Por que nas transmissões de futebol o povo brasileiro não tem opção?

Hoje será um daqueles dias em que milhões de brasileiros ficarão insatisfeitos com o jogo escolhido pela Rede Globo. Ao invés de transmitir o primeiro clássico do ano entre os maiores campeões nesta temporada, Santos e Internacional, a Globo focalizará a partida entre o sofrível Vasco, que só empata e ainda corre risco de rebaixamento, contra o Corinthians, que só ganhou dois pontos nos seus últimos cinco jogos.

É óbvio que o critério para a escolha não foi técnico e nem levou em conta a qualidade do espetáculo. O motivo, estritamente comercial, se deve ao volume de torcedores dos dois times que jogarão no Rio (recuso-me a acreditar que haja alguma conotação política com o time do presidente Lula).

Seria como, por exemplo, em um ano em que o Racing tivesse conquistado dois títulos nacionais e o Independiente tivesse sido campeão da Libertadores, a TV Argentina deixasse de transmitir o primeiro e aguardado jogo entre eles na temporada para optar por River Plate e Huracán, só porque o River tem mais torcida, ou porque as torcidas de River e Huracán, somadas, representam um contingente maior de espectadores do que as de Racing e Independiente.

Considero um absurdo colocar a qualidade do espetáculo e o mérito esportivo em segundo plano. Até porque, como se sabe, a tevê é uma concessão do Estado e deveria ao menos respeitar regras que envolvem cultura, ética, ao invés de simplesmente ganhar dinheiro e associar-se ao plano de marketing deste ou daquele clube.

Sei que dirão: “Mas Odir, a Rede Globo comprou os direitos de transmissão e faz o que quiser com eles”. Sim, se a Globo pagou pelos direitos e as leis lhe dão todo esse poder, pode não ser ético nem moral, mas é legal e não se pode impedir que faça o que quiser com o futebol brasileiro. Então, o que deve ser mudado não é a Globo, mas os contratos de televisionamento do futebol.

Até porque, se observarmos bem, fica claro que está havendo um monopólio. O jogo que a Globo não transmite diretamente, ela vende através do pay per view, já que tanto o Sportv, como o canal Premiere, são de sua propriedade.

Endividados, mal administrados, obrigados e pedir a antecipação de suas cotas de tevê, os clubes não têm força para reivindicar acordos mais justos a acabam se submetendo ao que a Globo quer. E o que é bom pra ela nem sempre é bom para o futebol brasileiro, ou para a maioria dos clubes brasileiros. Mas qual seria a solução para o impasse?

Exclusividade não. O ideal é negociar a Prioridade

Lanço aqui uma idéia simples, cristalina, e para ela peço a opinião dos inteligentes leitores deste blog. Por que, ao invés de vender a exclusividade de transmissão dos jogos de futebol, os clubes não vendem apenas a prioridade?

Como isso funcionaria? Teríamos várias prioridades, com valores diferentes, claro. Digamos que a Globo mantenha a maior oferta pelos direitos do futebol. Isso lhe daria a Prioridade 1, ou seja, teria o direito de escolher o jogo que quisesse em cada rodada.

Mas, por um valor menor, seria vendida também a Prioridade 2, a Prioridade 3 e quantas forem cabíveis e possíveis. Em uma rodada do Brasileiro, a Globo transmitiria a partida que quisesse; mas o canal com Prioridade 2 poderia escolher entre os jogos restantes; depois viria a emissora com Prioridade 3 e por aí vai…

Seria mais democrático, mais justo. Muito mais times teriam uma exposição melhor e o mérito esportivo seria mais bem contemplado, pois as equipes que estivessem jogando melhor e que contassem com melhores jogadores, são seriam esquecidas.

Em uma rodada de domingo, por exemplo, milhões de torcedores poderiam assistir, gratuitamente, ao time do seu coração, pois vários canais estariam transmitindo jogos diferentes. Isso difundiria ainda mais o futebol e fortaleceria o seu mercado.

Os clubes faturariam mais, pois: 1 – Fariam contratos de direitos de imagem com várias emissoras e não apenas com uma; 2 – Fechariam melhores contratos de publicidade, pois garantiriam aos patrocinadores uma exposição maior na mídia; 3 – Produziriam mais ações de marketing, justamente pela maior exposição na tevê.

Se já prevalecesse o conceito da Prioridade, hoje os milhões de aficionados de Santos e Internacional, além de todos que apreciam um bom futebol, poderiam mudar para a Record, a Band, ou o SBT e assistir, de graça, ao duelo entre os maiores campeões desta temporada.

O que você acha de os clubes negociarem a Prioridade de Transmissão e não a Exclusividade?