Se você fosse o Luis Álvaro, que atitude tomaria depois da derrota de ontem?

Imagine que você é o presidente do Santos, o Campeonato Paulista é a única competição oficial que o time disputa e há 20 anos não é campeão. Mas nesta temporada está nas primeiras posições e briga pelo título. Nisso, vai a São Paulo enfrentar a Portuguesa, no Pacaembu…

A Portuguesa tem um bom time, mas se o Santos já venceu Corinthians, Palmeiras e São Paulo, obviamente é favorito contra ela. Muitos santistas sobem a serra para ver o clássico. Uma vitória e o Alvinegro deslanchará em busca de uma taça que não vê há duas décadas. Uma derrota e tudo voltará a ficar complicado.

O Santos entra em campo confiante, o técnico monta um esquema ofensivo, mas o time acaba perdendo. Só perdendo não, é goleado. Só goleado também não, é humilhado, massacrado. A Portuguesa vence por nada menos do que 8 a 0, tipo quatro vira, oito acaba.

Os torcedores do Santos se revoltam. E você, não se esqueça, é o presidente. O futuro dos jogadores e do técnico está em suas mãos. O que você faz? Manda todo mundo embora? Troca o técnico? Multa ou suspende alguns jogadores? Demite o diretor de futebol?

A esta altura, você deve estar pensando: “Acho que a derrota de ontem deixou o Odir xarope. Que exemplo mais absurdo! Como o Santos, líder de uma competição, perderia para a Portuguesa por 8 a 0? E se por acaso isso acontecesse, um presidente teria de tomar providências drásticas. Onde já se viu passar por tremendo vexame e ficar por isso mesmo?”

A melhor decisão

Bem, pois este exemplo maluco realmente aconteceu. Em 13 de novembro de 1955, líder do Paulista, o Santos enfrentou a Portuguesa no Pacaembu e perdeu por 8 a 0. O time, já treinado por Lula, jogou com Manga; Hélvio e Ivan; Ramiro, Formiga e Zito; Alfredinho, Negri, Del Vecchio, Vasconcelos e Pepe.

A Portuguesa atuou com Cabeção; Nena e Hermínio, Djalma Santos, Brandãozinho e Zinho; Lierte, Zé Amaro, Ipojucan, Airton e Edmur. Os gols, quatro em cada tempo, foram marcados por Edmur (2), Lierte (2), Ipojucan, Airton, Zé Amaro e Brandãozinho. A arbitragem foi de Mário Vianna.

“Nós descemos para Santos quietos, imaginando que ao chegar lá um monte de gente seria mandada embora”, disse-me Pepe.

Porém, não houve nada. O presidente Athié Jorge Cury manteve todo mundo, o técnico Lula, inclusive, e o Santos não só foi campeão, como iniciou uma hegemonia que só terminaria no final de 1969.

Do time goleado estrondosamente pela Lusa, vários jogadores chegaram à Seleção Brasileira, entre eles dois futuros campeões do mundo na Suécia: o titular Zito e o reserva Pepe. Já pensou se Athié tivesse mandado todo mundo embora?

O que fazer agora?

Como se sabe, faltam sete rodadas e o Santos continua a seis pontos do líder. Perdeu mais uma chance de subir na tabela, como quase todos os times que estão à sua frente também têm perdido.

Já deu para perceber que neste ano o campeão não será o melhor time do Brasileiro, mas o menos ruim. Quem for mais persistente e errar menos, acabará levantando a taça.

O Santos é perfeito? Longe disso. Mas que time é? Nenhum. A distância é inalcançável? Não. É impossível vencer o Internacional em Porto Alegre? É muito difícil, como era muito difícil vencer o Fluminense no Rio, ou como parecia impossível para o Grêmio Prudente derrotar o Santos na Vila.

Mas, como para muitos santistas uma derrota como a de ontem não pode passar em branco, o que o presidente do clube deve fazer? Mandar alguns jogadores embora, trocar o técnico, abrir as portas do CT para a torcida organizada?

Tudo isso, para mim, só semeia e aprofunda crises. Jogadores e técnico têm contrato. Muitas vezes, puni-los é punir o clube, que acaba pagando salários e encargos trabalhistas sem utilizar os profissionais. E ameaçar jogadores fisicamente é voltar ao tempo da barbárie, um absurdo inominável.

Que digam do que são feitos

Como bem diz a Suzana, minha mulher, professora de Educação Física que foi uma das melhores tenistas amadoras deste país e conhece bem os sobressaltos de uma competição, “chegou a hora desses meninos mostrarem do que são feitos”.

Eles não precisam ser punidos ou ameaçados. A responsabilidade de manter viva a luta pelo título já é um peso enorme que carregarão para campo a cada uma das sete partidas que ainda farão pelo Brasileiro.

Do que eles são feitos, afinal? De coragem para enfrentar os obstáculos, ou de medo para abdicar diante deles? De determinação para não desistir nunca, ou de fraqueza? De hombridade, ou de frouxidão de caráter? De vergonha na cara, ou de cinismo?

Há um momento que separa os meninos dos homens, e os grandes Meninos da Vila superaram esse ritual de passagem com altivez e destemor. Os que fizerem isso agora, estarão garantidos no Santos em 2011, com direito a tudo de bom que uma temporada que envolve disputa de Libertadores e, talvez, Mundial, pode proporcionar.

Os que fracassarem, porém, provavelmente amargarão carreiras de coadjuvantes em times secundários. O presidente e o diretor de futebol do Santos não precisam ainda decidir o destino dos jogadores, essa é a verdade. Pois eles próprios o definirão com suas atitudes e seu comportamento em campo e fora dele.

Para não dizerem que fiquei em cima do muro, só lembrarei que a vantagem de 2 a 0 era mais do que suficiente para uma importante vitória. Portanto, as piores falhas foram produzidas pela defesa: por Léo, Danilo e Edu Dracena – este último não só pelo pênalti, mas por estar na área adversária, tentando a cabeçada, quando o adversário iniciou o contra-ataque que gerou o terceiro gol.

Perceba que não falei do técnico Marcelo Martelotte. Sim, porque quando um jogo é perdido por erros individuais, não se pode culpar o técnico.

Reveja a derrota de ontem. É uma aula de como se perde um jogo ganho.

E você, caso fosse o presidente do Santos, o que faria nesta segunda-feira para tentar corrigir a rota e fazer o time se animar na luta pelo título?