Era julho. Estávamos jantando no Shopping Pátio Iporanga, em Santos, esperando a abertura da exposição 100 anos de futebol arte, do artista Paulo Consentino, quando a Suzana sorriu ao ver um daqueles vídeos com os Meninos da Vila brincando na concentração e disse: “Eles nunca vão esquecer desse momento de suas vidas”.

Na verdade, as pessoas que amam o futebol e têm o coração puro, jamais esquecerão o primeiro semestre de 2010, quando o esporte se misturou com a arte e um grupo de rapazes reverteu a ordem das coisas e provou que os bons tempos sempre podem voltar, que é possível trabalhar com alegria e ser muito bem recompensado por isso, que a amizade pode prevalecer mesmo entre competitivos jogadores de futebol.

Mas nem todos ficaram felizes com as exibições espetaculares do Santosno Campeonato Paulista e na Copa do Brasil. É que os seres humanos, ao menos a maioria, têm uma atração irresistível para a mediocridade. O novo incomoda, pois traz parâmetros desconhecidos, tira as pessoas de uma zona de segurança. Por isso, só os jovens, ou de espírito jovem apoiaram os Meninos, quanto os tradicionalistas e hipócritas implicaram tanto com as “dancinhas” dos garotos, com o cabelo do Neymar, com o que faziam fora do campo…

Uma parte da imprensa, a boa, ressaltava o futebol, os gols, as grandes jogadas e o ambiente alegre do Santos. Aí vocêr pode incluir Tiago Leifet, Jô Soares, Cléber Machado… Outra parte, a invejosa, fuçava e divulgava os “problemas” fora de campo, chamava o Neymar de cai-cai e batizava o futebol santista de “bailarino”.

É claro que esta ala negra da imprensa era apoiada com entusiasmo por boa parte da população. Infelizmente o sentimento mais comum no ser humano é a inveja. E o pior é que as pessoas que a sentem são conscientes disso. E como a piedade é um sentimento mais nobre, o invejoso primeiro torce pela desgraça alheia, para depois ter o prazer de ficar com dó.

Muitos do que agora se dizem pesarosos com a situação do Ganso, passaram a maior parte do tempo torcendo para que o Quarteto Santástico se desmanchasse. Vibraram com a volta de Robinho para a o medíocre Manchester City, ficaram aliviados com a ida de André para o obscuro Dínamo de Kiev, com a de Wesley para o gelado Werder Bremen e agora, no fundo, estão felizes com a longa ausência de Ganso dos campos.

Bem que eu escrevi, há cerca de um mês, que a o Santos deveria vencer camisas com um raminho de arruda, pois o olho gordo dos adversários há estava pesando sobre o ombro dos santistas. Sair com a camisa do satos na rua passou a ser olhado como mania de grandeza.

Céticos, lembrem-se de 2004

As saídas de Robinho, André e Wesley e a contusão de Ganso não podem ter sido por acaso. Os deuses do futebol não podem permitir que a arte e a beleza sejam punidas. Alguma coisa muito boa deve vir por aí para compensar tanta tristeza.

Lembro que em 2004 o Santos teve de superar obstáculos magníficos para chegar ao título. Só de gols legítimos anulados teve 11, além de várias perdas de mandos de campo e, para culminar, o seqüestro da mãe de Robinho, que obrigou o craque a ficar várias partidas fora do time.

Naquele ano, aliás, o Santos viveu um momento crítico. Já se estava na reta final do segundo turno e o time, tentando perseguir o líder Atlético Paranaense, teve de jogar contra o Goiás no interior paulista e ainda com muitos reservas.

O pior é que o Goiás vencia por 1 a 0 até os 38 minutos do segundo tempo, quando os reservas Basílio e William fizeram os gols de uma vitória dramática que mantiveram o Santos na briga pelo título – que, finalmente, veio em São José do Rio Preto.

Reveja agora os gols de uma das vitórias mais importantes do Santos em 2004. Com reservas e contra o mesmo Goiás que enfrentará amanhã no Pacaembu.