Prezado Neymar,

Não sei se você se lembra, mas na festa de encerramento do Campeonato Paulista de 2009, eu e minha mulher, Suzana, que é professora de Educação Física especializada no treinamento de jovens atletas, conversamos com você, o Ganso e o Madson e procuramos lhes passar muita confiança, pois acreditávamos piamente no talento e no sucesso de vocês.

Sucesso que veio rápido demais, pois alguns meses depois vocês já tinham se firmado entre os titulares do Santos e jogando um bolão. Com a vinda de Wesley, Arouca e a bombástica contratação de Robinho, o Santos se tornou a referência do futebol brasileiro, o elo perdido de um passado de sonho, o time amado e/ou invejado por todos.

Mas agora, Neymar, a coisa mudou: pra melhor, mas também pra pior. Melhor individualmente, pois você já é rico sem precisar sair do Brasil, sem ter de jogar na neve, suportar os olhares atravessados de povos de outras línguas, outros costumes, e ser amassado, sem poder fazer fita, por zagueiros que dão o dobro dos nossos.

Mas há um lado ruim também. Olhe para o lado e perceba que você não pode contar mais com a genialidade do Ganso, a habilidade e a liderança descontraída do Robinho, a versatilidade do Wesley e a parceria do André. Dos que tratavam a bola com mais carinho e atenção, só sobrou você.

O Santos se enfraqueceu, e pelo que eu o conheço, você deve estar querendo resolver tudo sozinho, jogar por você e pelos outros que não estão mais no time. Mas, escute bem, não é preciso fazer isso. Há uma nova realidade e você só precisa se adaptar a ela.

Ajude a criar um novo time

Não pense mais no Santos como uma equipe que pode fazer 8, 9, 10 gols em um jogo, como foi até comum no primeiro semestre. Agora, vitórias por qualquer diferença são estrepitosamente bem-vindas.

Também não imagine que será possível criar tantas jogadas bonitas como antes. Não há parceiros habilidosos suficientes para as tabelas e você passou a ser muito marcado. Como sair dessa situação?

Ora, você é um rapaz muito inteligente e acho que pode responder a esta pergunta melhor do que eu. Porém, se me permite um conselho, jogue mais para o time, chame a marcação e abra espaços para os companheiros, capriche mais no passe – como naquele para o Keirrison, em Fortaleza –, segure a bola só o tempo necessário e não desperdice a oportunidade de chutar a gol quando ela surgir.

Mesmo jovem, tenho certeza de que você pode ser um dos líderes desta equipe. Sua atitude positiva fará crescer novamente o futebol do Madson e ajudar na rápida adequação dos novatos Keirrison, Alan Patrick, Danilo, Zezinho, Breitner…

Há outras maneiras de ajudar o Santos a vencer, além de driblar todo mundo e entrar com bola e tudo. A sua presença, o seu exemplo, a sua habilidade usada na dose e na hora certas e, principalmente, a sua inteligência para jogar e enxergar o jogo, podem fazer o time todo jogar melhor.

Assim, não importa que você não consiga mais marcar nem 50% dos gols ou dar metade das canetas e das pedaladas que conseguiu no primeiro semestre. Jogando com a cabeça, ajudando e orientando seus companheiros, você fará com que cada um renda 20, 30, 40, 50% a mais do que faria normalmente, o que tornará o Santos um time capaz até de sonhar com o título brasileiro.

Já pensou se Marquinhos, Madson e Zé Eduardo voltarem a jogar tudo o que podem? Se Alan Patrick se firmar como o seu companheiro de tabelas? Se Danilo revelar-se tão bom como Wesley? Se Keirrison desencantar? Se Zezinho e Breitner se tornarem mais confiantes e Marcel entrar sempre decidido?

Sim, em algum momento a alquimia que ocorreu no primeiro semestre pode voltar. Provavelmente não tão intensa, mas com resultados parecidos. Não sei se o primeiro passo é melhorar o ambiente interno, torná-lo mais alegre, mais descontraído. Fazer com que o clima volte a ficar tão bom que vocês entrem em campo como se fossem apenas se divertir.

Há uma frase de um revolucionário a serviço de Cuba, o médico argentino Ernesto “Che” Guevara, que parece exprimir o momento do Santos: “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”.

Eu completo, dizendo que o Santos de hoje, menos talentoso, precisa, sim, de mais disciplina, seriedade e dedicação. Mas isso não quer dizer que se perca a camaradagem, a alegria, a solidariedade.

Assim como seus companheiros precisam entender que você é melhor remunerado porque se tornou um astro, um ídolo do futebol brasileiro, o que é positivo para o Santos e para eles próprios, você não pode deixar que a fama o torne vaidoso e acomodado. Agora, mais do que nunca, é que você deve jogar para a equipe, dar o exemplo de companheirismo que fará todos crescerem e criará um ambiente de ajuda mútua.

Quanto ao Dorival Junior, todos sabemos que tem defeitos. Entendo também que às vezes é bem desagradável receber ordens, principalmente quando vêm acompanhadas de palavrões. Mas, não se esqueça, ele foi o técnico que acreditou em você, que o tornou titular, que o defendeu várias vezes nas entrevistas, que brigou para que você não fosse caçado em campo.

Mais do que um chefe, encare-o como um mentor, alguém que pode aconselhá-lo e ampará-lo no mundo difícil do futebol. E, mesmo que não concorde com suas determinações, nunca deixe de respeitá-lo. Hierarquia é algo sagrado para um bom profissional.

Não sei que conseqüências terá sua atitude de ontem, mas espero que ao final das contas o incidente sirva como pretexto para um diálogo construtivo. Afinal, você, o Dorival, o Edu Dracena, o Luís Álvaro, o Santos e seus jogadores e torcedores, estão no mesmo barco. O sucesso só virá, novamente, se todos remarem na mesma direção.

Boa sorte!