Como Gylmar vive hoje e, abaixo, o seu jogo de despedida do futebol, aos 39 anos, quando fez sua 100ª partida pela Seleção Brasileira. O Brasil, que jogou com oito titulares do Santos, venceu a Inglaterra, então a campeã do mundo, por 2 a 1, no Maracanã, em junho de 1969.

Hoje o Santos fará uma homenagem a Gylmar dos Santos Neves, o goleiro mais vitorioso do futebol mundial, que vestiu a camisa do Alvinegro Praiano de dezembro de 1961 a dezembro de 1969. Gylmar, um goleiro elegante, frio e elástico, completou 80 anos no dia 22 de agosto e terá uma camisa do Santos com o seu nome.

Nascido no bairro do Macuco, em Santos, em 1930, Gylmar jogou no Portuários, assinou seu primeiro contrato profissional com o Jabaquara, acabou contratado pelo Corinthians no começo de 1951 – como contra-peso no negócio com o quarto-zagueiro Ciciá –, mas dez anos depois, escorraçado pelo clube do Parque São Jorge, finalmente foi feliz no futebol ao se transferir para o Santos.

Gylmar confirma a sina do Alvinegro da capital de maltratar seus ídolos. Seu primeiro problema no Corinthians ocorreu em novembro de 1951, quando o time perdeu por 7 a 3 para a Portuguesa e levantaram a suspeita de que ele teria “amolecido”. Sem poder provar sua inocência, foi afastado do time por seis meses.

“Passei um período muito difícil”, contou-me ele quando o entrevistei para o livro Time dos Sonhos. “Não podia nem entrar no clube. Eu não tinha como provar, porque as coisas foram feitas fora, sem que eu soubesse. Só sei que no dia do jogo havia muitas promessas de prêmios para mim. Pensei que estivesse abafando, mas não era nada disso. A intenção deles era outra.”

Gylmar só foi perdoado e voltou a jogar pelo Corinthians porque em 1952 o time estava para embarcar em uma excursão e não tinha goleiro, já que Cabeção fora convocado para a Seleção Paulista. Depois de tentar conseguir, sem sucesso, um jogador emprestado, o diretor Manoel dos Santos propôs o nome de Gylmar, aceito com resistência. Após uma viagem exaustiva de três dias, o time estreou na Turquia e perdeu. Depois, foram 11 vitórias consecutivas, com Gylmar fechando o gol:

“Foi o dedo de Deus que me deu aquela oportunidade. Joguei muito bem. Na partida contra a Seleção da Dinamarca cheguei a defender três pênaltis. Voltei novamente como herói. Joguei todo o Campeonato Paulista de 1952, quando o Corinthians foi campeão”, lembrou ele.

Gylmar foi muito importante na conquista do título paulista do IV Centenário, em 1954. O time fazia 1 a 0 e ele segurava o resultado. Vivia uma fase excepcional, que quatro anos depois o levou à Copa do Mundo da Suécia e o fez sentir a maior alegria de sua carreira:

“A emoção de ganhar uma Copa é indescritível. Você fica meio bobo. Com exceção do Castilho, Didi e Nilton Santos, ninguém ali havia estado em Copas do Mundo.”

O goleiro novamente voltou como herói, mas aos poucos foi reduzido à única estrela de um Corinthians que perdera Cláudio, Luisinho e Baltazar e não estava contratando jogadores à altura dos que saíam. A fase negativa não tardou. Gylmar passou a ser apontado como o culpado pelas derrotas. Mesmo quando se queixou de dores no braço, não lhe deram ouvidos. O médico do clube disse que ele estava fazendo corpo mole para sair do Corinthians.

Num treino, ao se atirar nos pés de um atacante, o goleiro sentiu uma dor aguda no cotovelo, que inchou imediatamente. Tirou a cotoveleira e, enquanto se dirigia para o vestiário, mostrou o braço para os diretores que assistiam o treino.

