Até onde o Santos poderá chegar se não vender os dois?

Os 30 milhões de euros que o Real Madrid parece estar disposto a pagar pelo passe de Paulo Henrique Ganso quitariam a parte mais preocupante da dívida do Santos. Restariam ainda R$ 100 milhões de débitos fiscais, que vem sendo pagos gradativamente. Mas a pergunta que não quer calar é: a nova diretoria do quer tornar o Santos novamente um dos times mais vitoriosos e conceituados do planeta, ou colocar a casa em ordem e se manter entre os grandes do Brasil está bom?

Como o Santos já é um dos grandes do País e da América do Sul e sua dívida pode ser normalmente paga ou drasticamente reduzida, em dois ou três anos, e como o tema que levou esta diretoria ao poder dizia “O Santos pode mais”, estou certo que a busca desse “mais”, desse plus, passa por manter um time forte e competitivo. Aliás, é exatamente isso que tem afirmado o presidente Luís Álvaro Ribeiro, o simpático Laor.

Com a bênção dos céus a Vila Belmiro tem, hoje, mais uma geração iluminada. Enquanto continuarem juntos, Ganso, Neymar, André, Wesley, Arouca & Cia certamente brindarão os torcedores – santistas ou não – com espetáculos que muitos já julgavam extintos.

Mais do que elevarem o nível do futebol do Santos, estes jogadores, apoiados pela filosofia ofensiva implantada pelo técnico Dorival Junior, têm ajudado o futebol brasileiro a viver momentos de satisfação e orgulho. É bom ver o Santos jogar não só pelo Santos, mas porque o adversário também é instigado a mostrar o seu melhor futebol, o que resulta em jogos memoráveis, com muitos gols.

Caso o Santos siga o mesmo roteiro de outros grandes clubes brasileiros e se desfaça de seus craques para “fazer caixa”, obviamente deixará de ter problemas financeiros. Mas aqui venho com outra pergunta: Um time de futebol deve ser administrado na mesma forma que se administra um banco? Que tipo de lucro deve mover uma empresa cuja matéria-prima é a paixão?

O que se ganha e o que se perde com a saída de um ídolo

A saída de Ganso e Neymar só podem dar ao Santos uma coisa: dinheiro. Bem, este é 100% do objetivo de uma organização financeira. Mas será que para um clube de futebol, só isso basta? Nem é preciso ouvir o torcedor para se chegar à conclusão de que não, é muito pouco.

Mais do que um belo estádio, um CT moderno e uma infraestrutura invejável, um time de futebol só se realiza nas vitórias, nos títulos, nas grandes jornadas. Elas é que constroem uma tradição, uma história. Momentos de sonho que serão contados e revividos através das gerações.

Há, ainda, um benefício concreto gerado por um grande time: ele seduz e sensibiliza pessoas de todas as idades, ele torna a equipe mais popular, com mais adeptos – e isso, os profissionais do marketing sabem muito bem, é a condição indispensável para que um clube se instale entre os maiores do futebol.

A cada dia em que Ganso e Neymar estiverem vestindo a camisa do Santos alguma criança deste País estará tomando uma das decisões mais importantes na vida de um brasileiro: escolher um time para torcer e, ao mesmo tempo, tornando-se um dos “escolhidos”.

O mercado brasileiro tem como manter super craques?

Surpreendi-me outro dia ao constatar que os valores pagos pelo patrocínio de camisa de um grande time europeu já está se aproximando de alguns destinados aos maiores clubes do Brasil. A maior diferença ainda está nos valores advindos da tevê, o que deve ser corrigido com a com concorrência crescente entre as maiores redes.

A arrecadação nos estádios ainda dá ampla vantagem aos clubes da Europa, mas a tendência, felizmente ou não, é de que o espetáculo também seja mais valorizado por aqui. Os estádios, pela necessidade de se aparelhar para a Copa de 2014, se tornarão mais modernos, seguros e confortáveis, mas haverá um preço a ser pago por isso.

Assim, creio que a tendência é a de que aumente a possibilidade de se manter grandes jogadores no Brasil, mesmo muito jovens, como Ganso e Neymar. Sei que ao menos por agora seria impossível pagar os mesmos salários que se oferece na Europa, mas talvez se possa chegar a 60% ou 70%, que, somados a um custo de vida mais baixo, o conforto de continuar em sua casa, ao lado de amigos e familiares, e com maior probabilidade de se atingir o status de ídolo, façam muitos optarem por ficar.

Obviamente haverá obstáculos para se conseguir isso: o primeiro é o empresário, o agente, que só embolsará sua pequena fortuna se o seu atleta for negociado; o outro é o próprio jogador, que sonha com a Europa porque foi catequizado para achar que esse é o caminho natural do craque, caminho que o levará, um dia, a ser considerado o melhor do mundo (como se só pudesse ser o melhor do planeta se atuasse por lá).

O Santos pode mostrar o caminho

Não sei precisar como conseguir condições financeiras e mercadológicas para manter Ganso e Neymar no Brasil por toda a carreira. Mas que é, ou será possível, não tenho dúvidas. Há personagens do show business nacional que já ganham mais do que os maiores astros do futebol europeu, e não têm a mesma popularidade e carisma que os Meninos da Vila já granjearam em tão pouco tempo.

Bem, este é um quebra-cabeças para Armênio Neto, Duda e a equipe de marketing do Santos. E também um estímulo para que os ricos investidores que emprestaram seu nome à campanha de Luís Álvaro digam a que vieram e coloquem as mãos nos bolsos não só para manter estes ídolos precoces no Brasil, mas para provar que é possível reverter o êxodo abominável de nossos craques para o futebol europeu.