Houve época em que o único estádio em que o Santos ganhava um jogo era a Vila Belmiro. Jogar fora era derrota certa. Nos clássicos em São Paulo, o empate já estava ótimo e, quando fazia gol, era preciso correr todos os programas esportivos para rever o lance. Só isso aplacava a paixão do santista, tão mal correspondida naqueles tempos. Portanto, isto que está acontecendo agora com o Santos, na volta das férias da Copa, não me abala nem um pouco. Sinto, porém, que tem deixado muito torcedor desesperançado, o que só contribui para aumentar a possibilidade de novos fracassos.

Antropólogos descobriram, há duas ou três décadas, o povo mais feliz do mundo. Era uma tribo africana que tinha a incrível capacidade de esquecer as tristezas tão logo aconteciam. Viviam como crianças, a maior parte do tempo refrescando-se em uma cachoeira próxima, sem recordar dos amigos que morriam. Não por frieza, mas por que viver o presente era melhor. Se o torcedor agisse da mesma forma, os clubes não sofreriam crises.

Em 2004, meses depois de lançar “Time dos Sonhos”, fui entrevistado pelo então estudante Olavo Soares, cuja tese de conclusão do curso de jornalismo na USP falava das razões que fazem os times viverem longas filas sem títulos. Eu já tinha pensado muito nisso e cheguei à conclusão de que é um círculo vicioso sadomasoquista que, quando começa, dificilmente é rompido.

O pior problema é a impaciência, que encurta o tempo de trabalho dos técnicos e de adaptação dos novos jogadores. E esse tal de contrata-demite-contrata-demite vai afundando o time, desesperando o torcedor e onerando os cofres do clube. Quando se vê, gastou-se uma fortuna, ainda há débitos com direitos trabalhistas a perder de vista, e o time continua ruim, inferior a outros que investem menos, porém são mais organizados. E pacientes.

Times de grande torcida estão mais sujeitos a estes períodos de crise constante, pois a pressão é maior. A busca por salvadores da pátria gera dirigentes oportunistas que prometem muito e, quando eleitos, às vezes fazem menos do que os antecessores. As cornetas soam a cada derrota e o ambiente se torna inadministrável.

Ao invés de broncas, eles precisam de carinho

A derrota desestrutura o torcedor fanático, pois ele a encara como uma afronta pessoal. É como se pensasse: “Que direito esses caras têm de me fazer infeliz?”. E tome bronca em cima de todo mundo, do jogador veterano ao novato, do técnico ao preparador físico, do diretor de futebol ao presidente. Mas será que tudo fica errado de uma hora para outra?

Não, não fica. Porém, por mais esclarecidas que muitas pessoas ligadas ao futebol sejam, acabam agindo pelo impulso. Se a bola bate na trave e entra, está tudo bem, se bate na trave e sai, está tudo errado. Será que precisa ser assim mesmo? Analisemos este Santos que encantou o Brasil e agora vem de três derrotas consecutivas no Campeonato Brasileiro…

Os jogadores desaprenderam de jogar? Neymar e Paulo Henrique Ganso deixaram de ser craques? Dorival Junior deixou de ser um bom técnico para se transformar em mais um “burro”? Luís Álvaro, de esperança de renovação na direção do Santos, virou mais um político fazedor de média?

Não, claro que não. Mas a mágoa do torcedor diz tudo isso, como a mãe que xinga o filho que ama apenas para mexer com seus brios e fazer com que lute contra os obstáculos da vida, ao invés de entregar-se a eles.

É lógico que todos os envolvidos querem continuar vencendo, pois é o sucesso que inspira respeito, traz fama e fortuna. E é lógico que o santista continuará amando Robinho, Neymar, Ganso, Wesley, Arouca e todos os outros que na primeira metade deste ano tornaram o Santos uma referência mundial do futebol-arte.

Então, para definir o comportamento ideal de um torcedor nas horas difíceis de seu time, eu emprestaria uma frase que sintetiza a postura correta dos pais diante de filhos adolescentes: Quando eles menos merecem, mais precisam de carinho.

Eu sei que alguns Meninos devem estar com a cabeça na montanha de dinheiro que pode entrar nas suas contas; que outros estão deslumbrados com as mulheres bonitas que, imaginaram, nunca lhes daria bola; que, enfim, estão se julgando os reis da cocada preta. Isso é ruim? Não sei. Arrogância é, mas autoconfiança nunca foi. Ao contrário.

Imagino também como deve ser difícil vencer no mundo competitivo e às vezes selvagem do futebol, em que adversários grosseiros e invejosos chutam por trás, dão cotoveladas no seu rosto, cabeceiam sua nuca, xingam, provocam, ameaçam quebrar sua perna a cada partida. E se, nas arquibancadas, ao invés de amigos, você tem inimigos, aí é que dá vontade de largar tudo e procurar outro clube.

Por tudo isso é que, mesmo perdendo a paciência às vezes, como todo torcedor, o meu lado racional, quase zen, diz que o que esses rapazes precisam é de compreensão e carinho. Um recado tipo: “Sei que em outros clubes vocês seriam xingados, ameaçados, banidos, mas no Santos é diferente. Nós entendemos que vocês estão tentando fazer o melhor e, assim como estivemos ao seu lado nas vitórias e nos sorrisos, continuamos com vocês nesse momento difícil. Façam sua parte em campo, que nós faremos a nossa fora dele”.

Às vésperas de decisão mais importante para o clube dos últimos seis anos, seria uma falta de inteligência descomunal contribuir para arruinar o ambiente do futebol do Santos. Como aquela feliz tribo africana, o torcedor deve esquecer o que aconteceu ontem e permitir que os Meninos reúnam as forças e partam, confiantes, para o seu objetivo. Sim, porque o papel da torcida é ser, mesmo, o décimo-segundo jogador, e não o segundo e implacável juiz.

A sensação de ser especial

Livros autografados para o Papai

Tenho oito exemplares do “Ser Santista, um orgulho que nem todos podem ter” e do livro de bolso “O time do meu coração”. Acho que podem ser bons presentes para o Dia dos Pais, não? Posso enviar pelo correio. Os interessados devem entrar em contato comigo pelo e-mail odir.cunha@uol.com.br