O Santos tem oferecido planos de carreira a Meninos da base e jogadores jovens que se destacam. Acho isso ótimo. Mas que tal a direção do clube ter também um plano de carreira para o time de futebol?

Talvez o termo certo não seja este, talvez o mais apropriado seja plano de vôo, são sei, o certo é que o futebol profissional parece desorientado. Às vezes parece ir em determinada direção, mas em seguida muda a rota sem maiores explicações.

Há um distanciamento entre o time e a torcida

Está havendo um distanciamento entre o time de futebol e a torcida do Santos. O torcedor está sendo obrigado a engolir jogadores que ele não quer e não está tendo a oportunidade de ver em campo os que ele quer.

Entendam bem. Não estou afirmando que todo Menino da base é melhor do que um profissional contratado de outras equipes.

Também não estou afirmando que todo jogador jovem deva entrar imediatamente na equipe.

Mas o que faz o torcedor feliz, o que seria um consolo nesse momento é ver todos os jogadores que ele quer com a camisa do Santos.

Seria precipitado lançar todos de uma vez só, admito, mas nesses três jogos que faltam para o final do Brasileiro, por que não dar reais oportunidades a Felipe Anderson, Moisés, Tiago Alves, Anderson Planta,Vinícius Simon, e manter no time os garotos Neymar, Madson, Alan Patrick?

É isso que o povo quer. É isso que o torcedor anseia.

Que o torcedor assuma o risco

Se um time jovem desses – desde que bem preparado antes, claro, e não jogado às feras – perder, jogar mal, mostrar que alguns desses jovens jogadores, decantados pelo torcedor, não têm mesmo condições, no momento, para serem titulares do Santos, tudo bem. O torcedor compreenderá e parará de fazer pressão para que sejam escalados. Mas, se jogarem bem e devolverem a alegria ao Santos, por que não mantê-los?

O torcedor sabe que os grandes momentos da história do Santos estão ligados aos Meninos da Vila: 1978 (com resquícios no de 1984), 2002, 2010. Isto, sem contar os Meninos fundadores do clube – Milllon e Arnaldo –, os que jogaram no ataque dos 100 gols (Siriri, Camarão, Araken, Omar, Evangelista) e os maravilhosos Meninos dos anos 50 e 60 (Pepe, Del Vecchio, Pagão, Pelé, Coutinho, Clodoaldo, Edu, Joel Camargo…).

Com razão, o torcedor do Santos pensa assim: enquanto o time não for formado por um bando de Meninos talentosos e irreverentes, não seremos o Santos. Por isso ele acha que esse time que jogou ontem, em casa, contra o Grêmio – com um jogador a mais durante 70 minutos e com um pênalti a seu favor –, só ficou no 0 a 0 porque não é o Santos, não segue o DNA do Santos.

O torcedor pode estar errado? Sim. Mas ele quer e tem o direito de errar. Desde que presidente, diretores e comissão técnica entendam qual é o plano de carreira para o Santos, estes erros fazem parte da vida de um clube. Mas sem esses erros não se chegará a um time verdadeiramente Santos.

E os “experientes”, como ficam?

É claro que não se pode descartar, de uma hora para outra, vários jogadores experientes e razoavelmente bons, que hoje são maioria no elenco santista. Porém, eles não têm conseguido e nunca conseguirão dar ao Santos o futebol que se viu no primeiro semestre, por exemplo.

Veteranos, ou, diríamos, jogadores mais rodados, preferem impor um ritmo de jogo mais cadenciado ao time, ousam menos em dribles e chutes, arriscam menos nos passes.

É natural imprimirem um estilo de jogo que poupará seus físicos. Assim, obviamente, não há time com muitos jogadores mais velhos que seja rápido, insinuante e marque muitos gols, como deve ser o Santos.

Lembremo-nos do Santos de 2009 e 2009. Havia no mínimo quatro jogadores que eram considerados intocáveis. Dizia-se que sem eles o Santos seria rebaixado (na verdade quase o foi com eles em campo). Eram Fábio Costa, Rodrigo Souto, Kléber e Kléber Pereira.

Pois os quatro saíram do time e o que aconteceu? Surgiram as oportunidades para Rafael, Arouca e André (além da volta de Léo), e o time passou a ser ofensivo e atrevido como um bom Santos deve ser.

Assim, não é uma questão de se menosprezar os veteranos, mas de se ter consciência de que no Santos eles nunca podem ser maioria, nunca poderão ter a prioridade nas escalações, ou isso deformará o estilo ancestral de jogo do time.

Reconheço que há posições, em funções de defesa, em que um veterano pode ser mais importante. Porém, hoje o futebol mudou. Mesmo de um zagueiro se exige mais velocidade e disposição física. Se há reservas mais jovens, por que não lhes dar oportunidades reais de brigar pela posição?

Por que os Meninos são tratados como bombeiros?

Tenho dito para todos os cantos que o Santos é o clube que mais respeita os Meninos que vêm da base. E gostaria muito que os diretores do clube confirmassem isso na prática e não tratassem os Meninos apenas como apagadores de incêndio.

Na verdade, o Santos sempre apelou para seus Meninos quando não tinha dinheiro em caixa e não podia contratar medalhões. Foi assim com o time de 1927, em 1978 e em 2002.

O primeiro a fugir desse script foi o técnico Luis Alonso Peres, o Lula, que realmente acreditava nos jovens e tinha um olho clínico incrível para distinguir um craque entre milhares de cabeças de bagre.

Lula teve a coragem de lançar Coutinho com 14 anos, Pelé com 16, Edu com 15… Foi o técnico de maior visão e coragem que o clube já teve e a ele o Santos deve suas grandes conquistas.

Em 1927, 1978 e 2002 os Meninos foram chamados quando o clube estava bem próximo da insolvência. Vieram e não só salvaram o Santos, como o tornaram uma referência mundial de bom futebol.

Que se forme a República dos Meninos

Há muita gente que se diz preocupada com a irreverência, com a alegria, com o “desrespeito” dos Meninos. Ora, algumas características são próprias da idade, mas sem elas o Santos nunca teria os grandes times que teve.

Sem os Meninos o Santos não ousa, não se diverte em campo, não vai pra cima dos adversários. Vira esse velório que se viu ontem e que se verá nos jogos restantes desse Brasileiro se o time continuar a ser escalado com tanto jogador “experiente” e contemporizador.

Acho que falo pela maioria dos santistas quando digo que gostaria de ver, nestes três jogos que faltam neste Brasileiro desperdiçado, muitos e muitos Meninos em campo.

Se o Santos perder, paciência. O torcedor saberá entender. Já que os veteranos perderam, os Meninos também têm o direito. Mas se voltar a jogar com beleza e alegria, se voltar a ser ofensivo como sempre foi e deve ser, o torcedor voltará a acreditar que há um rumo certo para este time, que ele realmente pode muito mais do que tem jogado e que não são apenas os jogadores do Santos que têm um plano de carreira.

E você, acha que se deve lançar muitos Meninos nos jogos que faltam, ou é preciso ter cuidado, já que muitos ainda são inexperientes?