Afonsinho, da música do Gil, o jogador-doutor que mudou a Lei do Passe em 1970.

E este, bem, este é o Príncipe Neymar, dizendo não ao imperialismo do futebol europeu.

Ao recusar a proposta milionária do Chelsea, o garoto Neymar da Silva Santos Júnior fez história no futebol brasileiro com um gesto que pode ser comparado ao de Afonso Celso Garcia Reis, o Afonsinho, que há 40 anos se tornou o primeiro jogador de futebol a conquistar o direito de decidir sobre sua própria carreira.

Nascido em Jaú em 3 de setembro de 1947, o rebelde Afonsinho, cabeludo como os hippies da época, mas muito mais instruído do que os outros jogadores de futebol – já que era formado em medicina –, foi à Justiça contra a Lei do Passe que o prendia ao Botafogo do Rio, onde se sentia escravizado.

“Tive desentendimentos com Zagalo, o futebol estava deixando de ser uma coisa prazerosa e, nessa época entrei na Justiça reivindicando o direito de exercer minha profissão em outra equipe, uma vez que os cartolas do Botafogo não se dispunham a liberar meu passe. Não aceito interferência em minha vida, eles alegavam que eu tinha que cortar a barba e o cabelo, que era indisciplinado e coisa e tal. Mas o que estava por detrás disso era que eles queriam me aprisionar ao clube”, disse-me Afonsinho em um debate na PUC de São Paulo do qual participávamos.

Encontrei novamente Afonsinho no salão nobre do Fluminense, quando eu e José Carlos Peres fomos apresentar um painel para a imprensa carioca sobre a ratificação dos títulos brasileiros da Taça Brasil e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Além de ter sido um grande meia – que atuou em todos os times grandes do Rio e no Santos, ao lado de Pelé, em 1972 – Afonsinho deixou o nome na história por enfrentar e vencer a então escravizante Lei do Passe.

Ídolos comprados a preços de banana

Com a Lei Pelé, sancionada em 24 de março de 1998, o jogador não é mais escravo dos clubes – ao contrário –, porém outro tipo de escravidão cresceu e acorrentou nosso futebol às limitações econômicas e morais do País.

Depois de ganhar três Copas do Mundo – 1958, 62 e 70 – com todos os jogadores, titulares e reservas, em atividade no Brasil, a Seleção nacional se tornou uma verdadeira legião estrangeira e o torcedor passou a amargar seguidamente a frustração de ver seus maiores ídolos partindo para o exterior ainda imberbes.

Ídolos incomensuráveis foram embora por preços de banana. No início dos anos 80, Paulo Roberto Falcão, maior jogador do Internacional em todos os tempos, foi vendido à mediana Roma por 2,5 milhão de dólares; Zico, o Pelé do Flamengo, aquele que divide a história do clube da Gávea em antes e depois dele, abandonou o time mais popular do Brasil para jogar na pequena Udinese por 3,5 milhões de dólares, e Sócrates, o maior craque do Corinthians de todos os tempos, ao lado de Rivelino, transferiu-se para a Fiorentina por 3 milhões de dólares.

Quando Romário, aos 22 anos, foi vendido para o PSV Eindhoven, da Holanda, em 1988, por meros 5 milhões de dólares, esta foi, até aquele momento, as mais cara contratação de um jogador brasileiro.

Dez anos depois, em 1998, um outro recorde seria estabelecido: Denílson, 21 anos, do São Paulo, que se destacava pelos dribles, foi vendido pelo São Paulo ao pequeno Bétis, da Espanha, por 32 milhões de dólares.

Em 2003, duas jovens estrelas do futebol brasileiro seguiram o mesmo caminho: Kaká, aos 20 anos, foi negociado com o Milan por 10,3 milhão de dólares (hoje algumas fontes dizem que o valor foi de 8,5 milhões de euros, enfim…) e Diego saiu do santos para o Porto por 10 milhões de euros.

Em 2005, depois de espernear bastante, o Santos vendeu Robinho, 21 anos, ao Real Madrid, por 30 milhões de dólares, e em 2007 foi a vez de Alexandre pato, 18 anos, maior revelação do Internacional depois de Falcão, ir para o Milan por 20 milhões de dólares.

Tabelinha Neymar-Laor abre novos caminhos

Até ontem, parecia que o enredo seria o mesmo: o clube europeu escolhe quem quer no futebol brasileiro, faz a proposta, aumenta um pouquinho e espera sentado pela aprovação, já que a situação falimentar de boa parte dos nossos clubes nunca permite recusá-la.

Manifestado o interesse, outros acontecimentos, coincidentemente, costumam forçar a saída do craque: o rapaz começa a jogar mal, envolve-se em “escândalos extra-campo” alimentados diariamente pela mídia, a torcida pega no seu pé e no fim sua saída chega a ser pedida pelos torcedores.

Claro que essa crise final era plantada pelos agentes dos jogadores e pelos dirigentes do clube brasileiro, que manipulavam a torcida para iniciar a perseguição ao ídolo. Passional, o torcedor logo entrava na onda e chegava a se dizer aliviado com a evasão do craque.

Como os valores reais nunca eram revelados – numa clara sonegação de imposto de renda – as vendas de jogadores ao exterior sempre serviram a dirigentes desonestos para compensar regiamente a si mesmos o trabalho “voluntário” a favor do clube.

Alguém já acreditou na honestidade de um trabalho não remunerado de diretor de futebol, ou de presidente de um clube de futebol? Pode e deve ter existido, claro, mas não é isso que os bastidores do esporte contam. As histórias são muitas e variadas…

O agente, ou “empresário” Francisco Monteiro, o Todé, responsável por trazer Ronaldo ao Corinthians, deu uma entrevista ao Blog do Cosme Rímoli confirmando que José Eduardo José Mesquita Pimenta, presidente do São Paulo, “quis ganhar dinheiro às custas da venda do Mário Tilico”, caso que acabou provocando a saída de Pimenta da presidência do clube.

Se Luís Álvaro Ribeiro não fosse a pessoa íntegra que é, provavelmente não resistiria tanto à pressão para se desfazer de Neymar. Afinal de contas, até a imprensa já dava como certa a ida do jogador para a Europa. E entre uma dinheirama para lá e para cá, alguma parte jamais seria explicada, como aconteceram tantas vezes antes, em outros clubes e, provavelmente, no próprio Santos.

Parece brincadeira admitir que essa total falta de transparência era normal nas transações dos ídolos brasileiros, mas é assim mesmo que acontecia. Tudo por baixo do pano, sem contratos e valores definidos, tudo para acobertar o “por fora” que invariavelmente rechearia as contas bancárias dos dirigentes envolvidos.

Enfim, mais do que um recado histórico de que é possível manter os craques aqui no Brasil, a bela dupla titio Laor e garoto Neymar deram uma aula de amor ao Santos e ao futebol, de ética e honestidade.

É claro que seria muito mais fácil fechar o negócio. Todos entenderiam e a parte da opinião pública preocupada com o crescimento do Santos ficaria aliviada. Correr atrás de parceiros e acordos de marketing dá trabalho, exige criatividade, disciplina. Mas o Santos assumiu a luta com coragem e mostrou uma grandeza que não se encontra nem em estádios monumentais ou nos mais fulgurantes títulos. Uma grandeza que vem da alma.

Você tem alguma idéia de ações de marketing que o Santos poderia fazer para valorizar ainda mais o Neymar e compensá-lo por ter ficado no Santos?