Aumentam as possibilidades de uma transferência de Neymar para o Chelsea, o que deixa o torcedor santista irritado, mas tira sorrisos de orelha a orelha do agente do jogador, o conhecidíssimo Wagner Ribeiro – o mesmo que tirou Robinho do Santos para entregá-lo ao Real Madrid em 2005.

O quadro parece irreversível, pois o clube inglês está perto de pagar o total da multa, o que daria ao Santos os R$ 48,2 milhões de reais pelos 60% que possui do passe de Neymar. Obviamente, o agente do jogador, Wagner Ribeiro, é o mais excitado com a possibilidade do negócio, pois embolsará uma boa bolada com a transação. Ele disse que falará com os pais do garoto e tentará convencê-los de que “o cavalo está passando arriado”.

O presidente Luis Álvaro Ribeiro diz que não vende, mas como o clube tem uma dívida respeitável e o dinheiro serviria para aplacá-la, não me surpreenderia se o negócio acabasse saindo mais cedo do que se imagina.

É uma pena que essas histórias de ídolos precoces do futebol brasileiro sempre terminem assim, mas a verdade é que a combinação de fatores torna irreversível a evasão de nossos craques. Os clubes daqui não podem pagar o mesmo do que os de lá e os clubes brasileiros vivem de chapéu na mão.

Não se discute as boas intenções de Luís Álvaro, que assumiu o clube com o propósito de não vender jogadores e montar um bom time por muito tempo, mas a realidade do mercado do futebol joga por terra esse entusiasmo inicial.

A verdade é que não se pode obrigar um jogador a ficar no clube se a tal da multa é paga. E, no auge da juventude, quem não quer viver uma experiência enriquecedora – em todos os sentidos – na Europa?

Se o mercado brasileiro proporcionasse planos de marketing capazes de segurar esses ídolos, com rendimentos compatíveis aos da Europa, além de manter em alta sua popularidade, creio que o sonho seria possível, mas ainda não se chegou a este ponto. Até a escolha do melhor jogador do mundo só leva em conta os que atuam por lá, em um flagrante desrespeito aos sul-americanos.

Clubes brasileiros sempre perdem, pois não há dinheiro que pague um ídolo

Por mais dinheiro que um clube brasileiro receba em uma transação dessas, ele sempre acaba perdendo. O potencial técnico e, principalmente, o prestígio que também se vai com a saída do ídolo exige um bom tempo para ser restaurado.

Ao perder Falcão o Internacional passou a ser um time comum, assim como o Flamengo com a saída de Zico. Poucos sabem, mas o Santos chegou a liderar o Campeonato Brasileiro de 2005, mas foi só Robinho ir embora e o time entrou em um marasmo que só lhe permitiu os títulos estaduais de 2006 e 2007.

Mais do que títulos, a ausência dos ídolos diminui o carisma e o poder de atração que um time exerce nas massas, principalmente entre crianças e adolescentes, que estão se iniciando na paixão do futebol. É incomensurável o que Neymar, Paulo Henrique Ganso e Robinho deram e estão dando ao Santos neste primeiro semestre de 2010.

O amigo Vítor Queiroz acaba de me enviar o relatória da Caixa Econômica Federal com o acumulado da Timemania deste ano e o Santos se consolida como o quarto time mais apostado, com 5.000 votos à frente do Palmeiras; 13.000 à frente do Grêmio; 127 mil à frente do Vasco e 151 mil a mais do que o Internacional.

Não há dúvida de que estes Meninos da Vila estão fazendo com que a simpatia pelo Santos – e, conseqüentemente, a torcida por ele – cresça em um ritmo alucinante. Não é preciso ser um especialista para constatar que se mantivesse Robinho, Ganso e Neymar por mais uma ou duas temporadas, o ganho que isso daria ao Santos seria incalculável e duradouro.

Por outro lado, nem mesmo centenas de milhões de reais dão a um clube a certeza de que terá novamente ídolos e um time vencedor e empolgante, como o Santos foi no primeiro semestre. O que o Inter fez com o dinheiro do Falcão? O que o Flamengo fez com o dinheiro de Zico? O que o santos fez para substituir Robinho?

Para o atleta, ir para a Europa não significa que se tornará um jogador melhor. Os vários exemplos que vemos provam isso. Robinho, por exemplo, é menos eficiente do que era quando deixou o Santos, há cinco anos (tinha melhorado o chute e conseguia até fazer gols de fora da área, algo que não faz mais).

Sair do Brasil também não quer dizer aumento de popularidade. Muitos vão embora e somem, como Alex, ex-Cruzeiro e Palmeiras, que abdicou da chance de voltar à Seleção Brasileira quando resolveu esconder-se na Turquia.

Mas o jogador brasileiro, geralmente de origem humilde, só vê o dinheiro na frente e fica até feliz de resolver um problema que o aflige desde a infância. A pressão para que aceite a transferência não vem só do agente, mas da família, dos amigos, de todos que poderão usufruir de sua nova condição financeira.

Por tudo isso, até agora tem sido impossível que um jogador resista às tentações e fique. Isto só acontecerá quando um clube brasileiro puder oferecer condições financeiras no mínimo equivalentes às de um clube europeus.

Ao Santos resta lutar contra esta tendência. Se for feliz, não só ele, mas o futebol brasileiro agradecerá, pois nossos campos ficarão menos áridos de talento e alegria. Se não der para segurar Neymar, nem Ganso, que arrume a casa, zere as dívidas e inicie um plano para nunca mais ter de passar por este vexame que é ser obrigado a jogar o bilhete premiado pela janela.

Os 10 times mais votados na Timemania no primeiro semestre deste ano

1º FLAMENGO RJ 1.588.931 7,04%

2º CORINTHIANS SP 1.241.535 5,50%

3º SAO PAULO SP 884.924 3,92%

4º SANTOS SP 878.439 3,89%

5º PALMEIRAS SP 873.327 3,87%

6º GREMIO RS 865.075 3,83%

7º VASCO DA GAMA RJ 751.019 3,33%

8º INTERNACIONAL RS 727.220 3,22%

9º BOTAFOGO RJ 654.691 2,90%

10º CRUZEIRO MG 617.631 2,74%