É claro que alguma coisa está errada, e bem errada. O time que foi a sensação do Brasil no primeiro semestre voltou das férias desfigurado. Dorival Junior e os jogadores parecem ter esquecido tudo, como se sofressem um surto coletivo de amnésia. Ontem o Santos perdeu a terceira partida seguida e só sofreu dois gols devido à boa atuação do goleiro Rafael. No entanto, o desespero não leva a nada. O time conquistou com méritos o direito de jogar a final da Copa do Brasil e terá de se motivar para ela, ou o fato entrará para a história como um dos maiores fracassos da história do clube.

A maneira espetacular como se classificou para a decisão da Copa do Brasil – vencendo Atlético e Grêmio, na Vila, em grandes exibições –, fez todos acreditarem que a final contra o Vitória seria mera formalidade. Porém, as últimas três rodadas do Brasileiro mostram que o time baiano está jogando bem melhor e está mais preparado para jogar pelo título que garantirá uma vaga para a Copa Libertadores do ano que vem.

Muitas causas podem ser apontadas para o fracasso do Santos, entre elas: 1 – Ausências de Paulo Henrique Ganso e Marquinhos, que ditam o ritmo do time a partir do meio-campo; 2 – Ausência do lateral Léo, importante pela experiência; 3 – Má fase de Robinho, que voltou derrotado da Copa; de André, que já está de viagem marcada para a gelada Ucrânia, e de Neymar, cujo empresário tem forçado a barra para vê-lo fora do país; 4 – Incapacidade de Dorival Junior de encontrar boas escalações para o time. Ontem ele saiu com o estagiário Zezinho no meio, o que deixou o setor bastante desguarnecido, e insistiu com o paradão Marcel no comando do ataque.

Perder para o Atlético em Curitiba é normal, mas na situação atual dos times foi vexatório. O time do Paraná estava na zona de rebaixamento e jogou sem cinco titulares. Mesmo assim, dominou completamente o Santos e criou inúmeras chances para marcar. Quatro ou mesmo cinco a zero seriam resultados plausíveis diante do volume superior do time paranaense. Como explicar um papelão desses, além das causas já listadas?

Bem, se analisarmos cada compartimento do Santos, veremos que o setor defensivo não poderia mesmo ter se saído bem ontem: Rafael é um jovem goleiro que ganhou a posição graças às falhas e à indisciplina de Felipe, mas ainda não é absoluto na posição; os laterais Maranhão e Pará têm se mostrado inseguros tanto na marcação, como no apoio; a dupla de zaga Edu Dracena e Bruno Aguiar é uma temeridade, e no meio-campo não se pode jogar com apenas um bom marcador, que é Arouca.

Agora é juntar os cacos

O torcedor santista já sonhava com a tríplice coroa, mas este início de Brasileiro não só tirou a ilusão dos três títulos este ano, como colocou em dúvida a conquista antes dada como certa da Copa do Brasil. Bem, é preciso saber adaptar nossos sonhos. Hoje, vencer a decisão com o Vitória e depois tentar fazer uma campanha de recuperação no Brasileiro é o que resta ao Santos – e tanto o time como os torcedores devem se apegar a isso.

Não creio que haja má vontade dos jogadores, ou a intenção de derrubar o técnico. Seria muita burrice, pois com isso estariam desvalorizando a si próprios. O precioso espaço na mídia e o assédio dos fãs só vêm com as vitórias. Ninguém gosta de derrotados.

Por outro lado – e isto deve servir de atenuante para Dorival Junior – o elenco do Santos é limitado e não há verba disponível para contratações. Os que estão aí, ou melhor, os que sobrarem após a janela de transferências, terão a dura e improvável tarefa de levar a equipe a um bom desempenho no segundo semestre.

Ao colocar Zezinho, Dorival arriscou, assim como arriscou quando deu nova oportunidade a Breitner, mas a verdade é que ambos ainda não podem jogar no Santos. Quanto a Marcel, é muito lento para compor um ataque rápido como o santista. Zé Eduardo pode não ser muito mais técnico, porém tem uma mobilidade que está anos luz à frente do preferido do técnico.

É de se esperar que com a volta dos titulares Paulo Henrique Ganso, Marquinhos, Léo e Durval, e com a chance de entrar para a história do clube como os primeiros campeões santistas da Copa do Brasil, o time tenha novo ânimo e grande motivação para o jogo de quarta-feira, contra o Vitória – no qual o triunfo será imprescindível, pois a segunda partida será em Salvador.

Não tenho dúvidas de que na quarta-feira o torcedor do Santos transformará a Vila Belmiro no velho alçapão de sempre e isso trará de volta a inspiração e o entusiasmo que sobraram ao time no primeiro semestre. O bom do futebol, como o Atlético Paranaense provou ontem, é que cada jogo é uma história.