Treinar diminui o stress na hora da cobrança

Após o frustrante empate em 0 a 0 com o Grêmio, em que o time jogou com um jogador a mais por 70 minutos e Zé Eduardo perdeu o pênalti que poderia dar a vitória ao Santos, o técnico Marcelo Martelotte disse que não adianta treinar cobrança de pênaltis, porque no treino não há o componente emocional da partida. Engano dele…

Meu filho, com quem tive o prazer de almoçar neste domingo, resumiu em uma frase a importância de se treinar cobranças de pênalti. Não me recordo exatamente das palavras, mas Thiago disse que o treino dá mais confiança e a confiança aumenta a margem de acerto.

Ora, isso é óbvio. Se não adianta treinar cobranças de pênaltis, será que adiantaria treinar faltas, escanteios ou qualquer outra bola parada? Ora, ora, ora, os jogadores já treinam pouco pelo que ganham. Vamos tirar mais uma responsabilidade deles?

Ser o cobrador oficial de pênaltis de um time é uma honra e um privilégio. Fazer gol dá prestígio e status e não há maneira mais fácil, ou melhor, menos difícil, de subir no ranking dos artilheiros do que cobrando pênaltis. Sou do tempo em que ser cobrador oficial de pênaltis de um time era uma honra.

Pênalti é sensibilidade, sintonia fina

Pênalti não é só força e nem é só jeito. Exige um pouco de ambos. Como se está bem perto do gol, não é preciso encher o pé, nem fechar os olhos e chutar de bico. Uma bola colocada, mas forte, de peito de pé, geralmente resolve a questão.

Cada cobrador tem uma particularidade, uma preferência. Como cobrador que jamais perdeu um pênalti no campo do Diamante de Cidade Dutra, eu tinha a minha. Como joguei um pouco no gol, escolhi o ângulo que julgava mais difícil para um goleiro destro: o canto esquerdo rasteiro.

Achava extremamente difícil defender uma bola rasteira no meu canto esquerdo, e por isso era ali mesmo que eu cobrava. Jamais perdi um pênalti. Nem mesmo contra o grande Valdir de Moraes, quando joguei pelos jornalistas contra a comissão técnica da Seleção Brasileira de Telê Santana, na Toca da Raposa: caprichei tanto e a bola saiu rasteirinha e tão rente à trave, que Valdir nem se mexeu.

Como Pelé e Dalmo

Perceba, meu amigo e minha amiga, que Pelé e Dalmo, dois dos cobradores de pênaltis no grande Santos, optavam pela mesma cobrança rasteira, no canto esquerdo do goleiro.

Rememore o gol 1.000 de Pelé e o gol de Dalmo contra o Milan, na vitória sobre o Milan por 1 a 0 que deu ao Santos o bicampeonato mundial, e perceba que ambos foram cobrados rigorosamente iguais. Houve até a coincidência dos dois goleiros adivinharem o canto e triscarem na bola, mas mesmo assim ela entrou.

O chute não é tão forte, é seco, chapado, sem efeito. O pé pega quase no centro da bola, para evitar que ela suba. Não é preciso enfeitar muito, pois a vantagem é de quem cobra.

Já está provado que se o goleiro ficar parado, terá pouquíssimas chances de defender um pênalti. Por isso ele escolhe um canto. E por isso Pelé e Dalmo usavam a paradinha.

Mas contar que o goleiro sempre escolherá um canto e por isso apelar para a cavadinha, ou o chute no meio do gol, é muito arriscado. As notícias correm rápido. Um jogador que nunca usou, talvez possa usar a cavadinha contra um goleiro que sempre escolhe um canto, mas, tirando o fator surpresa, essa é uma decisão que pode ser catastrófica, como Neymar percebeu no primeiro jogo da final da Copa do Brasil, contra o Vitória.

Nunca vi Pelé chutar um pênalti no meio do gol. Ele já buscou tão o canto que chutou para fora, como contra a ferroviária, em 1967, ou o goleiro defendeu, como corintiano Heitor, em 1964, mas sempre tentou fazer a coisa certa.

Ajuda da ciência

Pênalti bem cobrado, entra, por mais que o goleiro seja bom. O gol mede 7,32m e tem 2,44m de altura. A física prova que mesmo um goleiro grande e elástico tem pouquíssima chance de defender caso a bola vá com alguma força e bem no canto.

Em um livro sobre fundamentos o autor recomenda ao destro bater no canto esquerdo do goleiro e, ao canhoto, bater no direito, invertendo o que seria o natural do chute. Mas isso não pode ser uma regra.

Zé Eduardo, destro, bateu no canto direito de Victor e não conseguiu marcar, mas Robinho escolheu o mesmo canto direito, de Doni, e fez 1 a 0 na grande final do brasileiro de 2002.

Um programa especial que vi em um canal por assinatura mostrou as pesquisas de um estudioso que provou ser o pênalti batido no canto, na altura da metade da trave, o mais difícil de ser defendido. Atacantes foram orientados a treinar esse tipo de cobrança e a margem de acerto foi de 100%.

Fiquei surpreso com essa descoberta. Sempre imaginei que o pênalti indefensável fosse aquele que entra no ângulo superior. Porém, é tão difícil pegar na bola da maneira correta para jogá-la sempre lá, que no meu caso, optei pelo chute rasteiro.

Depender de uma cobrança que a bola tem de sair alta é bastante temerário, pois é só pegar um pouco abaixo do ponto certo e ela encontre o travessão.

Até craques já perderam. Por isso é preciso treinar

Não se pode crucificar um jogador que perde pênalti. Todos os grandes craques que conheço já perderam. Pelé, Zico, Sócrates, Falcão, Platini, Roberto Baggio…

Mas a diferença do grande craque para o jogador que eventualmente cobra pênaltis, é que o craque sabe que o treino vai lhe dar mais sensibilidade para o chute, como se colocasse a bola “com a mão”.

O cestinha do basquete Oscar Schmidt treinava, no mínimo, mil arremessos por dia. Sua “mão santa” não foi uma dádiva dos céus, mas sim resultado de muita dedicação e persistência. Zico também treinava muito, principalmente cobrança de faltas, o mesmo ocorre com Rogério Ceni.

Aliás, sabem por que de repente surgiram tantos goleiros cobradores de faltas e pênaltis? Por que quando todo o resto do time já está no chuveiro, eles continuam treinando e, para motivar mais o trabalho, fazem disputas de cobranças com os jogadores de linha. Resultado: passam a bater na bola tão bem, ou melhor, do que os atacantes.

Recapitulando a lição…

Pênalti é sintonia fina. A melhor cobrança é uma mistura de força e jeito. O bom cobrador deve buscar, obrigatoriamente, os cantos.

Quanto mais se treina, mais se sente a bola e se adquire confiança de jogá-la onde se quer e com a força que se quer.

Se Pelé, o Rei do Futebol, treinava, por que um outro jogador pode se achar no direito de não faze-lo? É preciso treinar cobrança de pênaltis, sim, senhor Marcelo Martelotte. Isso não impedirá que outros ainda venham a ser perdidos, mas não com a constância com que isso vem acontecendo no Santos.

Veja o gol 1.000 de Pelé. Perceba onde a bola entrou: rasteirinha, no canto esquerdo do goleiro argentino Andrada, que ainda toca nela, mas não pode impedir o rumo da história.

Não precisa concordar comigo, claro. Mas diga se você acha que jogador profissional precisa treinar cobrança de pênaltis, ou eu é que sou muito exigente.