“Não foi fácil, mas conseguimos contratar como técnico a pessoa que mais conhece o Santos futebol Clube. Com vocês…”

O telefone tocou eram seis horas da manhã. Pra mim, madrugada. Nem sei como acordei. Devo ter tido um sono leve. Geralmente não atendo, mas desta vez atendi. Alguma coisa me dizia que podia ser importante.

“Odir”, perguntou a voz grave e amigável do outro lado.

“Sim, é ele, quem é?”.

“Luis Álvaro. Tudo bem? Já tomou café?”.

“Tô acordando agora, presidente… Que surpresa, o que houve?”.

“Preciso falar com você antes de ir pro Santos. Está morando no mesmo lugar?”.

“Estou…”.

“Daqui a 40 minutos passo pelo Franz Café da Avenida Sumaré. Pode me ver?”.

Estranhei muito a ligação do Luis Álvaro. Acho que ele foi ao lançamento de todos os meus livros, chegou até a levar suas netinhas ao Bar Boleiros, quando fiz o “Pedrinho escolheu um time”, mas não falava comigo há meses, desde que assumiu a presidência do Santos.

Explicou-me que como eu era coordenador das festividades do Centenário do clube na administração de Marcelo Teixeira, não podia me manter no Santos porque os xiitas da Resgate Santista não queriam ninguém da diretoria anterior. Entendi, claro. Sei como é em política. Entra um partido e emprega os correligionários.

Fui lá e estranhei ver Luís Álvaro do lado do vice-presidente Fernando Silva. Pareciam tensos. Esperaram que eu pedisse um café com leite e foram logo se abrindo:

“O Dorival não vai ficar mesmo. Ele insiste que a suspensão do Neymar tem de ser de 15 dias. Assim, quer que o menino fique fora do jogo com o Corinthians, o Cruzeiro, o Vasco…”, começou Luis Álvaro.

“O cara tá louco. Se o Santos perde do Corinthians sem o Neymar, a torcida quebra a Vila Belmiro”, interrompeu Fernando Silva com o seu jeitão direto.

“Por que o Dorival resolveu endurecer agora?”, perguntei. “Ele já tinha engolido sapo de todo mundo…”.

Luís Álvaro e Fernando Silva não disseram nada. Apenas se olharam, significativamente. Não insisti, mas percebi logo que a valentia do técnico não era só uma questão de amor-próprio ferido pela quebra de hierarquia. Uma multa monstruosa amparava seus atos. Se o Santos quisesse mandá-lo embora, teria de lhe pagar uma fortuna.

“E vocês não podem forçar a escalação do Neymar, porque estariam passando por cima do Dorival…”, observei, meio que perguntando.

“Pois é”, concordou Luís Álvaro. “Se mandarmos ele embora, não poderemos contratar um técnico de ponta até o final do Brasileiro. Não haveria dinheiro e pra contratar um meia-boca não adianta”.

“E no que eu posso ajudar?”, perguntei.

“O Armênio Neto teve uma idéia que nós achamos genial. O Arnaldo Hase também concordou. Uma grande jogada de marketing seria anunciar um cara diferente para dirigir o time. Não adianta Geninho, Zetti, e nem um técnico da base. Pensamos em alguém que conhece muito bem o Santos, sabe qual é a vocação do time, que é santista e respeitado pelos santistas, e também tem bons conhecimentos de técnica e tática”, disse Luis Álvaro.

“Por que técnico é tudo a mesma merda…”, complementou Fernando Silva. “Eu poderia ser, mas não quero acumular funções”.

“Pensamos em alguém da mídia, que tem amigos na imprensa e sabe lidar com os jornalistas. Não escolheram um jornalista para dirigir a Seleção Brasileira nas eliminatórias para a Copa de 70, e não deu certo?”, reforçou Luis Álvaro.

“O que vier nesse campeonato é lucro. O importante é motivar o time, criar um diferencial”, disse Fernando Silva.

“Mas o João Saldanha já tinha sido técnico pelo Botafogo”, argumentei.

“Esse que a gente está pensando nunca foi técnico de time profissional, mas dirigiu equipes amadoras na Zona Sul de São Paulo, fez dois cursos de técnico de futebol, é jornalista esportivo premiado, com 33 anos de profissão e conhece o Santos como ninguém”, contou Fernando Silva.

“O José Roberto Torero?”, perguntei.

“Não, o Torero escreve bem, mas não manja nada de tática”, respondeu Luis Álvaro. E sei que não aceitaria o convite.

“O Vladir Lemos? O Fábio Rocco Sormani? O Cláudio Zaidan?…”, fui lembrando todos os jornalistas santistas que conheço, enquanto os dois só balançavam a cabeça, negativamente.

“Sabe, Odir, acreditamos nessa história de DNA. Achamos que o Santos só dá certo se segue o seu instinto. E quem primeiro falou nisso, quem escreveu vários livros sobre isso, é você”, enfatizou Luis Álvaro, olhando-me fixamente.

“Eu???!!!”, exclamei em voz alta, chamando a atenção das mesas do lado.