“Vieram conversar comigo, mas eu disse que não queria nada, que tinha um seguro particular e no dia seguinte iria procurar um hospital para me operar. Fui para casa louco de dor. Tratei com água quente, sal e vinagre para desinchar e três dias depois estava operando no Hospital Santa Catarina, com o doutor João de Vicenzo. Minha mulher, que tem curso de enfermagem, assistiu a cirurgia. Imaginou-se que seria simples, por se tratar de uma bursite, ou algo assim, mas a operação demorou duas horas e meia. Eu tinha um tendão partido no braço e não sabia. Isso é o que causava a dor. Se demorasse mais um pouco para operar, o tendão estaria tão retraído que seria impossível emendar novamente.”

No dia seguinte, ainda sonolento pela anestesia, Gylmar recebeu o repórter Milton Reina, da Gazeta Esportiva, e admitiu que sua situação no Corinthians ficara difícil. A entrevista gerou a manchete: “Gylmar diz que não joga mais no Corinthians”. Em resposta, o presidente do clube, Vadi Helu, retrucou dizendo que agora era o Corinthians que não queria mais Gylmar e estipulou o passe do goleiro em 10 milhões de cruzeiros.

“Era uma fortuna. A transferência mais alta daquela época tinha sido a de Mauro, do São Paulo para o Santos, que custou cinco milhões de cruzeiros. Um goleiro por dez milhões era para não vender. Talvez a idéia fosse que eu terminasse a carreira ali. Mas, como eu já tinha meu emprego como chefe de seção da Secretaria da Fazenda, não estava desamparado. E eu trabalhava mesmo, todas as tardes.”

Nesse meio tempo surgiu o interesse do Santos, mas este não dispunha de todo o valor. Foi preciso fazer um empréstimo da Federação Paulista de Futebol e ainda receber uma doação do empresário José Ermírio de Moraes. Gylmar não ganhou nenhuma porcentagem, tampouco luvas de seu novo clube. Melhor negócio para ele seria ter aceitado uma proposta do Peñarol, de Montevidéu, mas o goleiro não quis:

“O Peñarol ofereceu uns 12 milhões para o Corinthians, mais uma fortuna na minha mão, mas resolvi não ir. Não queria dar mais nenhum tostão para o Corinthians. Eles me judiaram demais.”

O contrato com o Santos foi assinado em dezembro de 1961. Logo em seguida o time iniciou uma excursão à América Central. Quanto voltou, Gylmar já era o titular. Em 1962, no melhor ano de sua carreira, foi campeão paulista, brasileiro, da Taça Libertadores e do Mundial Interclubes. Convocado novamente para a Seleção Brasileira, tornou-se bicampeão mundial no Chile.

Nessa Copa de 62, contra a Espanha, realizou a defesa mais importante de sua vida. O Brasil perdia por 1 a 0 e seria desclassificado com este resultado. Em um ataque pela esquerda, Gento driblou Djalma Santos – jogando a bola por dentro e saindo correndo pela pista de atletismo – e cruzou. Puskas vinha entrando, enquanto Gylmar e o zagueiro Mauro saíram para cortar o cruzamento. O goleiro conseguiu socar a bola, mas ele, Mauro e Puskas trombaram e caíram. A bola sobrou para Peiró, que vinha na corrida e bateu de primeira, num chute a um metro do chão. Gylmar só teve tempo de erguer o braço e espalmar para escanteio. Em seguida, no contra-ataque, o Brasil empatou o jogo (e acabou vencendo por 2 a 1, com gols de Amarildo em centros de Garrincha). Os espanhóis creditaram sua eliminação na Copa àquela defesa do goleiro brasileiro.

