Amanhã é o grande dia. Neymar mostrará o que é crescer nos grandes momentos.

A frase deste título eu trouxe do tênis, esporte em que é comum, em torneios amadores, o jogador muito superior ao outro dar uma colher de chá para o adversário antes de sacramentar a vitória. Sabe como é… Está fácil, o outro vai tomar uma bicicleta (6 x 0 e 6 x 0) e então o favorito deixa o oponente, muitas vezes um amigo fora das quadras, fazer ao menos um gamezinho. Claro que isso nem sempre termina bem…

Lembro-me como se fosse hoje de uma partida que fiz por um torneio de jornalistas, na quadra da academia de Wilton Carvalho, no Morumbi. O adversário era um amigo do Hobby Sports Club, do qual éramos sócios. Antes do jogo, ele teve a cara de pau de me pedir, baixinho: “Não vai dar de zero, hein…”.

Bem, eu era o número um do ranking da imprensa, posição que ostentei por 14 anos. Obviamente os adversários se viam diante da derrota iminente ao me enfrentar. Mas nunca gostei de dar colher de chá pra ninguém. Se era para dar de zero, eu dava e fim de papo. Guardava a cortesia e a simpatia para depois, na hora da cerveja.

Como se esperava, o jogo, em um único set, com tiebreak caso empatasse em 5 a 5, foi dominado por mim desde o começo. Minha esquerda cortada era muito boa e machucava o adversário, que acabava errando. Assim cheguei a 5 a 0, portanto a um game da vitória. Mas aí bateu a piedade de meu pobre companheiro de clube…

Custava deixar o rapaz fazer um game? Claro que não. Então, deixei. Joguei, de propósito, umas bolas na rede, cometi uma ou duas duplas-faltas e finalmente o Vicente, era este o seu nome, saiu do zero. Porém, o jogo não ficou nisso…

Animado e aliviado pelo ponto conseguido, meu adversário soltou o braço, passou a bater mais forte e arriscar bolas que normalmente não ousaria. Os colegas que assistiam à partida, por sua vez, juntaram-se ao redor da quadra e passaram a torcer, ostensivamente, para aquele que era a zebra.

Eu, ainda achando que poderia fechar o jogo quando quisesse, mantinha-me aparentemente calmo. Mas a mesma bola, batida do mesmo jeito, parecia já não ir mais para o mesmo lugar. Fui perdendo o controle da partida e o malandro do Vicente, que estava longe de se contentar só com um game, passou de cordeiro a lobo, lutando bravamente pelos pontos.

Assim o homem diminuiu para 5 a 2, 5 a 3, 5 a 4. E no meu saque tive vantagem contra. A esta altura, nem é preciso dizer que tudo em volta se transformou em um circo. As pessoas gritavam, riam, me azucrinavam, fazendo com que perdesse a concentração (é duro ser o melhor e ter de suportar a inveja dos medíocres).

Como Robinho, que disse ontem que para ser campeão trocará as pedaladas por carrinhos, eu deixei a categoria de lado e passei também a lutar pela bola como por um prato de comida. Na hora agá minha maior experiência prevaleceu e fechei a partida em 6/4.

Ficou-me, porém, a experiência: nenhum adversário está completamente batido a não ser que o jogo tenha terminado. Esta é uma lição que serviu a mim e serve de exemplo aos meninos da Vila amanhã.

A exemplo de Catão, que ao final de cada discurso no senado romano pedia que Cartago fosse destruída, eu peço hoje, às vésperas da decisão, que o Santos destrua o Santo André. Não com violência, claro, mas com um futebol atento, aplicado, agressivo.

Que jogue bem tanto na defesa como no ataque, que nada permita ao adversário e ao mesmo tempo consiga tudo. E que continue atuando da mesma forma quando tiver uma vantagem de três, quatro, cinco gols.

E se o Santo André, vendo a viola em cacos, começar a apelar e tiver jogadores expulsos, que o Santos continue atacando e fazendo gols, até que não reste pedra sobre pedra, ou jogador sobre jogador.  Este é o espírito de um time que quer ser campeão.

Depois do jogo, elogiaremos a campanha do time do ABC. Durante a partida, porém, que os jogadores do Santos nunca se esqueçam que estes adversários – aparentemente humildes e boas praças – é que podem lhes tirar uma conquista justa e provocar-lhes uma tristeza que jamais será esquecida.