesa. Objetivo, sabe a hora certa de ferir o seu adversário. O Bahia é uma força positiva, soube dar brilho ao futebol do Norte e detém com orgulho, para o resto da vida o título de “primeiro campeão do Brasil”. (Jornal dos Sports, matéria assinada por Luiz Bayer, 1º de abril de 1960).

Todos os mestres na arte de calcular o futebol podem rasgar seus apontamentos, pois o primeiro campeão do Brasil é o Esporte Clube Bahia e não será sem motivos, pois venceu a melhor equipe do país e um das melhores do mundo (O Globo, matéria assinada por Ricardo Serran, 1º de abril de 1960).

Bahia, primeiro campeão do Brasil de todos os tempos, um título único e inédito de uma importância sem igual. Uma odisséia fantástica do Esporte Clube Bahia, quase desacreditado depois da derrota em Salvador, vitorioso e inconstante no Rio de Janeiro, no templo do futebol, o Maracanã, contra o maior time do mundo (O Globo, matéria assinada por Ricardo Serran, 1º de abril de 1960).

E você, querido leitor e leitora, considera o Bahia o primeiro campeão do Brasil, ou acha que o Campeonato Brasileiro só começou em 1971?


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Há 50 anos o Bahia se tornou o primeiro campeão brasileiro

Beto, capitão do Bahia, ergue a Taça Brasil.

 Ontem, 29 de março de 2010, fez 50 anos que o Esporte Clube Bahia se tornou o primeiro campeão brasileiro e primeiro clube a ganhar o direito de representar o Brasil na Copa Libertadores da América. O feito foi conseguido ao derrotar o Santos por 3 a 1, no Maracanã, e se tornar campeão da Taça Brasil de 1959, criada por João Havelange, presidente da CBD, para definir um campeão nacional de clubes.

 O que disseram sobre a conquista

Salvador hoje completa 411 anos de fundação e o melhor presente foi a grande conquista do Esporte Clube Bahia (Heitor Dias, prefeito de Salvador).

Tivemos de lutar muito, estivemos sempre, em todas as batalhas, com o coração na mão, mas tudo deu certo e conquistamos o maior título do Brasil (Geninho, técnico do Bahia e ex-pracinha da FAB na segunda guerra).

Um dos momentos inesquecíveis da historia do futebol brasileiro, foi arrepiante (Vicente Arenari, zagueiro do Bahia).

Jogamos um futebol vigoroso, vistoso, pratico e bem definido taticamente. O adversário jogou bem, mais soubemos ter calma para sair de um placar adverso e com o apoio da massa aos poucos fomos dominando o jogo e os gols saíram em momentos certos da partida (Léo Briglia, meia do Bahia, artilheiro da Taça Brasil 1959).

Jogamos contra o Vasco e contra o Santos seis partidas e vencemos quatro. São as duas maiores equipes do país, com jogadores campeões mundiais pela Seleção. Muita gente não acreditava, mas o nosso time também não deve nada aos deles (Marito, atacante do Bahia)

Não colocamos somente a Bahia no mapa do futebol do Brasil, colocamos o Nordeste (Biriba, atacante do Bahia).

O jornal O Globo, um dos mais influentes e respeitados do País, publicou um artigo entusiasmado do jornalista Ricardo Serran, no qual saudava o Bahia como o “primeiro campeão brasileiro de todos os tempos”. Dizia, ainda: “… um titulo único e inédito de uma importância sem igual. Uma odisséia fantástica do Esporte Clube Bahia, quase desacreditado depois da derrota em Salvador, vitorioso e inconstante no Rio de Janeiro, no templo do futebol, o Maracanã, contra o maior time do mundo”.

Um título justo, sem dúvida. Este Bahia, lembrado por seus torcedores como um dos melhores times de sua história, era uma equipe entrosada, que ganhou seis títulos estaduais nos anos 50 e se tornaria pentacampeã baiana em 1958/59/60/61/62. 

