O capitão Dracena não está indo demais ao ataque?

Conversei ontem com uma pessoa que acompanha diariamente os treinos do Santos. Falei-lhe da preferência do torcedor pelo Vinicius Simon, em detrimento do capitão Edu Dracena. Ele só me respondeu: “Mas esse Vinicius não é tudo isso, não. O Edu Dracena é muito mais jogador do que ele”.

Fiquei com isso na cabeça e agora trago o caso aqui para o blog, para discutir com vocês. O que eu entendi da opinião desta pessoa? Que o Edu Dracena tem mais habilidade, mais categoria, mais personalidade, e se impõe nos treinos. Até por isso foi escolhido como o capitão do time.

Mas, então, por que quando ele joga o Santos toma tantos gols, e quando ele é substituído pelo Vinicius, a defesa fica invicta? Bem, aí talvez seja por um fenômeno que também pode ser definido como a “síndrome do motociclista”. O que vem a ser isso? É a constatação de que o motociclista só começa a cair quando aprende a andar de moto.

Enquanto está começando, o motoqueiro faz tudo certinho, toma todos os cuidados, não exagera na velocidade, não faz ultrapassagens perigosas, não fala ao celular enquanto dirige… Depois, quando se sente o rei da cocada preta, começa a abusar e aí se estrepa.

Ora, se o Dracena tem mais categoria e mais experiência do que o Vinicius, por que com ele o Santos se torna bem mais vulnerável? Porque – e esta é apenas uma teoria, com a qual você pode concordar ou não – ele está abusando da sorte, como um motoc… digo, um zagueiro tarimbado.

Seus gols contra Atlético Mineiro e Vitória foram importantíssimos na Copa do Brasil. Mas a mania de ir para o ataque acaba desguarnecendo a defesa. E o pior é que o Durval também gostou da história. Depois de marcar contra São Paulo, Corinthians e Grêmio Prudente, nosso cangaceiro está se sentindo mais centroavante do que o Marcel.

Por outro lado, quando está no time, Vinicius fica na sua, lá atrás, bem atento aos atacantes contrários, que é a função principal de um zagueiro. Durval, por sua vez, sabe que não pode deixar o rapaz sozinho na cobertura e também se agüenta na defesa. E essa postura de ambos, concentrando-se mais em anular as investidas contrárias, obviamente é decisiva para acertar a marcação.

Defesa, defesa; ataque, ataque

Eu diria que, assim como Durval, os volantes Roberto Brum e Arouca se concentram mais na marcação quando os titulares Edu Dracena e Durval não estão no time, o que também contribui para fechar mais os espaços para os atacantes adversários.

Veja que o medo saudável de sofrer gols é que faz o Santos jogar melhor na defesa, assim como o fato de ficar com um jogador a menos tem transformado os adversários do Santos em perigosos franco-atiradores.

Assim, os sentimentos humanos do medo e da coragem explicam muito do que se vê em um campo de futebol, que os pragmáticos preferem definir como tática.

Não sou fã de Carlos Alberto Parreira como técnico, considero-o medíocre, mas em uma coisa temos de concordar: burro ele nunca foi. Procurava pautar-se pelo óbvio, calcava-se em um ou dois conceitos que acabavam fazendo milagres.

Ganhou a Copa de 1994 com uma única teoria: a de que os atacantes brasileiros tinham um nível tão excelente, que acabariam fazendo ao menos um gol por partida. Assim, o resto do time só precisava se preocupar em não tomar gols.

No Grande Santos dos anos 60, todo mundo marcava gols, mas os zagueiros passavam em branco. Você não veria Mauro ou Calvet na área adversária. Calvet me explicou: “Já tinha tanta gente boa lá na frente para marcar gol, o que a gente ia fazer lá?”.

Pois é. Essa humildade de se reconhecer as próprias limitações fez com que aquele Santos fosse um time de especialistas em cada função, que se uniam harmoniosamente para formar um conjunto poderoso.

Admito que em um escanteio ou em uma cobrança de falta, um dos zagueiros possa ir ao ataque, mas essa volúpia de gol não deveria afligir os defensores, já que esta é uma função precípua de atacantes ou jogadores de características mais ofensivas.

Martelotte não pode permitir essa bagunça

Quem assistiu ao jogo de ontem, no Maracanã, constatou mais uma vez como Vanderlei Luxemburgo é implicante com os jogadores. E ai daquele que ao final da partida, ao responder sobre os motivos de uma derrota, diga “Vá perguntar ao técnico”. Iria para a geladeira no mesmo instante.

Dei este exemplo para lembrar que o Santos tem um técnico interino cujas determinações nem sempre são obedecidas pelos jogadores. Duvido que Marcelo Martelotte tenha dado ordem a Dracena ir ao ataque no lance que gerou o terceiro gol do Grêmio Prudente.

São incontáveis as partidas em que o Santos perdeu pontos assim, por negligência de seus defensores, principalmente dos zagueiros de área. Não fosse isso, tivesse jogado como um motociclista novato, com medo de cair, e seria o líder do Brasileiro, apesar das imperfeições da equipe.

Ao final da derrota desastrosa para o Grêmio Prudente, Edu Dracena não deveria ter prometido o título para o presidente. Se nem Pelé prometia isso, quem ele é para faze-lo? O que ele deveria ter prometido é ser eficiente como zagueiro, usar sua experiência e categoria para impedir os gols adversários. Quanto aos do Santos, que Neymar, Zé Eduardo e Alan Patrick os façam.

Você não acha que os zagueiros do Santos deveriam se concentrar mais em defender e deixar os gols para os atacantes?