Não gastei muita tinta para falar dos erros grosseiros de arbitragem nos jogos de ontem, na Copa, porque já disse tudo o que tinha para dizer sobre isso após a final do Campeonato Brasileiro de 1995, mudada de mãos pelas falhas grotescas do árbitro mineiro-carioca Márcio Rezende de Freitas, que validou um gol ilegal, anulou um legal – ambas decisões prejudiciais ao Santos – para em seguida ser premiado com a indicação da CBF para representar a arbitragem brasileira na Copa do Mundo de 1986.

Na época, diretor da Revista do Futebol, fiz um editorial intitulado “O erro é mesmo essencial ao futebol?” que serviria para definir também a falhas de ontem, na Copa, quando a Inglaterra foi surrupiada em um gol legítimo e a Argentina, mais uma vez, ganhou com um gol ilegal.

Em 1995, 14 anos e meio atrás, meu editorial já dizia: “Não há nenhuma razão plausível e honesta para que o futebol continue sendo um esporte pré-histórico em plena era da eletrônica. Se os recursos da tevê podem comprovar, em segundos, o acerto de uma marcação, por que conviver com a falha eternamente?”.

Ontem, quando o bandeirinha foi consultado sobre o gol de Tevez, deveria ter usado o bom senso e dito que tinha mudado de idéia e que havia impedimento, pois todo o estádio – ele, inclusive – já tinha visto no telão que a posição do jogador argentino era irregular. Manter a decisão porque não se pode valer de recursos eletrônicos é a atitude mais estúpida e arcaica que um árbitro pode ter.

Polêmica ou Credibilidade?

Gente do meio, entre eles dirigentes, técnicos e até mesmo joagdores, defendem que o futebol precisa de polêmica, que não vive sem ela. Ora, eu pergunto: será que a credibilidade não faria mais pelo futebol do que essas discussões que só mostram a precariedade de um esporte que se recusa a evoluir?

As discussões sempre existirão no futebol, movidas pelas paixões dos torcedores, pela comparação de times e atletas – e pela interpretação dos árbitros. Eu disse interpretação. Sempre se discutirá se tal jogador merecia ser expulso, se foi bola na mão ou mão na bola e outras questões da arbitragem.

Mas qual é a graça e que proveito pode trazer a um esporte constatar-se que uma bola entrou mais de 30 centímetros e o gol não foi dado? Ou que um jogador estava em posição irregular e se valeu dela para marcar um gol decisivo, que contribuiu para eliminar o adversário de uma Copa do Mundo?

Um dos grandes benefícios desta Copa está sendo a divulgação do futebol para centros importantes, nos quais ele tem tudo para se tornar ainda mais popular. Além, naturalmente, dos países da África, continente que recebe o evento pela primeira vez, creio que este Mundial será um marco para Estados Unidos e Japão, mercados ricos e promissores, nos quais o futebol deverá crescer significativamente.

Como se sabe, boa parte da opinião pública norte-americana resiste ao futebol nos Estados Unidos, pois o esporte viria afetar os interesses de outras modalidades já estabelecidas e consagradas, como o futebol norte-americano e o beisebol. Esta Copa estava mudando isso. Creio que ainda está, mas os erros de arbitragem de ontem estão sendo usados pelos inimigos do futebol nos Estados Unidos para depreciar o esporte.

Acostumados a modalidades como o tênis, que dá ao jogador a possibilidade de pedir a ajuda do olho eletrônico para revisar a marcação do árbitro, é inadmissível para o norte-americano a incongruente imobilidade do futebol, que permite a cristalização de um erro confesso.

O mundo mudou e os velhinhos da Fifa precisam acordar para a nova era. A eletrônica tornou o torcedor menos tolerante com os erros de arbitragem. A polêmica não tem mais graça, principalmente quando ela representa falta de confiança nas regras do esporte.