I Taça Brasil – 1959

Campeão: Esporte Clube Bahia

Vice: Santos Futebol Clube

Período: 23 de agosto de 1959 a 3 de março de 1960

Jogos: 35

Gols: 99 (média de 2,83 por jogo)

Artilheiro: Léo (Bahia), 8 gols

Estados representados: 16

Clubes participantes: CSA (Alagoas), Bahia (Bahia), Ceará (Ceará), Rio Branco (Espírito Santo), Vasco (Guanabara – Estado que oficialmente existiu de 1960 a 1975 e ocupava a área do atual município do Rio de Janeiro), Ferroviário (Maranhão), Atlético (Minas Gerais), Tuna Luso (Pará), Auto Esporte (Paraíba), Atlético (Paraná), Sport (Pernambuco), Manufatura (Rio de Janeiro), ABC (Rio Grande do Norte), Grêmio (Rio Grande do Sul), Hercílio Luz (Santa Catarina) e Santos (São Paulo).

Regulamento

Para participar da Taça Brasil e disputar o título de campeão brasileiro era preciso ser campeão estadual no ano anterior.Competição realizada em jogos eliminatórios, com chaves Norte (Norte e Nordeste) e Sul (Centro e Sul). Os vencedores das chaves se classificavam para as semifinais contra os campeões de Rio de Janeiro e São Paulo.

Semifinais

17/11/1959 

Santos 4, Grêmio 1, Vila Belmiro, Santos

25/11/1959

Grêmio 0, Santos 0, em Porto Alegre

19/11/1959 

Vasco 0, Bahia 1, Maracanã, Rio de Janeiro

24/11/1959

Bahia 1, Vasco 2, em Salvador

26/11/1959

Bahia 1, Vasco 0, em Salvador

Final

Primeiro jogo

Santos 2, Bahia 3

10 de dezembro de 1959

Vila Belmiro, Santos, 21 horas

Santos: Manga, Getúlio, Urubatão e Formiga; Dalmo e Zito; Dorval, Jair da Rosa Pinto, Coutinho, Pelé e Pepe. Técnico: Lula.

Bahia: Nadinho, Leone, Henrique e Beto; Flávio e Vicente; Marito, Alencar, Léo, Bombeiro e Biriba. Técnico: Geninho.

Gols: Pelé aos 15 e Biriba aos 26 minutos do primeiro tempo; Alencar aos 12, Pepe aos 32 e Alencar aos 44 do segundo.

Árbitro: Alberto da Gama Macher.

Público: 23.000.

Segundo jogo

Bahia 0, Santos 2

30 de dezembro de 1959

Estádio da Fonte Nova, Salvador, 21 horas

Bahia: Nadinho, Leone, Henrique e Beto; Flávio e Vicente; Marito, Alencar, Léo, Bombeiro e Biriba. Técnico: Geninho.

Santos: Laércio, Feijó, Getúlio e Dalmo; Zito e Formiga; Dorval, Urubatão, Coutinho, Pelé e Pepe. Técnico: Lula.

Gols: Pelé

Jogo desempate

 

Bahia 3, Santos 1

29 de março de 1960

Maracanã, Rio de Janeiro, 21 horas

Bahia: Nadinho, Beto, Hermínio e Nelsinho; Flávio e Vicente; Marito, Alencar, Léo, Mário e Biriba. Técnico: Carlos Volante.

Santos: Lalá, Getúlio, Mauro e Zé Carlos; Formiga e Zito; Dorval, Mário, Pagão, Coutinho e Pepe. Técnico: Lula.

Gols: Coutinho aos 27 e Vicente aos 37 minutos do primeiro tempo; Léo aos 47 segundos e Alencar aos 31 minutos do segundo.

Expulsões: Getúlio, Formiga, Coutinho e Dorval (Santos); Vicente (Bahia)

Arbitragem: Frederico Lopes (RJ), auxiliado por Wilson Lopes de Souza e Ailton Vieira de Moraes.

