Já estava preparando outro post quando soube que José Saramago morreu hoje, aos 87 anos, em sua casa em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, provavelmente devido ao agravamento de uma pneumonia.

Desculpem-me aos que esperam deste blog apenas notícias sobre a Copa, sobre futebol, esporte e, mais propriamente, sobre o nosso querido Santos. Saramago não é apenas o meu escritor contemporâneo preferido, é o que mais fez pela língua portuguesa depois de Camões.

José de Sousa Saramago, nascido na província do Ribatejo, Portugal, em 16 de novembro de 1922, foi jornalista, escritor, argumentista, dramaturgo e poeta. De opiniões próprias, era comunista e ateu em um país tradicional e extremamente católico. Por isso, é claro, não era amado por todos os portugueses.

Mas eu via nele – e ainda vejo, pois um escritor continua vivo através de suas obras –, apenas o talento, a visão arguta da vida e das pessoas. Uma honra para nós, que falamos a mesma língua e tentamos lidar com ela da melhor maneira que conseguimos.

Primeiro e único autor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1998, Saramago conquistou o reconhecimento internacional para a nossa língua com obras de destaque, como “Memorial do Convento”,
“Evangelho Segundo Jesus Cristo” e “Ensaio sobre a Cegueira”, do qual incluo abaixo um trailer do filme lançado em 2008 e dirigido pelo brasileiro (e torcedor do Santos) Fernando Meirelles.

Saramago tinha um estilo extremamente criativo e informal, apesar das frases e períodos longos, não aconselháveis no texto moderno. Não usava travessões e as falas das personagens vinham inseridas no texto de forma que poderiam ser reais ou apenas um pensamento, construindo uma intensidade psicológica raras vezes vista em uma obra literária.

Ensaio sobre a Cegueira

“Ensaio sobre a cegueira” é seu livro mais importante, a cereja do bolo que lhe deu o Nobel de Literatura em 1998, três anos depois de ser lançado. Ele fala de uma misteriosa epidemia de cegueira que assola uma cidade (ou seria um país, o planeta?) e se vai da mesma forma inexplicável que veio, mas não sem deixar profundas marcas e uma visão mais profunda nas pessoas.

Algumas frases extraídas do livro, da maneira como Saramago as escreveu:

“Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem”

“O medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros, São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos, Quem está a falar, perguntou o médico, Um cego, respondeu a voz, só um cego, é o que temos aqui.”

“Lutar foi sempre, mais ou menos, uma forma de cegueira, Isto é diferente, Farás o que melhor te parecer, mas não te esqueças daquilo que nós somos aqui, cegos, simplesmente cegos, cegos sem retóricas nem comiserações, o mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos, Se tu pudesses ver o que eu sou obrigada a ver, quererias estar cego, Acredito, mas não preciso, cego já estou, Perdoa-me, meu querido, se tu soubesses, Sei, sei, levei a minha vida a olhar para dentro dos olhos das pessoas, é o único lugar do corpo onde talvez ainda exista uma alma, e se eles se perderam.”

Trailer do filme O Ensaio sobre a Cegueira.

Momento histórico, emocionante, quando Saramago assistiu pela primeira vez ao filme “Ensaio sobre a Cegueira”, ao lado do diretor Fernando Meirelles.

Algumas frases de Saramago (que exprimem sua visão da vida e das pessoas)

Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar.

Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é só um dia mais.

Não sou um ateu total, todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não o encontro.

Dirão, em som, as coisas que, calados, no silêncio dos olhos confessamos?”

Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo.

De que adianta falar de motivos, às vezes basta um só, às vezes nem juntando todos.

O que as vitórias têm de mau é que não são definitivas. O que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas.

Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.

Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.

Sempre chega a hora em que descobrimos que sabíamos muito mais do que antes julgávamos.

Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória.

Mesmo que a rota da minha vida me conduza a uma estrela, nem por isso fui dispensado de percorrer os caminhos do mundo.

Os lugares-comuns, as frases feitas, os bordões, os narizes-de-cera, as sentenças de almanaque, os rifões e provébios, tudo pode aparecer como novidade, a questão está só em saber manejar adequadamente as palavras que estejam antes e depois.

O talento ou acaso não escolhem, para manisfestar-se, nem dias nem lugares.

Quem acredita levianamente tem um coração leviano.

Há ocasiões que é mil vezes preferível fazer de menos que fazer de mais, entrega-se o assuntto ao governamento da sensibilidade, ela, melhor que a inteligência racional, saberá proceder segundo o que mais convenha à perfeição dos instantes seguintes.

Bem, talvez você tenha vindo a este blog esperando outras notícias, mas, de qualquer forma, se tiver algo a dizer sobre o escritor José Saramago, que hoje se foi, ou sobre o filme “Ensaio sobre a Cegueira”, dirigido por Fernando Meirelles, a caixa de comentários está à disposição. Obrigado. Forte abraço.