O horário era péssimo.Os santistas de São Paulo bem que gostariam de ver os Meninos Campeões ontem, contra o Avaí, mas marcar um jogo de meio de semana para começar quase às 22 horas e terminar às vésperas do fechamento do metrô é pedir para o torcedor – que precisa acordar cedo – ficar em casa. Por isso, uma partida que atrairia normalmente 15, 20 mil pessoas, contou só com sete mil.

O adversário era chato. O Avaí não é das equipes mais tradicionais, mas tem jogado melhor do que Palmeiras, Grêmio, Atlético/MG e muito time de nome. Em uma competição eliminatória, era um dos piores brasileiros a ter pela frente.

O técnico do Avaí é bom, conhece a profissão, sabe tirar o máximo de equipes e elencos medianos. Sim, o veterano Antonio Lopes saber armar um time. Não sei porque não é tão valorizado, pois é melhor do que muito treineiro que se acha…

Por mais que todos quisessem prevenir, o Santos vinha de uma ressaca. Passou alguns dias comemorando o título da Copa do Brasil, passou outros comemorando a convocação e a boa exibição dos Meninos da Vila na Seleção Brasileira. A motivação para estrear na Copa Sul-americana, convenhamos, era pouco maior do que zero.

Um jogo do avesso

O Santos começou sem Paulo Henrique Ganso e Neymar, no banco, mas mesmo assim atacou mais do que o Avaí e teve três boas chances para marcar. Só que o Santos não fez e o Avaí, que teve uma só oportunidade, inaugurou o marcador depois de um bate-rebate na área santista.

No segundo tempo, Dorival Junior tirou Léo, cansado – até aí tudo bem – mas tirou também o onipresente Madson, deixando o inoperante Marcel em campo. Marcel é aquele centroavante que já jogou em alguns times grandes, mas em todos mal. Ele destoa. Não completa uma tabela. É o tipo de jogador que quando é expulso, o jogo do time flui melhor.

O Santos começou a segunda etapa em cima do Avaí. Tão em cima que se esqueceu da defesa e tomou o segundo gol logo aos dois minutos, depois que o goleiro Rafael tinha saído de campo com suspeita de fratura de crânio.

Mas Neymar fez grande jogada e Zé Eduardo diminuiu para 1 a 2. O empate parecia iminente e o Avaí abusava da cera sem que o árbitro, o fraquíssimo Ricardo Marques, fizesse alguma coisa para impedir.

O Santos sempre foi vítima de juízes com o estilão desse Ricardo Marques; histriônicos, cheio de gestos e chiliques. Armando Marques, Arnaldo César Coelho, Márcio Rezende de Freitas, todos eles já prejudicaram muito o Santos.

O de ontem simplesmente decidiu que não daria cartões amarelos para os jogadores do Avaí nem por cera, nem por faltas repetidas. Zé Eduardo deve ter recebido umas 15 faltas, quase todas por trás. Mas o tal de Ricardo Marques só começou a dar cartões amarelos para os jogadores do Avaí depois que a vitória do visitante já estava assegurada, pois ganhava de 3 a 1, faltavam cerca de 10 minutos para o fim do jogo e o Santos atuava com um a menos, pois Neymar, machucado, saíra carregado para não mais voltar.

O Avaí jogou muito bem, mas mesmo assim poderia ter perdido. O Santos teve algumas falhas, mas mesmo assim poderia ter vencido. É claro, porém, que os comentaristas de resultado sempre dirão que O Santos mereceu perder e o Avaí mereceu ganhar.

Enfim, uma derrota por 3 a 1 que praticamente elimina o Santos na Copa Sul-americana logo na estréia, dois jogadores importantes machucados seriamente, um público pequeno cuja renda mal dá para pagar um mês de salário do Neymar e a sombria perspectiva de que até o final da maldita janela de transferências alguns craques santistas baterão asas. Enfim, uma noite para esquecer e uma lição: na próxima partida, que os jogadores do Santos joguem com um galho de arruda na orelha para tirar o mau olhado. A secação está demais…

Pra quê dinheiro?

A entrevista de Dorival Junior depois do jogo mostrava o seu quase desespero diante da perspectiva de perder seus principais jogadores. Wesley irá para o Benfica? O Chelsea chegará no valor da multa para levar Neymar?

Bem, clube de futebol não é banco. Não precisa de dinheiro, mas de craques, que geram vitórias, que trazem títulos… Se o clube já tem o craque, vendê-lo só dá prejuízo.

Por mais dinheiro que o Santos consiga por Wesley, Neymar ou mesmo Ganso, o que poderá fazer com a fortuna? Saldar suas dívidas? Sim, é bom, mas no Brasil há clubes que devem dez vezes mais do que o Santos, não pagam e continuam sobrevivendo sem serem incomodados.

O que mais se pode fazer com muito dinheiro? Contratar grandes craques? Sim, mas quanto custa alguém do nível de Neymar e Ganso? Certamente três, quatro vezes mais do que o Santos receberá por eles.

Então, por incrível que pareça, um time que vende seus craques se empobrece, não ganha nada relevante em troca, a não ser dinheiro insuficiente para fazer uma reposição à altura. Só pode ser bom para o time que abre mão de ser grande, de lutar para conquistar todos os títulos que disputa.

Uma pena que a Lei Pelé tenha dado tanto poder aos jogadores e seus agentes e deixado os clubes à mercê de um esquema em que o dinheiro é a maior, talvez a única valia.

Mesmo que queira, mesmo que lute com todos os argumentos de seu coração apaixonado de santista, talvez o presidente Luis Álvaro não consiga segurar nenhum dos Meninos que encantaram o Brasil no primeiro semestre deste ano. Contra a vontade sincera do presidente há o desejo do jogador, do pai e do agente deste jogador, do clube estrangeiro, do paternalismo da lei, da situação falimentar do futebol brasileiro e, acima de tudo, da força de uma moeda que põe o real na roda.

Se vender suas galinhas dos ovos de ouro, o Santos ficará sem dívidas e ainda com um monte de dinheiro na mão. Mas perderá o encanto e o fascínio que nunca deveriam e poderiam ser quantificados. E terá de garimpar, tudo de novo, uma outra geração dourada…

E se dinheiro, a gente aprende no futebol, não é tão importante assim para um clube brasileiro, então eu sugiro que o Santos dê um fim digno a uma porção ínfima desse capital que vai entrar: contrate seus veteranos nobres para atuar como cicerones no clube. É o mínimo que se pode fazer para atletas como Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pepe, Joel Camargo, além de outros campeões mundiais. Um clube também é reconhecido pela maneira como trata seus ídolos.

E você, o que achou da derrota para o Avaí e da possibilidade de o Santos perder Wesley, Neymar…