No Santos, Gylmar finalmente pôde viver um tempo feliz, de tranqüilidade e profundo respeito. O time era como uma família e nunca foi maltratado por dirigentes. Ao contrário: era o clube que melhor remunerava seus jogadores. Em uma excursão à Europa, Gylmar se recorda de que as delegações de Santos, Botafogo (de Garrincha, Didi, Nilton Santos…) e Corinthians se encontraram no mesmo hotel. Em conversas informais com os jogadores dos outros times, ficou sabendo que o “bicho” (prêmios em dinheiro) que os santistas ganhavam por partida era o dobro dos botafoguenses e cinco vezes maior do que o dos corinthianos.

Gylmar admite que o Santos seria até hoje um dos melhores do mundo caso seus diretores tivessem tido maior visão e soubessem administrar o clube de maneira mais eficiente, mas, pessoalmente, não tem queixas:

“Se o Santos tinha condição de pagar ou não, eu não sei, só sei que pagou todo mundo e nunca atrasou. Todos queriam ver o Santos jogar. Onde jogavam, enchia. Começou a chover dinheiro. O Santos era uma equipe vencedora, com grandes valores, que ficou no auge por 13 anos. O ambiente era ótimo. Nunca tivemos uma discussão entre os jogadores.”

O Santos foi o melhor time de todos os tempos? Gylmar responde a essa pergunta comparando a equipe com o Real Madrid, o melhor time do mundo antes da fase áurea do Santos:

“Há uma celeuma sobre quem foi o melhor time de todos os tempos. Uns dizem que foi o Real Madrid, outros o Santos. Acho que cada um teve a sua época. Que eu me lembre, os dois só se enfrentaram uma vez, em 1959, na Europa, quando o Santos estava começando a ser o grande time que foi, e o Real ganhou (5 a 3). Quando o Santos começou sua evolução e o Real iniciou sua fase regressiva, ele nunca mais quis jogar com o Santos, sempre evitou. Chegou ao cúmulo de abrir mão de jogar a final de um torneio na Argentina para não nos enfrentar. Foi um quadrangular, em 1965, com Santos, Real, Boca Juniors e River Plate. Ficaram Santos e Real para decidir o título, mas eles não quiseram jogar, preferiram deixar o título para nós do que correr o risco de perder pra gente. Queriam manter aquela imagem de ter sido o único time a vencer o Santos” (o Santos venceu o Boca Juniors por 4 a 1, no dia 8 de agosto, e o River Plate por 2 a 1, quatro dias depois. A decisão seria contra o Real Madrid, que se recusou a jogar).

Gylmar jogou no Santos até dezembro de 1969. Em sua despedida pela Seleção, em 12/06/1969, na vitória de 2 a 1 sobre a Inglaterra, no Maracanã, o Brasil tinha oito titulares do Santos. Ao abandonar o futebol, aceitou o convite para ser relações públicas de uma concessionária Chevrolet. Depois montou a sua, na Vila Prudente, em São Paulo. Em 1983 foi convencido a tornar-se supervisor da Seleção Brasileira, cujo técnico era Carlos Alberto Parreira. Ficou decepcionado com o que viu. O marketing comandava tudo. “Talvez eu fosse o errado, pois trazia a mentalidade do tempo em que eu era jogador, em que não se exigia dinheiro para ganhar jogo.”

Na verdade, nem tudo Gylmar fez conforme seu tempo. Numa época em que a maioria dos jogadores de futebol adorava cair na noite, ele sempre foi um jogador de ir pra cama mais cedo, mesmo sofrendo de insônia. Quando saía, chegava ao extremo de – coisa de cinema – pedir leite em boate. Paradoxalmente, era o melhor companheiro de quarto do boêmio Dorval, que por mais tarde que chegasse, ainda encontrava o goleiro acordado, tentando ler para atrair o sono.

De saúde perfeita até 2000, Gylmar sofreu um acidente vascular cerebral e hoje não consegue falar e vive em uma cadeira de rodas. Mas, lúcido, compreende tudo e certamente se emocionará com essa demonstração de carinho dos santistas, os torcedores que o fizeram recuperar o amor pelo futebol.

Quer enviar uma frase de apoio e carinho para Gylmar? Fique à vontade. Ele merece.