Athié Jorge Cury (de terno preto), o grande sonhador que presidiu o Santos

O agente Wagner Ribeiro, inconformado com a recusa do Santos de vender Neymar, disse que o presidente do clube, Luís Álvaro, é um sonhador. Wagner quis ironizar, mas acabou revelando a característica essencial de um dirigente do Santos: nunca perder a capacidade de sonhar.

O Santos já é o resultado das aspirações mais loucas e improváveis de um time de futebol. De uma cidade média para pequena conquistou o mundo, estabeleceu-se em São Paulo, a maior capital do país, passeou de carro aberto por Paris e Nova York, desbravou a África e a Oceania, enfim, não há limites para o Alvinegro Praiano.

Athié Jorge Cury, logo que assumiu a presidência do clube, nos anos 40, época em que as viagens distantes ainda eram feitas por navio, levou o time para uma excursão de três meses para o Norte e Nordeste do país, uma verdadeira aventura. Lá o Santos enfrentou os grandes clubes de cada Estado e voltou invicto, num claro sinal de que era uma equipe predestinada a vôos ainda mais altos.

Foi Athié quem decidiu que, a partir de meados dos anos 50, o Santos não venderia mais nenhum jogador importante, a menos que já tivesse um substituto à altura. Esta filosofia, que certamente foi vista como um sonho por muitos, é que fez do time o melhor do planeta por mais de uma década e permitiu que Pelé, Pepe, Zito, Clodoaldo e tantos outros jamais saíssem da Vila Belmiro.

Quando assumiu a presidência do clube, no início do novo século, o jovem presidente Marcelo Teixeira colocou uma fortuna do próprio bolso para reforçar a equipe. Os críticos o chamaram de lelé da cuca. Quantos, a não ser os sonhadores, fariam isso? Mas sua confiança refletiu na equipe e no destino. O Santos voltou a ser um vencedor com ele.

Agora temos Luis Álvaro Ribeiro lutando contra a “lógica” do desmanche que cismam em impingir aos grandes clubes brasileiros. Como se jogador fosse gado que tem de ser engordado aqui e depois vendido para o abatedouro da Europa, todos – até parte da imprensa esportiva – pressionavam o Santos para que fizesse o inevitável e se submetesse ao estupro anunciado.

Dizer não aos milhões de euros do Chelsea foi considerado uma loucura por muitos. A imprensa britânica chegou a definir Neymar como “crazy boy”. Bem, para quem vê o mundo e a vida através dos cifrões, talvez seja mesmo uma loucura, mas o Santos é um clube diferente, onde a lógica dos outros não sobrevive.

Por que, repito, um time de uma cidade pequena seria o melhor de todos os tempos, teria o único Rei do futebol, faria mais gols do que todos os outros e conquistaria 15 vezes mais torcedores do que o total de habitantes de sua cidade?

Porque no Santos todas as aspirações, mesmo as mais improváveis, podem se concretizar. Porque no Santos a realidade é apenas um estado de coisas que sempre pode ser modificado, como numa mágica.

Por isso é que o presidente do Santos tem de ser alguém que não censure suas metas, por mais ousadas que sejam. O presidente do Santos tem de ser alguém que acredite na beleza, na arte e na regeneração do futebol.

No Santos o passado pode voltar e o futuro pode ser, sempre, melhor que o presente. Porque – e que o senhor Wagner Ribeiro e outros que pensam como ele não se esqueçam – o Santos não é apenas mais uma grande equipe baseada nos números frios da chamada realidade. O Santos é o Time dos Sonhos.

E para você, quais os próximos sonhos que o Santos deve realizar? Vamos, não se censure. Tudo é permitido a um santista.