Estranhei quando, no programa do Jô Soares, o goleiro Felipe disse e repetiu que só os atacantes do Santos eram valorizados e os da defesa, como ele, não. Ali não era lugar para falar tal coisa. Ali e em nenhum lugar, porque ele não tinha razão na queixa…

Se o Santos se tornou a sensação do futebol brasileiro neste primeiro semestre, isto se deve aos jogadores do meio-campo para a frente. A defesa esteve longe de seguir o mesmo padrão de técnica e eficiência, e o goleiro Felipe, então, ficou bem aquém do que se espera de um goleiro do Santos.

Fez algumas boas defesas? Sim, não resta dúvida. Mas falhou em muitos gols – principalmente largando bolas no pé do adversário –, repôs mal a bola, saiu mal da meta e, o pior, não passou a tão necessária sensação de segurança aos companheiros de defesa e à torcida.

Então, após mais de uma dezena de jogos em que o time levou gols em todos eles, Felipe foi substituído. Normalíssimo. Seu pai se rebelou, ele deve ter se rebelado acintosamente e como conseqüência nem vai para o banco contra o Vasco, amanhã.

Um sinal de maturidade é reconhecer as próprias falhas, e parece que Felipe ainda não adquiriu esse estágio. Um outro é acatar as determinações dos superiores, e isso ele também não aprendeu.

Falta comando a Dorival Junior ou falta caráter aos seus comandados?

Há algo na aparentemente dócil personalidade de Dorival Junior que faz com que não seja respeitado como se deve pelos atletas. Talvez seja bonzinho demais e quando quer impor a autoridade, não é obedecido.

Maquiavel já escreveu, em “O Príncipe”, que os líderes tiranos são tratados como deuses ns raras vezes em que se mostram magnânimos, enquanto os bonzinhos são decapitados quando tentam ser um pouco mais duros. Este, acredito, é o caso de Dorival.

Considero-o um ótimo técnico, que ao menos consegue tirar o máximo de cada jogador. Pode não ser um gênio estrategista, mas o certo é que foi campeão paulista superando Mano Menezes e Ricardo Gomes e, na Copa Libertadores, também passou por Vanderley Luxemburgo e Silas.

Sempre ouvi que o difícil de ser o técnico de um time profissional não é entender de futebol, pois isso todos entendem muito (até nós entendemos um pouquinho, não é mesmo, leitor?), mas lidar com os jogadores é que é a questão – pois poucos deles têm cultura e caráter suficientes para entender as necessidades de um trabalho em conjunto.

“Jogadores de futebol só pensam neles, são egoístas e malandros”, repete um amigo jornalista que cobre o dia a dia de um grande clube paulista. Não sei se podemos generalizar. O que sei é que o ser humano tem mesmo a tendência de pensar primeiro em si mesmo e só depois nos outros.

Um time só faz aquilo que o seu técnico permite, um jogador só desenvolve seu potencial se o técnico não atrapalha. Então, se o mérito de Dorival é fazer pouco e deixar os jogadores à vontade, que continue assim, pois tem dado certo. Será que é tão difícil entender raciocínio tão básico?

Mas se surge a indisciplina e o técnico não sabe lidar com situações hostis, então a diretoria deveria vir em seu auxílio. Jogadores jovens são impulsivos e às vezes grosseiros e mal-educados. Se agir com rigor, um técnico consegue manter a ordem, mas ao mesmo tempo pode desfalcar o próprio time, com suspensões e até dispensas.

A última coisa que o Santos quer, hoje, é perder o concurso de suas estrelas por bobagens extra-campo. Se Dorival, sozinho, não está conseguindo conter a onda de estrelismo e rebeldia dos Meninos, então que o presidente em pessoa explique para os garotos a diferença entre ser um craque de verdade – dentro e fora do campo – e ser apenas alguém que tem alguma habilidade com uma bola de futebol.

Felipe e qualquer outro jogador do Santos que se rebele contra a autoridade do técnico, deve entender que o maior obstáculo para suas carreiras não é Dorival Junior. Ao contrário. Dorival é alguém que confiou neles e lhes proporcionou a liberdade para mostrar seu talento. O maior obstáculo é se acomodar, é deixar de jogar com a alegria e a determinação que os fizeram sair do anonimato.