Como já disse, quinta-feira estive em Santos com Kátia Lund, o André e o Márcio, da produtora Canal Azul que fará o filme “Meninos da Vila” e, convidados, almoçamos no CT Rei Pelé. Percebi jogador de cara feia e sei que me reconheceram, pois perguntaram a um assessor do Santos se “aquele” era “o cara do blog”.

Sim, eu sou “o cara do blog”, responsabilidade que divido, humildemente, com os freqüentadores deste espaço. E se algum jogador viesse sentar ao meu lado e conversar sobre os objetivos desse blog, eu diria:

“O blog do Odir reflete a opinião da torcida. E de uma torcida especial, formada por pessoas equilibradas, que entendem de futebol e querem o bem do Santos. Se você está sendo criticado, não conseguirá mudar essa situação falando comigo. A única forma será jogar melhor, se empenhar mais nos treinos e nos jogos, ter uma postura ética e de respeito à esta camisa e a este clube.”

Acho que dificilmente um jogador entenderia o trabalho diário deste blog como positivo para sua carreira. Geralmente jogadores de futebol partem de um pensamento binário, que diz: “Amigo é quem elogia; inimigo é quem critica”.

Muitos, talvez a maioria, não têm alcance intelectual para perceber que a crítica pode ser muito positiva para suas carreiras. Ela os pode tornar profissionais melhores, ao apontar-lhes as falhas a serem corrigidas.

O problema maior que ocorre hoje entre os jogadores profissionais é que, depois de alcançarem um lugar no elenco de um time grande, acham que não precisam aprimorar mais nada – nem como atleta e nem como homem – e ficam contrariados quando alguém quer tira-los da boa rotina.

Comodismo impede a evolução

Nem tudo o que é bom para os jogadores é bom para o clube, e se eles dominam o futebol profissional, o risco de estagnação é grande, pois passa a predominar a lei do menor esforço.

O jogador quer receber o seu salário em dia, mas raramente está disposto a colaborar com os planos de marketing do clube, ou de abrir mão de algum conforto para contribuir com um reforço no caixa.

Jogadores do Santos preferem jogar na Vila Belmiro, pois não há viagem e mal termina o jogo já estão em casa com a família. Mas no Pacaembu o Santos ganha mais dinheiro e tem mais visibilidade.

Jogadores não querem nem ouvir falar em treinar fundamentos, mesmo quando claras dificuldades em alguns; mas depois ficam contrariados quando são vaiados pela torcida por não saberem cruzar direito, dar um passe ou chutar a gol.

Terem uma biblioteca à disposição no CT do Santos? Para quê, se o que querem mesmo é passar horas no videogame ou jogando cartas ou snooker?

Será que não percebem que quando pararem de jogar, poderão trabalhar como comentaristas e aí a facilidade de se expressar e uma visão global das coisas serão muito importantes?

Amigos? Talvez, mas não agora

Quanto pude orientar jovens jornalistas esportivos, sempre fiz questão de lhes prevenir para não ficarem amigos dos atletas, mesmo daqueles que admiram. A profissão exige uma visão crítica que geralmente é prejudicada pela amizade.

Só quando completam suas carreiras e completam sua história, é que atletas e jornalistas, ou atletas e torcedores podem se tornar amigos, desde que haja oportunidade e afinidade. Antes, esta relação é muito delicada e perigosa.

Por mais que o torcedor admire um atleta, sua adoração maior é o time, o clube, a instituição. Atletas, em sua grande maioria, passarão pela história do clube e muitas vezes nunca mais voltarão. Talvez até saiam falando mal. No mínimo beijarão outros distintivos, cantarão outros hinos, farão juras de amor a outras bandeiras e talvez até ganhem títulos com outras camisas.

O torcedor pode amar um jogador enquanto ele veste a camisa de seu time, mas aprendeu a esquecê-lo, mesmo com dor no coração, quando ele vai embora. É que este torcedor sabe que o que une este jogador ao seu clube não é o mesmo amor que ele sente, mas sim o salário e outras cláusulas acertadas com o jogador e seu empresário.

A relação ideal

A existência de um blog que exprime a opinião do torcedor santista e faz críticas construtivas, é mais do que positiva. Mas, é evidente, o jogador criticado tem muita dificuldade em aceitar isso.

Se ele não aceita admoestações nem do técnico ou do diretor de futebol, quanto mais de um jornalista e de torcedores que freqüentam um blo? Mas terá de aceitar, pois esta é uma ferramenta de uma sociedade democrática e é para este modelo que caminhará a relação entre os jogadores e a torcida de um clube.

Não é preciso haver ofensas ou agressões. Está jogando bem? Tem se empenhado nos treinamentos? Tem sido ético com o clube e os companheiros? Tem respeitado o torcedor? Obviamente receberá elogios e terá o seu lugar garantido no time.

Tem falhado continuamente? Foge de suas responsabilidades? Desrespeita seus colegas de equipe? Revolta-se contra as decisões do técnico e dos diretores? Não colabora com os programas de marketing do clube? É claro que um jogador assim será criticado.

No final das contas, “jogar bem” é o mais importante, e quem não o consegue, por mais que se esforce, não será aprovado pelos torcedores, mesmo que seja um sujeito bacana.

Enfim, o jogador tem de entender que as críticas não são motivadas por aspectos pessoais, mas sim pelo seu rendimento como atleta. Este deveria ser um sinal importante para ele procurar se aprimorar.

O mau exemplo do Palmeiras

Se não há válvulas civilizadas de escape, como este blog, o relacionamento entre torcedores e jogadores geralmente resulta em situações como vimos hoje cedo em frente ao centro de treinamento do Palmeiras, onde cerca de 50 membros da torcida organizada Mancha Verde, alguns utilizando correntes no pescoço, entoaram cânticos agressivos, como “Fora o time inteiro, bando de mercenário só pensa em dinheiro”, “Não é mole não, perder do Flu agora é obrigação” e “Só o que faltava, ganhar do Fluminense para ajudar a gambazada”.

O clima ficou muito pesado. Os torcedores ainda pediram a demissão de todos os diretores de futebol do clube e de jogadores, como os zagueiros titulares Danilo e Maurício Ramos. Quatro viaturas policiais foram deslocadas para a frente do CT para garantir a segurança. Os torcedores usaram uma faixa com a frase “fechado por incompetência” para impedir que carros pudessem entrar no CT da Barra Funda.

Creio que nenhum jogador se sentirá seguro em um clube no qual os torcedores podem invadir o centro de treinamento e ameaçá-los fisicamente. Esse tipo de atitude não leva a nada e só faz com que atletas evitem vestir essa camisa.

O que se quer no Santos, ao menos segundo este blog e este “cara do blog”, é uma relação educada, amigável até, mas com a cobrança e as críticas construtivas naturais que devem haver para incentivar o aprimoramento e evitar a acomodação de profissionais que são contratados e regiamente pagos para defender o branco da paz e o negro da nobreza do Alvinegro Praiano.

Você acha que este blog pega pesado nas críticas aos jogadores do Santos, ou é até educado demais? Qual seria o tom ideal?