Com o título da Taça Brasil o Bahia se tornou campeão brasileiro e se classificou para ser o único representante brasileiro na I Taça Libertadores da América, disputada em 1960.

Como único representante brasileiro na Taça Libertadores de América de 1960, o Bahia enfrentou o San Lorenzo numa série melhor de três: perdeu o primeiro jogo, em Buenos Aires, por 3 a 0, no dia 20 de abril de 1960, e venceu a partida de volta, em Salvador, por 3 a 2, em 3 de maio. Foi eliminado pelo saldo de gols.


Armando Nogueira, um craque insubstituível

No Jornal da Tarde, quando falávamos em bons textos todos os dias, perguntei ao chefe de reportagem Roberto Avallone quem escrevia melhor entre os jornalistas esportivos. Ah, ele respondeu, não há dúvida de que é o Armando Nogueira. Já leu Bola na Rede? Então leia. Comprei o livro. Li e reli. Realmente, ninguém escrevia com aquela fluência e poesia entre os jornalistas dedicados ao esporte. Identifiquei-me com o estilo do tarimbado colunista acreano do Jornal do Brasil. Havia naquele ritmo, naquela maneira profunda e emocional de ver o esporte, muito do que eu também sentia.

Algumas vezes levei comigo Bola na Rede nas viagens pelo Interior, cobrindo jogos do Campeonato Paulista. Em uma delas a pauta era acompanhar o último jogo da Portuguesa Santista, já rebaixada, contra o XV de Jaú, em Jaú. Ouvi a preleção do técnico da Luzinha, pedindo brios a jogadores que vá tinham caído de divisão. E o sentimento foi tão forte que a equipe se superou e ganhou a partida que não valia nada, só orgulho próprio.

Ao lançar Time dos Sonhos eu tinha o desejo, quase sonho, de ser entrevistado no programa “Bate Papo com Armando Nogueira”, no Sportv, em que o autor de um livro de futebol conversava sobre sua obra com aquele que já era tratado como O Príncipe dos Cronistas Esportivos.

Cheguei a mandar-lhe e-mails falando do livro que demorei dez anos para terminar e me oferecendo para ser entrevistado, mas Armando nem ao menos respondeu. Fiquei decepcionado e irritado e escrevi sobre isso um texto deselegante, publicado em alguns sites. Imaginei que com aquelas deseducadas linhas tinha jogado uma pá de cal na possibilidade de aproximação com o autor dos textos tão belos que marcaram meu início de carreira jornalística.

Porém, três anos depois, quando lancei Heróis da América, a história completa dos Jogos Pan-americanos, fui surpreendido com o convite da produção do programa do Armando para, finalmente, conversar com ele sobre a obra que era – e ainda é – a mais completa já escrita sobre os Jogos.

Fui ao Rio, o que é sempre agradável, e na TV Globo pude abraçar o amigo Luis Fernando Lima, com quem cobri os Jogos Pan-americanos de Porto Rico. Em seguida encontrei-me com Armando Nogueira. Ele caminhava com alguma dificuldade, nas palavras que trocou com os colegas percebi que já padecia de um mal novo e que o preocupava muito, e em seguida ficamos só nós dois, adiantando os assuntos que seriam tratados no ar.

Falou, decepcionado, dos novos tempos, em que os torcedores se sentem no direito de ofender os colunistas, pela Internet. Lembramos do grande clássico do futebol brasileiro entre o seu Botafogo e o meu Santos, e eu lhe recordei que mesmo sendo uma partida equilibrada, nos jogos mais importantes entre ambos o Santos sempre ganhou, e de goleada. Ah, aquele Santos, quem podia com aquele time, resignou-se ele, enquanto entrávamos no estúdio.

Para nós, do Rio, era mais fácil torcer para o Santos do que para São Paulo, Corinthians e Palmeiras, ressaltou, explicando porque a imprensa carioca era tão simpática ao Alvinegro Praiano, chamado-o de o mais carioca dos paulistas.

