No livro Time dos Sonhos falo do junho mágico de 1969, em que o Santos foi campeão paulista, da Recopa Mundial e cedeu oito titulares para a Seleção Brasileira que venceu a Inglaterra, no Maracanã, por 2 a 1. Obviamente este junho que agora começa, um mês de férias forçadas devido à Copa, não trará conquistas dentro do campo. Mas será decisivo fora dele.

Não é segredo para ninguém que o Santos sofre assédio internacional pelos seus craques. Também não é segredo que o clube tem uma dívida anunciada de R$ 177 milhões. Outro fato que não é novidade é que as verbas arrecadadas pelo Santos ainda não permitem pagar salários equivalentes aos oferecidos pelos grandes times europeus. Somando-se tudo isso, é natural que o santista tema pela perda de seus ídolos.

Na enquete deste blog, aí do lado esquerdo, constata-se que o maior desejo do torcedor do Santos, opção assinalada por 57% dos 921 internautas que participaram da pesquisa, é “saber que o Santos manterá esses jogadores por muitos anos”.

Sei que esta foi a promessa do presidente Luis Alvaro de Oliveira Ribeiro e acredito que tenha sido sincero quando a fez. Manter um time com Ganso, Neymar, Robinho, André, Wesley, Arouca, Marquinhos, um time que joga com beleza e eficiência, é o sonho de todo dirigente. Porém, sabemos também, os fatos, os interesses de cada um, podem levar a decisões que afetem esse objetivo coletivo.

O que um jogador ganha, e o que perde, quando sai do Brasil

Boa parte dos jogadores brasileiros perde qualidade técnica, autoconfiança e popularidade quando sai do Brasil. Os casos são tantos, que nem vale a pena enumerá-los. Escrevi muito sobre isso quando Robinho esteve para ir embora, e hoje posso perguntar: além de dinheiro, muito dinheiro, o que mais ele ganhou lá fora?

Tivesse permanecido no Santos e provavelmente só não seria tão milionário quanto é, mas seria mais amado, mais ídolo e teria deixado para sempre o seu nome no clube, pois com ele, fatalmente, novos troféus teriam de conseguir espaço no congestionado Memorial de Conquistas da Vila Belmiro.

Hoje a questão não é apenas o que dizer para convencer Ganso e Neymar e não irem. A questão é se a saída deles não passou a ser uma questão de sobrevivência para o Santos, que precisa resolver seus “problemas de fluxo de caixa”.

O que mais um time pode fazer para atrair grandes patrocinadores?

Quando se recorda tudo o que o Santos fez neste semestre – quando, mais do que vencer e conquistar o título paulista, tornou-se a representação alegre e dançante do futebol-arte do Brasil –, pergunta-se: o que mais um time de futebol pode fazer para atrair patrocinadores do mesmo nível dos clubes mais ricos do mundo.

Pela primeira vez, que eu me lembre, um time que não disputou a Copa Libertadores tornou-se a sensação do Brasil e passou a ser considerado o melhor do País, aquele a ser batido. E quanto mais duvidavam dele, mais sua excelência era provada.

Caíram os grandes de São Paulo, de maneira inapelável, depois, na Copa do Brasil, foi a vez do campeão de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul também serem batidos. Enfim, não restou mais nenhuma dúvida sobre a categoria dos Meninos.

O mais difícil foi feito, que é, dentre as muitíssimas imponderabilidades e alquimias do futebol, gerar um time fantástico, como há muito não se via. O que falta, agora, é mantê-lo aqui, jogando para nós vermos, o que é bom não só para os santistas, mas para todos os que amam o futebol bonito.

Sem contar – e isto talvez seja o mais importante para o futebol brasileiro – que a magia do futebol do Santos desafiou os outros times a jogarem melhor também, a serem mais ofensivos, a buscarem a jogada mais bonita, a darem o que têm o que não têm para vencer os Meninos.

Não é à toa que os jogos do Santos são sempre aguardados com expectativa, pois além dele, o adversário também se esmera, o que torna o jogo vistoso e empolgante (com exceção do último, em que o grande Cruzeiro, há pouco considerado o melhor time do país, jogou com quatro volantes no meio-campo, mesmo atuando em casa, para impedir a derrota).

Deixar que o Santos se desmantele não é um problema só do Santos. Sem essa harmonia que vem da Vila, o futebol brasileiro como um todo cairá nos mesmos níveis dos últimos anos, em que prevaleceram esquemas retrancados e o objetivo era apenas o resultado, do jeito que fosse.

Se estas empresas que andam aproveitando a Copa para ligarem suas imagens ao esporte mais popular do planeta estiverem realmente preocupadas em manter a imagem mágica do futebol brasileiro, então precisam pensar seriamente em manter o show dos Meninos da Vila.

Liguem lá pra Vila, peçam departamento de marketing e tentem descobrir como fazer com que, além da melhor Seleção, o Brasil mantenha o melhor time de futebol do planeta.