Lembro-me bem da primeira vez que José Carlos Peres falou-me da necessidade de um psicólogo para o Santos. Descíamos a serra para uma reunião com o presidente Marcelo Teixeira, e Peres contou-me sobre o doutor João Ricardo Cozac, presidente da Associação Paulista de Psicologia do Esporte, que propunha montar um departamento de psicologia integrada no clube, atendendo desde os atletas infanto-juvenis até os profissionais.

Isso foi há mais de dois anos. Marcelo Teixeira não se sensibilizou com o pedido. Não sei se foi só uma questão de verba, ou de impedimento do técnico à época, provavelmente Vanderley Luxemburgo. A maioria dos técnicos não gosta de trabalhar com psicólogos, pois teme perder a ascendência sobre os jogadores.

Sei que há um mês a doutora Sônia Roman, psicóloga encarregada das divisões de base do Santos, foi promovida a “coordenadora do centro de estudos”, passando a ser responsável pelo acompanhamento psicológico de todos os atletas do clube.

Quem acompanha o trabalho da doutora me disse que ela já tinha dificuldades para dar conta dos garotos da base. Assim, dificilmente conseguirá atender também aos profissionais. Portanto, o Santos continua carente neste aspecto tão essencial, que é o acompanhamento psicológico de seus atletas.

Costumo dizer que é melhor um craque problemático do que um perna-de-pau de comportamento exemplar. A criatividade está diretamente relacionada à rebeldia. Craques quebram as regras, rompem barreiras, não tem jeito. Para cada um Kaká ou Ademir da Guia existem dezenas de Maradonas, Romários, Edmundos, Adrianos…

Infelizmente, um clube brasileiro não pode se dar ao luxo de contratar jogadores apenas pela boa índole, ou provavelmente teria de abdicar da luta por títulos. A solução não é evitá-los, mas estar preparado para lidar com esses talentosos indomáveis.

Um jogador não é só um corpo que corre. É um cérebro que pensa e um coração que sente. Não basta lhe dar hotéis cinco estrelas, refeições de primeira, quarto com tevê e Internet e um bom salário. Quase todos foram – e muitos ainda são – meninos de origem humilde e difícil. São vencedores, mas ainda brigam internamente com os fantasmas de uma vida de medos e perigos.

Um clube de futebol não é um quartel, onde deve reinar a disciplina absoluta e a total obediência às regras. Fosse assim e os jogos não teriam um drible, uma jogada irreverente e seriam uma infindável troca de passes de três metros. Futebol jogado com maestria exige temperamento revolucionário.

Portanto, é de se prever que um time se faça de personalidades fortes e, aparentemente, complicadas. Elas não devem ser expurgadas, pois são a diferença entre a magia e a mediocridade, mas não podem ser abandonadas à própria sorte. O clube precisa aprender a conviver com elas, a ajudá-las, se for possível.

Não se aceita mais soluções empíricas para o caso. Jogadores são patrimônio do clube e, no caso de um clube como o Santos – que se baseia quase que exclusivamente no futebol profissional –, seu bem mais valioso. Não dá para deixar que a cabeça dos jogadores vague ao Deus dará. Alguém precisa ajudar a colocá-la no lugar.

Como não seria justo esperar que o técnico, o diretor de futebol ou o presidente do clube façam isso – já que não são profissionais do ramo –, está mais do que na hora de o Santos contratar um psicólogo esportivo de gabarito para lidar com as inquietações, temores e anseios de seus atletas. Ou isso, ou a beleza que se produz em campo será destruída fora dele.

Você acha que psicólogo esportivo é essencial para um time de futebol, ou o técnico é que deve cuidar do problema?