Ronaldo, culpado ou inocente?

Vi uma entrevista de Ronaldo, ontem, em que ele, amargurado, pediu um tratamento especial por parte dos torcedores, chegou a citar o exemplo de Michael Jordan, segundo ele tratado como Deus pelos norte-americanos. Entendo o sofrimento do jogador do Corinthians, mas não posso concordar com suas queixas…

No Brasil, todo mundo sabe, é preciso matar um leão por dia para continuar justificando a fama. Isso obviamente tem o seu lado ruim, mas também tem o aspecto positivo. Essa visão desmistificada obriga a personalidade em questão a continuar fazendo jus ao prestígio angariado.

No caso de um jogador aposentado, a cobrança é menor, claro. Ele já fez a carreira, sua história pode ser contada por inteiro, não tem mais metas a atingir. Não é o caso, porém, de Ronaldo.

A partir do momento em que resolveu se manter como atleta profissional e fez questão de receber um salário condizente com o nível esperado de seu futebol, Ronaldo também se expôs ao crivo da opinião pública. Quando se é pago para exercer uma atividade, é natural que a contrapartida deve ser um desempenho compatível com o que se recebe.

No caso do Corinthians, era evidente que a simples presença de Ronaldo traria importantes dividentos. O diretor de marketing do clube, José Paulo Rosenberg, disse-me em entrevista para a revista FourFourTwo, que Ronaldo compensou com sobras o investimento feito nele. Até aí, ótimo…

Mas havia uma meta, um objetivo maior a ser alcançado, e este era o primeiro título da Copa Libertadores na história do Corinthians. E para que isso acontecesse, todos os envolvidos deveriam se empenhar ao máximo, Ronaldo inclusive.

A questão colocada agora por boa parte dos corintianos é: Ronaldo se empenhou o suficiente para ajudar na concretização do sonho corintiano?

Sua forma física diz que não. Diante dos eternos quilos a mais, sinal visível de negligência, não dá para acreditar que ele fez o máximo para a ajudar seus companheiros.

Na entrevista, choroso, Ronaldo alegou que as pessoas não sabem, mas ele convive com dores terríveis para continuar jogando. Ora, fica a pergunta: se não tinha condição de jogar, por que aceitou o contrato mais generoso de um jogador de futebol no Brasil? Não teria sido mais honesto alertar o Corinthians de que poderia ser, sim, um importante instrumento de marketing, mas que não contassem mais com seus dotes de atleta?

Acompanhei, como jornalista, muitos ídolos do esporte desde o nascedouro, desde que eram invariavelmente pobres e desconhecidos, até o momento da fama e da fortuna. Sempre que pude e me deram a oportunidade, alertei-os para o bônus que a condição de ídolo traz. A vida do astro deixa de ser privada e a cobrança pelo seu desempenho é proporcional ao dinheiro e a fama que granjeia.

Muitos, ou quase todos, infringem as regras éticas e morais da sociedade, mas ao ídolo esses desvios não são permitidos. Por isso, por exemplo, Pelé, mesmo gostando de uma birita, nunca fez comercial de bebida alcoólica. Há uma imagem a zelar (o Rei pisou na bola outras vezes, é certo, mas ao menos não usou sua imagem para convencer os jovens que beber e fumar é bom).

Assim, não me sensibilizo com ídolos chorões. Se são ou foram ídolos, tiveram um poder imenso. Bastava ter cabeça e caráter para saber lidar com ele. Se não têm, ou não tiveram essa sabedoria, se se julgaram acima do bem e do mal, que agora, humildemente, aprendam com o bônus que vem com a idolatria.