Enquanto ajeitávamos os microfones por baixo da camisa, adiantou que Paulo César Vasconcelos não viria e, portanto, faríamos o programa só nós dois. Uma hora inteira com Armando Nogueira falando da história dos Jogos Pan-americanos! Mais do que eu poderia sonhar…

Fotos, imagens, comentários sob os vários aspectos do Pan, que dois meses depois seria realizado ali, no Rio, e cheguei a fazer uma previsão bastante otimista a respeito do desempenho brasileiro. Você está dizendo que o Brasil ganhará 50 medalhas de ouro, Odir?!, espantou-se Armando. Confirmei, pois tinha calculado bem todas as chances nas várias modalidades (o Brasil acabou ganhando 52 medalhas de ouro e ficou em terceiro lugar, atrás de Estados Unidos e Cuba).

Armando gostou do programa e sugeriu à equipe do Sportv que me convidasse para falar sobre o Pan durante a transmissão dos Jogos. Convidaram-me, realmente, para ser um dos comentaristas na festa de abertura, mas justo no dia eu tinha uma palestra no Sesc de Taubaté e não pude ir.

De qualquer forma, ficou na memória a tarde que passei com Armando Nogueira, o jornalista esportivo que mais influenciou meus textos e reforçou minha visão poética do futebol. Tive um programa inteiro com ele. Que mais poderia querer? Voltei a São Paulo e as informações era de que Armando nunca mais recuperara a saúde. Deixou de apresentar o programa, recolheu-se, até que hoje vem esta notícia de sua morte.

Armando Nogueira morreu em sua casa, na Lagoa, aos 83 anos, vítima de câncer no cérebro – diagnosticado em 2007, pouco antes de nossa entrevista. Nasceu em Xapuri, no Acre, começou a carreira aos 23 anos, no Diário Carioca. Consagrou-se como colunista do Jornal do Brasil e chegou a diretor de jornalismo da TV Globo, onde criou o Jornal Nacional e o Globo Repórter.

Homenagem ao poeta do futebol

Reproduzo, agora, o trecho de um artigo de Armando Nogueira intitulado A busca do tempo perdido. Há um sonho nessas linhas que talvez nunca seja realizado, ou que talvez explique o entusiasmo que sentimos ao ver um time como este Santos, que parece reviver a alegria de crianças jogando futebol.

… Abençoada a obra que nasce e morre e renasce do ânimo lúdico de brincar. Na essência do esporte, a ação estendida como brincadeira pura. E se do gesto participa uma bola, aí, então, amigo, aí principia o jogo que há de levar o homem à purificação.

Pelo menos hoje, não tomarei como base os números que exprimem eficiência, nem os fatos que condenem e absolvem os homens do futebol. Prefiro, agora, a vaga lembrança de um certo chute que morreu nas redes, depois de partir ao meio o coração do estádio – metade bandeira, metade silêncio.

Que seria de ti, de mim, que seria de nós, amigo, o domingo sem a comovente mentira de um gol?

É certo que não aprendemos muito da vida no ano que se vai: o futebol é hoje um mundo um tanto envenenado por pequenas misérias que os homens podiam perfeitamente deixar no meio-fio, antes de cruzar a borboleta dos estádios.

Enfim, ao cabo de tantos encontros dominicais, há de ter ficado conosco, ao menos, a serena certeza de que ainda não morreu em nós o menino que já não somos. Porque no fogo cruzado das paixões de um campeonato entrevia-se uma multidão de crianças, dentro e fora do campo, construindo castelos de areia que a maré do tempo logo destruía.

É por tudo isso que, hoje, não quero nem o rigor das táticas, nem a geometria que divide os campos, dividindo os homens.

Em nome da bola, forma sublime, em nome da grama que floresce na infância, em nome do gesto gratuito que faz o encanto do esporte, deitemos fora a aritmética do futebol. E que as portas dos estádios se reabram no tempo próximo para que lá, como Albert Camus, possamos viver outra vez sublimes momentos de inocência.


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