A cada frase, Juvenal mais complica a situação do São Paulo

Ouvi agora mesmo a entrevista que Juvenal Juvêncio deu à uma emissora de rádio conhecida por suas raízes são-paulinas, também conhecida como Jovem Pan, em que ele – aparentemente desesperado com a possibilidade de o Morumbi ser rejeitado para a Copa e se cristalizar como um elefante branco –, atira para todos os lados e nessa artilharia tenta, como é seu feitio, diminuir o Santos, a quem define como “médio para pequeno” e que por isso não deveria receber nenhum aumento nas cotas de tevê.

Juvenal deu a entender que o presidente Luís Álvaro votou em Kléber Leite para presidente do Clube dos Treze porque o candidato da CBF teria prometido aumentar as cotas de tevê do Santos. Juvenal, sem qualquer base estatística, disse que o Santos tem a oitava torcida do Brasil e deixou claro que é contra qualquer alteração no valor das cotas atualmente distribuídas aos clubes.

Como o presidente do São Paulo estava sóbrio e deu entrevista a uma rádio que mesmo não sendo das mais ouvidas, tem o seu público, é importante fazer alguns esclarecimentos:

A pesquisa de torcida mais fidedigna que existe, já falei várias vezes, é a timemania. Lá milhões apostam e escolhem o seu “time do coração”. Não é como certas pesquisas que ouvem meia dúzia de gatos pingados. E pela timemania o Santos disputa com o Grêmio a quinta posição do Brasil, enquanto o São Paulo é o terceiro, separados por míseros 2%. E como movimento de torcida é algo dinâmico, neste momento é óbvio que a do São Paulo está diminuindo e a do Santos crescendo (ou alguma criança, hoje, vai preferir o Rogério Ceni ao Neymar?).

Por outro lado, não é só a torcida que define o quanto um clube deve receber da tevê, mas o que ele representa como espetáculo televisivo. Depois que personalidades do futebol, como Zico e Ronaldo, declararam que não perdem um jogo do Santos, fica evidente qual o time, hoje, atrai mais público em suas transmissões e, consequentemente, dá mais retorno aos anunciantes da tevê.

A empáfia já matou o futebol do Paulistano

Os são-paulinos se orgulham se serem originários do glorioso Paulistano, o maior vencedor da fase amadora do futebol brasileiro. Na verdade, só herdaram os jogadores, que ficaram sem clube para jogar quando o Paulistano fechou o seu departamento de futebol, e fundaram o São Paulo. O Club Athlético Paulistano, como sabemos, continua a existir e é um dos clubes mais elegantes e seletos de São Paulo, encravado nos Jardins, região mais valorizada da cidade. Não tem absolutamente nada a ver com o São Paulo Futebol Clube, no periférico Jardim Leonor.

O São Paulo tem uma origem humilde, pobre mesmo. No início, era só um jogo de camisas, como um time de várzea.  Não tinha sede, muito menos estádio. Não sei se é o caso de se lembrar aqui, mas o São Paulo atual começou nos anos 30 sem um tostão e se valeu das hostilidades e desconfianças da II Guerra para comprar a preço de banana o Canindé de um clube alemão. Depois, tentou apropriar-se do Parque Antártica, já que pertencia ao Palestra Itália, colônia de um país que também estava em guerra com o Brasil, e por fim, graças à participação ativa de Laudo Natel, que era governador do Estado e ao mesmo tempo tesoureiro da construção do Morumbi, ergueu o estádio que tem hoje.

Mesmo nos anos 40, em que teve alguns bons resultados e ídolos como Leônidas da Silva, era um clube de torcedores de baixa renda, quase todos empregados em empresas do Estado, a ponto de ser chamado de “o time dos funcionários públicos”.

Mas o que eu queria dizer é que o Paulistano, que tinha um líder poderoso e intransigente, o senhor Antonio Prado Júnior, fez e desfez tanto no futebol paulista, que acabou marginalizado. Com a ascensão dos clubes mais populares Corinthians e Palestra Itália (Palmeiras), o Paulistano tentou mudar as regras do jogo várias vezes, a ponto de criar uma outra liga, porém, quando viu que a popularização do esporte era irreversível e ele não era mais o xodó das arquibancadas e da mídia, fez beicinho e afastou-se definitamente do futebol.

Juvenal e os prejuízos ao São Paulo

Há uma explicação para o fato de, para muitos torcedores, o São Paulo ter se tornado um reduto de refugos santistas, como Léo Lima, Rodrigo Souto, Cléber Santana e André Luis. A verdade é que falta dinheiro para o clube contratar. Sim, o São Paulo também está com sérios “problemas de fluxo de caixa”.

Tudo começou com mais um palpite infeliz de Juvenal Juvêncio, que diante do impasse de quanto cobrar pelo aluguel do estádio ao Corinthians, disse que quem não tinha casa tinha de jogar na casa dos outros e se sujeitar às condições do locatário. Foi o bastante para que o clube mais popualr do Estado decidisse não jogar mais no Morumbi.

Com isso, o São Paulo não perdeu apenas a comissão pelo aluguel do estádio. Perdeu alguns milhões de reais de empresas que pagavam por placas de publicidade no Morumbi. Sem jogos de Corinthians, e também de Santos e Palmeiras, obviamente a visibilidade do Cícero Pompeu de Toledo se tornou bem menor. Andrés Sanchez me disse que o maior dos anunciantes do Morumbi chegou a ligar para ele antes de renovar o contrato com o São Paulo. Quando soube que era definitivo que o Corinthians não jogaria mais lá, decidiu não renovar.

Desespero para salvar o elefante branco

Com a Copa, há a possibilidade de a região metropolitana de São Paulo contar com um estádio novo e moderno, que tornaria o Morumbi obsoleto, usável apenas pelo seu proprietário. É óbvio que isso seria providencial para Corinthians e Santos, times que têm grande massa de torcedores na Capital e poderiam adotar o novo estádio como seu. Mas para o São Paulo seria um horror. Essa possibilidade parece estar tirando o sono do presidente são-paulino.

Quem vai ao futebol em São Paulo sabe que a pior alternativa é o Morumbi. É distante, as vias de acesso são raras e difíceis. Há pontos cegos no estádio, sim, falta estacionamento e a segurança em torno é precária. O velho Pacaembu é, de longe, a melhor opção para o torcedor paulistano.

Entretanto, ainda sinto uma boa vontade geral dos paulistas para que São Paulo receba um dos grupos da Copa. Que seja no Morumbi, Pacaembu ou no novo estádio que virá. Na verdade, por tudo que representa para o futebol brasileiro, o melhor estádio brasileiro deveria ficar aqui. Como o Morumbi é o maior, apesar de precário, tolera-se o estádio são-paulino. Porém, mais uma vez a artilharia de Juvenal Juvêncio pode transformar parceiros em adversários e colocar tudo a perder. Para o seu orgulhoso São Paulo.

Clique AQUI para ouvir a íntegra da entrevista de Juvenal Juvêncio na Jovem Pan