O São Paulo começou a perder a força que tinha quando o presidente Juvenal Juvêncio ironizou o Corinthians pelo fato de o Alvinegro não ter estádio. Isso provocou nos corintianos a determinação de não jogar mais no Morumbi, o que passou a gerar um grande prejuízo ao São Paulo, raiz de todos os males que afligem o clube hoje.

Lembro-me perfeitamente. No almoço no CT Rei Pelé que gerou o G4 Paulista, no ano passado, Andrés Sanches, presidente do Corinthians, explicava a mim, ao José Carlos Peres e ao presidente Marcelo Teixeira, por que o Corinthians não jogaria mais no Morumbi.

Por ele, Sanches, seria bom voltar a jogar, pois é um estádio que comporta mais pessoas e, conseqüentemente, dá mais lucro, mas, explicava, não podia voltar atrás em sua palavra, depois que a torcida corintiana, revoltada com a arrogância do São Paulo, pressionara o Corinthians para nunca mais jogar no Morumbi.

Quem não tem casa, tem de jogar na casa dos outros e não reclamar, foi o que disse Juvenal Juvêncio depois de um impasse sobre as taxas a serem cobradas pelo São Paulo para abrigar um jogo do seu rival. Até ali, Juvenal dizia o que queria, sem maiores conseqüências, mas naquela vez o Corinthians resolveu reagir, com resultado desastroso para o Tricolor.

Não se perdeu só o aluguel…

Sanches nos contou que o diretor de uma empresa que mantinha painéis de publicidade no Morumbi tinha ligado para ele para saber se o Corinthians não voltaria mesmo a jogar no Morumbi. Diante da confirmação, a empresa resolveu não renovar o contrato com o São Paulo.

Sim, porque o Corinthians, e eventualmente o Santos, não propiciavam ao São Paulo apenas as gordas taxas de aluguel do estádio. O maior valor arrecadado vinha da visibilidade das placas publicitárias – vistas não só pelos torcedores no estádio, mas também pelos espectadores da tevê e, através das fotos, por leitores de jornais, revistas e da Internet.

Com a restrição do uso do estádio apenas para jogos do São Paulo, o clube não pôde mais renovar seus contratos de publicidade nos mesmos valores e passou a perder alguns milhões de reais por ano.

Contratações ruins

Para mim, ficou evidente que o São Paulo estava com problemas quando contratou uma leva de ex-santistas que nem eram cogitados para voltar à Vila Belmiro, como André Luis, Léo Lima, Cléber Santana e depois trocou o sonolento Rodrigo Souto por Arouca.

O centroavante Washington nunca correspondeu no Tricolor, e Fernandão também já estava em má fase quando foi contratado. Ricardo Oliveira, outro ex-santista, não parece ter físico para muitas partidas seguidas.

Especular em cima de jogadores ainda com algum nome, mas decadentes, é típico de clubes que precisam manter a aura de fortes e competitivos, mas estão com “problemas de fluxo de caixa”.

Certamente o torcedor são-paulino preferiria que fossem repatriados Luís Fabiano, Júlio Batista, ou mesmo Josué. Para um clube que diz preocupar-se tanto com o marketing, estes três seriam alternativas mais eficazes e de maior impacto. Acontece que o São Paulo não tem receita suficiente para gestos tão ousados.

A venda de Hernanes, sem que houvesse um jogador do mesmo nível para o seu lugar, foi um exemplo de que de clube comprador, o São Paulo de Juvenal Juvêncio se tornou fornecedor de mão de obra.

Marca desvalorizada

A derrota constrangedora para o Corinthians, ontem, por inapeláveis 3 a 0 – décima partida sem vencer o rival –, que mantém o São Paulo próximo da zona de rebaixamento, foi apenas a ponta do iceberg. É interessante lembrar que além deste desconfortável tabu para o time que não tem estádio, o São Paulo já perdeu quatro vezes para o Santos este ano. Ou seja, não é mais o time vencedor de outras temporadas.

Tudo isso está desvalorizando a marca trabalhada com tanto carinho nos últimos anos. Recentemente o São Paulo tentou fechar um contrato de patrocínio com valores equivalentes aos dos grandes clubes europeus, mas não conseguiu. A alegação da empresa consultada é que o time está sem grandes atrativos – além do veterano Rogério Ceni, perto do aposentadoria, não há um ídolo que atraia a mídia.

A impossibilidade de conseguir parceiros para ser o estádio inaugural da Copa de 2014 também contribuiu para abalar a imagem do São Paulo. Com a constatação de que o clube não é tão organizado como tenta transparecer, de que seu marketing não faz milagres e sua direção tem um sentimento de grandeza e auto-suficiência que não corresponde à realidade, o Tricolor do Morumbi volta a ser um time comum.

Você acha que a fase ruim do São Paulo é transitória, ou o time está em decadência?