Amigo, não sou um homem crédulo, mas que entre o céu e a terra há mais mistérios do que nossa vã filosofia pode supor, não tenha a menor dúvida. Nada acontece por acaso. Há o imponderável, claro, mas mesmo este parece obedecer a uma certa ordem. Passei a segunda-feira meditando sobre o jogo de domingo e cheguei a uma descoberta reveladora…

No meio da tarde recebi o amigo Saul Gallegos, um professor de Educação Física que aprendeu a amar o Santos na Bolívia de sua infância. Herdou a paixão do pai, que jogou no Strongest. Há poucos santistas tão entusiasmados como o Saul. Se nas vacas magras ele já vê qualidades no time, imagine agora. 

O que impressiona, porém, é que o Saul parece enxergar coisas que outros não percebem. O homem é daqueles meio gênio, meio maluco, e diz, com um sorriso desse tamanho, que nunca temeu pelo título, nem mesmo quando a bola bateu na trave, no finzinho do jogo.

O destino, os deuses, a energia universal, sei lá, nem Saul sabe definir direito, mas o certo é que aquela bola não poderia ter entrado. Mesmo as injustiças têm limite. Mas e as expulsões, Saul? Não teve medo de que não houvesse jogador suficiente para segurar o Santo André?

A resposta é um sorriso, um brilho estranho nos olhos e a reafirmação de que não importa com quantos jogadores o Santos ficasse, nada faria ele perder o título… O Saul foi embora e fiquei matutando.

Tenho a mania de achar que tudo na vida são peças de um quebra-cabeça que, se tivermos paciência e sabedoria, sempre poderemos montar. Então, repassei o jogo e, além da exibição-solo de Paulo Henrique Ganso, que parecia um moleque de pelada desses que segura a bola e não dá pra ninguém, ficou-me, imenso, fatídico, inexplicável, o número 8.

Sim, oito jogadores foi o que restou ao Santos. Disse bem o elegante presidente Luís Álvaro: estes oito foram como os 300 de Leônidas que impediram a tropa persa de atravessar o Desfiladeiro das Termópilas. Heróis, heróis, heróis como poucos no futebol.

Mas não eram 300. Eram oito. E o que significa este oito? Acredita em numerologia? Pois bem. Representa vitória e prosperidade. Isso mesmo! Por isso é o número de sorte dos chineses. Belo e aerodinâmico 8, que um dia foi de mestre Mengálvio…

Oito que foi o maior número de gols que Pelé marcou em um jogo (11 a 0 no Botafogo de Ribeirão Preto, em 1964), que foi também a maior goleada no maior rival (8 a 3 no Corinthians, em 1927) e a maior goleada que um campeão argentino sofreu em seu país (8 a 3 no Racing, em 1962).

Mas o oito, o número 8, meu amigo, não é só isso – se bem que vitória e prosperidade já são muita coisa. Mas o 8 é ainda mais. O oito, deitado, deitadinho, é o símbolo do infinito. Sentiu-se iluminado agora? Pois é. O Santos não ficou com oito jogadores por acaso.

Essa alegria, essa fome danada de gol, essa arte irreverente, isso tudo nunca abandonará o Santos. Sempre haverá novos Meninos da Vila, famintos de gols e traquinagens, cada vez mais rápidos, malabaristas, vitoriosos. Esta é a mensagem que o jogo de domingo nos deixou. Por isso, o título tinha de ser ganho com oito jogadores, este número lindo, pleno, insuperável, que simboliza aquilo que não tem fim.