Esse negócio de quebra de hierarquia é uma balela criada pelo mundo corporativo para, com raras exceções, perpetuar os medíocres no poder. Se você percebe que tem um chefe limitado, que está levando o barco pra naufrágio certo, o que você faz? Cruza os braços, e afunda quietinho, com todo mundo, ou toma as rédeas da embarcação?

Se trabalhasse em uma grande empresa, Paulo Henrique Ganso teria sido demitido por se recusar a sair de campo na final do Paulista, contra o Santo André. Porém, com uma visão do esporte bem acima da média, superior mesmo ao do técnico Dorival Junior, o rapaz insistiu em ficar em campo, segurar a bola e garantir o justo título ao Santos.

Como o precedente havia sido criado, Neymar talvez tenha achado que era só espernear e faria tudo o que quisesse em campo. Estava errado, claro – até porque, no seu caso, a porcentagem de pênaltis errados era muito grande, 50%. Porém, o assunto exigia uma conversa prévia do líder com o subordinado.

E o que Dorival fez? Passou um recado para Léo, que se esqueceu de dar ao garoto, só o fazendo no instante em que a penalidade seria cobrada. Neymar se sentiu traído. Ele sofreu o pênalti, assim como uma falta anterior, quase na risca da área, e nas duas vezes o bicão Marcel foi escolhido como o cobrador.

Acho que eu não reagiria com a mesma raiva, mas também ficaria cabreiro de criar as oportunidades e depois ver um profissional mediano ficar com as glórias. Quem mais errou, enfim, não foram Neymar ou Marcel, mas aquele que deveria ser o mentor do time e deixar tudo bem definido antes.

Que profissional competente já não quebrou a hierarquia?

Hierarquia é artifício criado pelas forças armadas e a igreja para manter a ordem, e por isso incorporada pelo mundo corporativo. Seria ideal se a sociedade fosse perfeita e as pessoas justificassem o poder que lhes é dado. Mas, infelizmente, não é assim. Quantos não ocupam cargos por parentesco com os superiores, por conveniência, por tempo de casa ou pelo velho e bom puxa-saquismo?

Segundo Peter Harazim, um dos maiores especialistas de Recursos Humanos do Brasil, a equipe ideal não tem um líder, pois todos sabem tão bem qual é o seu papel, que não é preciso alguém para dar ordens.

Reconheço que talvez eu me identifique tanto com o temperamento de Paulo Henrique Ganso e Neymar, porque, mesmo sem ser craque como eles, também já fui vítima dessa m… de “quebra de hierarquia”.

No meu último período de Jornal da Tarde, em 2002, quando era um dos editores do Esporte, fui demitido porque passei por cima do editor-chefe, Murilo Felisberto, e tentei direto com o Fernão Mesquita aumentar a ridícula verba de viagem do subeditor Dagoberto Azzoni, que iria para a África do Sul.

Vi o Dagoberto resmungando pelos cantos e tendei ajudar. Felisberto, com quem eu já tinha cometido a heresia de discutir antes, descobriu minha tentativa e resolveu me demitir. Quem me deu a notícia de que, após dez anos de casa e alguns prêmios, entre eles dois Esso, eu estava demitido, foi um editor que nem sabia desenhar páginas, era mal de títulos e copidescava sofrivelmente. Foi duro ter de engolir…

Um mês depois fizeram uma auditoria no jornal e Felisberto, que Deus o tenha, foi defenestrado por incompetência e por inchar a redação com a contratação de amigos. O mesmo editor incompetente que me deu a notícia de demissão também foi demitido, claro. Mas aí o mal já estava feito e a mediocridade tinha vencido.

Por essas e outras, que não aconteceram só comigo, mas com muitos outros colegas do Jornal da Tarde, é que o jornal virou essa coisa que é hoje, em que a hierarquia provavelmente é muito respeitada, mas as regras do bom texto e do bom jornalismo são violentadas diariamente.

Por isso não levo tão a sério esta “disciplina” que falsos moralistas pregam por aí. Da mesma forma que “se concentração ganhasse jogo, o time da penitenciária não perderia de ninguém”; eu afirmo que se disciplina fosse essencial, o Brasil jogaria a Copa com a Seleção do Exército.

O que decide mesmo é o talento, o dom de fugir da mesmice, de vislumbrar novos caminhos e ter a coragem de segui-los. O futebol brasileiro só é o que é pela irreverência de Friedenreich, Leônidas da Silva, Garrincha, Pelé, Romário, Ronaldo, Robinho, Ganso, Neymar… O talento associado à irreverência faz o homem ir além do limite imposto por uma sociedade comandada por pessoas disciplinadas e… medíocres.

E você, também já quebrou hierarquias, ou está no time dos disciplinadores?