“Por quê? Não se sente capaz?”, perguntou Fernando Silva.

Antes que mudassem de idéia, respondi: “Não, não, quer dizer, sim, sim, sinto-me plenamente capaz. No mínimo comigo o Santos jogará com mais coragem e o ambiente entre os jogadores vai melhorar”.

“Ótimo, ótimo… E que time você colocaria em campo contra o Corinthians?”, quis saber o presidente.

“Olha, eu faria o óbvio, levando em conta a vocação ofensiva do Santos e o talento da garotada. Na defesa, o Danilo jogaria na sua posição original, que é a lateral-direita. Teríamos, então, Rafael, Danilo, Durval, Bruno Aguiar e Léo”.

“Prefere o Léo ao Alex Sandro?”, perguntou Fernando Silva.

“Acho que o Alex Sandro acabará ganhando a posição, mas o Léo tem muita experiência e sempre cresce nos jogos contra o Corinthians. Em todo o caso, o Alex Sandro será uma boa opção no banco de reservas”.

“E o meio-campo?”, apressou-se Luís Álvaro.

“Colocaria dois volantes: o Arouca e o Rodriguinho. Se o Rodriguinho ainda estiver machucado, o Roberto Brum mesmo. É pra ficar lá atrás, marcando, saindo pouco, para dar mais liberdade aos dois meias, que poderão apoiar mais o ataque”.

“Roberto Brum…”, fez Fernando Silva, desconfiado.

“Se eu passar o Danilo para o meio, terei de colocar o Pará na lateral-direita. O Danilo não marca tão bem como o Brum e o Pará, no momento, não é um lateral melhor do que o Danilo”, expliquei.

“E que mais?”, quis saber Luis Álvaro.

“Madson e Alan Patrick serão os meias, com Neymar e Zé Eduardo lá na frente. Nenhum dos quatro terá posição fixa, mas o Neymar cairá mais para a esquerda, e o Madson pela direita. O Alan Patrick será o chamado elemento-surpresa, se metendo onde tiver espaço. O Zé também se deslocará bastante, mas terá de ficar mais tempo dentro da área, como centroavante, segurando os dois zagueiros deles lá”, anunciei.

“Mas o Marcel é uma boa opção na bola aérea”, lembrou Fernando Silva.

“Sim”, respondi, “mas o nosso jogo será pelo chão. Ele pode até entrar no segundo tempo, mas não será a primeira opção”.

“E o Zezinho?”, perguntou Fernando.

“Vai passear com o Huguinho e o Luizinho”, brinquei, mas logo corrigi: “Ainda não está no ponto. Pode vir a ser um grande jogador. É canhoto, tem alguma habilidade… mas pra ser titular não dá. Para dar oportunidade a mais um garoto, prefiro o Tiago Alves. Aliás, uma das primeiras coisas que anunciaria é que o Tiago Alves seria promovido e já estaria no banco de reservas na quarta-feira. Seria engraçado ver o Adilson Batista pesquisando para saber como o Tiago joga”.

“É, o torcedor iria gostar, estão muito empolgados com esse Tiago Alves”, concordou Fernando Silva.

“Pois é”, reforcei. “O Santos é o único clube que nem precisa contratar uma estrela para preocupar os adversários. É só promover um garoto e os outros já ficam tremendo, achando que será um novo Robinho, Diego, Neymar, Ganso…”.

“Mas o Tiago Alves já poderia jogar na quarta-feira?”, disse Luís Álvaro.

“Ficaria no banco, presidente. Se o Madson não render tudo o que eu espero dele, ou se estiver cansado, eu colocaria o Tiago Alves tranqüilamente”.

Aproveitei para explicar que o Marquinhos, que anda sem muito fôlego, seria uma opção para o segundo tempo, caso o time esteja vencendo e precise segurar um pouco mais a bola no ataque. Após esta última explicação, ambos se olharam.

“Ótimo, ótimo, acho que a torcida gostará dessas alterações e apoiará o time. Queremos que você desça agora com a gente para o CT, onde anunciaremos sua contratação. Mas tem um problema, Odir”, disse Fernando Silva. “Não podemos lhe pagar nem cinco por cento do que o Dorival ganha. Espero que você entenda”.

Percebi que Luis Álvaro ficou meio constrangido com esta última frase de seu vice-presidente. Mas tratei logo de desanuviar o ambiente:

“Já estou acostumado. Tudo bem. Nem quero saber quanto vou ganhar. Dirigir o Santos e poder fazer o time jogar pra frente, sem medo, não tem preço”.

O telefone do Franz Café começou a tocar cada vez mais alto, a ponto de atrapalhar nossa conversa. Não conseguia mais ouvir o que Luís Álvaro e Fernando Silva falavam. A imagem dos dois começou a se desfazer no espaço. E o telefone tocando, tocando…

Virei-me para fazer um gesto na direção do garçom e pedir-lhe que atendesse o maldito telefone. Minha mão bateu em algo que caiu ao chão. Olhei e era o celular, ainda tocando. Havia programado para que me despertasse às sete horas…