Responda-me, professor: Como se faz uma omelete sem ovos?

De uns tempos para cá os salários dos técnicos de futebol no Brasil foram às alturas. Os dirigentes devem ter pensado: se um bom técnico pode arrumar um time de jogadores medíocres, então contrato só um bom técnico e não preciso gastar uma fortuna com jogadores. Na teoria é uma grande idéia, mas na prática a fórmula dá certo raras vezes. Os times geralmente têm os seus limites e não há técnico que dê jeito nisso.

Veja o Palmeiras. Ganhou do Atlético de Goiás, no Parque Antártica, com um gol de pênalti no último instante do jogo, e saiu vaiado. Agora veja o Fluminense: recebeu o Grêmio no Maracanã, perdeu de 3 a 2 e deixou o estreante técnico Muricy furioso. Agora veja também o Corinthians, que na quarta-feira, com um jogador a mais, não só perdeu de 1 a 0 para o Flamengo, como mal incomodou a meta adversária.

Dirão que Muricy e até mesmo Antonio Carlos Zago ainda não tiveram tempo de arrumar suas equipes, de montá-las do seu jeito. Isso pode valer para Muricy, mas Antonio Carlos já deveria estar tirando algum leite dessa pedra verde. Mas e Mano Menezes, até pouco tempo considerado um grande treinador e a cada dia que passa consolidando-se como um indefectível retranqueiro?

Na verdade, o grande mérito do técnico é perceber o potencial de cada jogador, descobrir como ele pode ser usado em benefício do time e a partir daí criar um conjunto harmonioso e eficiente. Tudo, porém, começa com o talento individual. Nenhum grande time é um deserto de craques.

O Palmeiras tem algum craque? Não! Diego Souza e Cleiton Xavier são bons jogadores, mas não resolvem o jogo, não criam nada de excepcional com a regularidade que se espera de um craque.

O Fluminense tem algum craque? Não! Fred faz gols (e também perde alguns absurdos), é um atacante acima da média, mas também não é craque. E, pior, está fora do time, adoentado. Sem ele, o Flu é um Saara.

E o Corinthians, tem craque? Olha, tem jogadores de muita personalidade, que podem até decidir um jogo mediano, mas que não tem essa força toda nos grandes eventos. E o grande evento era o jogo do Maracanã. Perder de 1 a 0 de um Flamengo que acaba de perder o título carioca para o limitado Botafogo, e que jogou toda a segunda etapa com um jogador a menos, prova que falta jogador decisivo nesse Corinthians (mas o Corinthians, confesso, talvez seja um caso à parte. O problema pode não ser a falta de ovos, mas de um cozinheiro melhor).  

Assim, meu amigo, Muricy pode ter ataques histéricos, o Mano Menezes e o Zago podem descobrir desculpas longas e criativas, mas nada vai apagar o que o torcedor, na sua sabedoria infinita, grita da arquibancada logo que percebe a coisa feia: “ô, ô, ô, queremos jogador!”.  

Dos três exemplos, o único que tem um elenco mais conhecido é o Corinthians. Porém, fama não quer dizer eficiência. A obrigatoriedade de escalar os contratados tem impedido Mano Menezes de fazer o óbvio: deixar Iarley, Danilo e Ronaldo no banco e escalar Jorge Henrique, Dentinho e Souza como titulares (sim, no momento, Souza, apesar de grosso, é mais útil que Ronaldo).

Sortes diferentes têm Dorival Junior e Vanderley Luxemburgo, que se não podem contar com defesas sólidas, ao menos do meio para a frente têm à disposição jogadores rápidos, insinuantes e talentosos. Não é à toa que Atlético Mineiro e Santos fizeram o melhor jogo da semana e, provavelmente, do ano.

Luxemburgo e Dorival têm ovos para fazer a seu omelete, que pode não ser completa, mas é bem saborosa. A vantagem do Santos, entretanto, é que seu tempero especial ficou para a segunda partida, quando o Príncipe Neymar estará em campo e, desta vez, o time mineiro não terá a seu favor a omissão do insípido Heber Roberto Lopes.