Ilustração de Malpicci feita originalmente para a revista Ética no Futebol

Já recebi alguns comentários de santistas, poucos na verdade, dizendo que como não tem mais chances de ser campeão, o Santos deveria entrega o jogo para o Fluminense para prejudicar o Corinthians. Respeito a opinião dos torcedores, sei que ela é o combustível que torna o futebol apaixonante, mas neste caso sou totalmente contra.

Em primeiro lugar porque o Santos nem está totalmente afastado da luta pelo título e nem livre do rebaixamento. Em segundo, porque cada vez que entra em campo o Alvinegro Praiano representa sua história, sua tradição, e incorpora este novo resultado ao seu currículo. Pesquisador que sou, detesto ter de incluir derrotas e, pior, goleadas nas minhas estatísticas.

Em terceiro, porque os jogadores do Santos devem encarar cada partida com respeito – ao torcedor e a ele próprio, que será desacreditado se um dia jogar para perder.

Por fim, há a ética, este troféu invisível que poucos conseguem tocar. Um time ético dá orgulho, é bonito de se ver, inspira mais respeito. Quem gosta de torcer para jogadores que demonstram maior ou menor motivação dependendo das circunstâncias, como se fossem movidos por dinheiro, ou sentimentos tão pouco nobres quanto?

Vôlei, São Paulo, exemplos que não param

Talvez outros esqueçam rápido, mas eu não. Lembro-me muito bem, por exemplo, do Campeonato Paulista de 2003, em que o São Paulo, depois de estar vencendo por 2 a 0, permitiu ao Santo André empatar em 2 a 2, no único resultado que eliminaria o favorito Santos da fase seguinte. O São Paulo teve de fazer um gol contra e no segundo gol do time do ABC, em um pulo forjado, Rogério Ceni se jogou na bola quando ela já tinha entrado. Uma palhaçada!

Alguns jornalistas, como Galvão Bueno, justificaram essa atitude do tricolor. Eu achei ridícula, suja e todos os adjetivos para definir algo nefasto para o futebol. Mas o Santos também já fez algo parecido. No Brasileiro de 2005, depois de ser goleado pelo Corinthians, não se empenhou nem um pouquinho na partida contra o Internacional, no Anacleto Campanela.

Assim, contra o mesmo time que tinha vencido no primeiro turno por 1 a 0, no Beira Rio, o Santos foi goleado por 4 a 0. Os jogadores que participaram daquela tarde lamentável foram Mauro, Luiz Alberto, Mateus, Kléber, Fabinho, Zé Elias, Bruno, Giovanni, Luciano Henrique, Heleno, Wendel, Cláudio Pitbull e Geílson. O técnico, obviamente fritado, era Nelsinho Batista.

Posso até entender que os jogadores estivessem revoltados com os privilégios dados ao Corinthians naquela competição, mas não tinham o direito de decidir por si mesmos que não jogariam para vencer. Nelsinho Batista deveria ter percebido a trama e escalado um time de reservas ou juvenis; Teriam feito mais bonito.

Aliás, foi o que o Grêmio fez no ano passado, na última partida do Brasileiro, contra o Flamengo, no Maracanã. Os torcedores do tricolor gaúcho queriam que o time entregasse o jogo para o Flamengo, pois uma vitória do Grêmio tornaria o Internacional campeão.

Na penúltima rodada o Corinthians já tinha perdido para o Flamengo sem fazer qualquer força, pois se vencesse ajudaria o São Paulo. E no último jogo o técnico do Grêmio, Marcelo Rospide, foi obrigado a escalar um time de garotos, formado por Marcelo Grohe; Mario Fernandes, Léo, Tiego e Fábio Santos; Túlio, Douglas Costa, Lúcio e Adilson (Mithyue); Maylson e Roberson (Bergson).

Os meninos do Grêmio, entretanto, foram homens, e terminaram vencendo o primeiro tempo, com gol de Roberson. A virada e o título do Flamengo só vieram no segundo tempo. Por ironia do destino, ao desembarcar em Porto Alegre os guris do Grêmio foram ameaçados de agressão pela própria torcida, que provavelmente os mataria se tivessem dado o título para o rival Colorado.

Acho isso de uma pobreza mental e moral agudas. Se o seu time proporcionou o título ao rival, com que ânimo os torcedores adversários virão ironizar o seu? É bem pior do que entregar o jogo e ainda ver o rival comemorar a conquista.

Joguem por suas carreiras

Não sei quem os convenceu, ou o que passou pela cabeça dos santistas que, sem se esforçar, perderam para o Internacional por 4 a 0 no Anacleto Campanela, em 2005. Só posso dizer que isso não foi bom para suas carreiras e muito menos para a sequência de seu trabalho no Santos.

Espero que os jogadores que entrarem em campo contra o Fluminense, com a camisa que já foi de Zito, Pelé, Coutinho, Dorval, Mengálvio, Pepe e tantos craques e homens admiráveis, saibam que cada compromisso do Santos é sagrado, entra para a história. E amolecer não existe no dicionário do santista.

Cada jogo é mais uma nova oportunidade para o jogador mostrar seu talento, de brilhar, de justificar seus sonhos. Quem não percebe isso acaba esquecido, desprezado, tratado como alguém que defendeu times profissionais, mas não foi, na verdade, um jogador profissional de futebol.

E você, acha que, dependendo das circunstâncias, um time deve entregar o jogo?