Costumo dizer que santista não costuma ligar muito se os seus rivais ganham ou perdem. Mas há uma exceção. Eu diria uma grande exceção, pois meu amigo Godô exagera. Batizado como Godofredo, ele mesmo estimulou os colegas a chamá-lo pelo apelido. Afinal, Godô lembra a famosa peça “Esperando Godot, do irlandês Samuel Beckett”. Órfão de mãe, o paraense Godô veio ainda criança de Belém morar em São Paulo com uma tia e se apaixonou pelo Alvinegro Praiano. E se apaixonou de uma maneira radical…

Nos conhecemos no nosso primeiro emprego, quando éramos paste-ups da Folha de São Paulo. Nos domingos só trabalhávamos na parte da manhã e à tarde, invariavelmente, íamos ao Morumbi ou Pacaembu ver o Santos jogar. Desconfio que o Santos preenchia um lado carente do Godô, pois uma vitória do time o levara a um estado de euforia, assim como a derrota o mergulhava em fundas depressões.

Creio que, inteligente como sempre foi, Godô encontrou uma maneira de não depender tanto do Santos para ser feliz. Passou a se alegrar também com o fracasso dos rivais. Sim, Godô é dos torcedores que gostam de secar os outros. Um dia lhe perguntei por que sentia tanto prazer na desgraça alheia e ele me explicou:

“É para a minha saúde mental, Odir. Se eu depender só do Santos, posso me sentir perto da morte por causa de um jogo. Mas como a derrota dos inimigos (sic) me alegra, sempre tenho um motivo a mais para sorrir.”

Em outras palavras, o Godô seca mesmo. Resolvi escrever sobre ele agora porque acabo de receber seu telefonema. Depois de falarmos de coisas triviais, como mulheres, filhos, trabalho, dívidas, eleições presidenciais, vida, morte, felicidades e tristezas, entramos em um assunto realmente essencial: o Santos.

Godô está animado com o Santos, mas ficou muito triste com a contusão do Ganso. Disse que até chorou, mas que quando foi surpreendido pela mulher, teve de mentir que estava ficando com conjuntivite. Porém, o que Godô queria me dizer é que a hora não é só de torcer pelo Santos, mas também de secar os adversários.

Os prognósticos secadores de Godô

Meu velho amigo defende a tese que um campeão não se faz apenas de méritos próprios, mas também do fracasso alheio. Para justificar isso, ele tem várias histórias na ponta da língua, como o título brasileiro de 2004, que só veio porque o quase rebaixado Vasco ganhou do Atlético Paranaense em São Januário; ou do título paulista de 1978, só possível porque a Ponte Preta, já sem chances, ganhou do Juventus no Pacaembu.

“Sentir prazer na derrota do adversário aumenta sua chance de ser feliz, Odir, você não entende?”, repetiu pela enésima vez. Para provocá-lo, quis saber sua opinião sobre os jogos deste domingo. Direto e sem qualquer modéstia, ele só retrucou: “Vai dizendo os jogos que eu digo o que vai dar”. Fiz o que ele pediu, pois sei que as análises de Godô chegam a ser divertidas, de tão cruéis.

Corinthians e Vitória, 16 horas, no Pacaembu: “O Ronaldo vai voltar por imposição do marketing e o time deles perderá a embocadura de novo. O Vitória está melhorando. Não sei se dá pra ganhar, mas os baianos não vão perder hoje”.

Guarani e Flamengo, 16 horas, Brinco de Ouro: “O Guarani está fazendo o máximo dentro de suas possibilidades. Não perde do Flamengo nem que a vaca tussa. E o Zico nem vai ficar muito triste, pois ele tem um filho que torce pro Guarani”.

Atlético Mineiro e Palmeiras, 16 horas, em Ipatinga: “Luxemburgo e Scolari vão morrer abraçadinhos, hehehe… Um empate. Zero a zero. Se alguém tiver de perder, será o Palmeiras. Pode escrever aí…”.

Esqueci de dizer que o Godô adorou a mudança de regras dando três pontos à vitória e apenas um ao empate, que se tornou quase uma derrota. Na prática, para ele, o time que não ganha, perde, mesmo quando empata.

Fluminense e São Paulo, 18h30m, Maracanã: “Precisa perguntar, Odir? Os … vão ganhar lá no Maraca. O pó de arroz do Rio não ganha nem a pau esse jogo”.

Atlético Goianiense e Avaí, 18h30m, no Serra Dourada: “Pô, meu, é claro que vai dar Atlético. Os caras deram um chocolate no Palmeiras em pleno Pacaembu, não vão ganhar do Avaí fake? Esse time do Guga é de mentitinha. Hawai que eu conheço é com agá e dabliu. Esse catarinense é fake”.

Atlético Paranaense e Grêmio, 18h30m, em Curitiba: “Olha, o Atlético vai ganhar. O torcedor do Grêmio, que diz que o time deles é imortal, vai ter de acreditar em reencarnação. Esse ano eles vão cair de novo”.

Despedi-me antes que o Godô provocasse um atentado a este blog. Vou esperar para ver se as previsões dele se confirmarão. Se tiverem boa margem de acerto, posso até ouvi-lo mais vezes antes das rodadas. Mas acho que, no fundo, ele é apenas um secador incorrigível…

O que você acha das previsões do Godô? É coisa de torcedor fanático ou têm algum fundo de verdade?

A seguir, um dos jogos preferidos de Godô: a vitória do América do México sobre o Flamengo por 3 a 0, em pleno Maracanã, resultado que eliminou o time brasileiro da Libertadores. Após este jogo ele ficou fã do gordinho Cabañas.