Santos toma mais uma virada depois de estar vencendo por 2 a 0

Saiba tudo sobre a derrota de 3 a 2 para o Avaí, na opinião do analista Pedro Reino

Depois de declarar repetidas vezes durante o primeiro semestre, para todos os meios de comunicação possíveis, que o Santos “vende o espetáculo, e não o artista” e que o time “entra para ganhar até disputa de cara ou coroa”, nosso presidente Luis Álvaro deixou ao menos em mim a esperança de que o Santos de 2010 não era diferente apenas dentro de campo. Havia craques fora dele, afinal! Craques que manteriam o elenco responsável pelo futebol mais bonito e vencedor do primeiro semestre do ano. Craques da gestão, da administração esportiva. Visionários, empreendedores. Vencedores.

Minha esperança foi abalada em diversos momentos. Há muito, acabou. Hoje a derrota do Santos para o Avaí, de virada, após estarmos vencendo por 2 a 0 mesmo na casa do adversário – que com o resultado final da partida escapou matematicamente do rebaixamento para a Série B –, foi mais um soco na minha cara. Não o primeiro do ano, muito menos do semestre, e com boa chance de não ser o último da temporada…

Contra o Atlético-MG, em Minas, comandado pelo nosso ex-técnico Dorival Junior, Marcelo Martelotte, o interino inventivo, armou o Santos em um 7-1-2. Para simplificar: um amontoado de gente atrás, um jogador na ligação, dois atacantes. Esperou sofrermos o empate para mexer. Mexeu mal. Ainda saímos com um pontinho.

Hoje não foi muito diferente. Contra o Avaí, que nos eliminou da Copa Sul-Americana na base do pontapé e sob a vista grossa de uma arbitragem conivente, o Santos entrou em campo armado em mais um esquema inédito, até então: 6-1-2-1!

Com Durval e Bruno Aguiar na zaga, Pará e Léo nas laterais sem ameaçarem em momento algum a subida ao ataque (no primeiro tempo, ao menos) e Rodrigo Possebon e Adriano à frente de nossa área, tínhamos nada menos do que SEIS jogadores fixos na marcação. Arouca, também marcando, era quem tinha a responsabilidade de ligar Felipe Anderson e Neymar, que voltavam para receber, e Keirrison, sempre próximo ou dentro da área adversária.

Assim conseguimos chegar aos 2 a 0 em dois gols “feitos” pelo Neymar. Poderíamos ter feito o terceiro, também com ele. De qualquer forma, o 2 a 0 deveria ter sido o suficiente para segurarmos o jogo e a pressão do Avaí, temendo pelo rebaixamento, desesperado diante de sua torcida, e matarmos a partida em um eventual contra-ataque certeiro. Não foi o que aconteceu.

Não foi o que aconteceu porque Wesley, um dos principais jogadores do Santos no primeiro semestre, foi vendido. Para ocupar sua posição veio Rodrigo Possebon, jovem revelado pelo Inter que nunca se destacou em clube algum e foi o segundo pior em campo no primeiro tempo.

Não foi o que aconteceu também porque André, um dos responsáveis pela quantidade histórica de gols que o Santos marcou no primeiro semestre, também foi vendido. Para ocupar sua posição veio Keirrison, que só jogou algum futebol no Coritiba, depois irritou os torcedores palmeirenses e seus contratantes europeus e acabou voltando para o Brasil para irritar a nós, santistas.

Não foi o que aconteceu, por fim, porque não temos um técnico. Demitimos o que tínhamos e não contratamos ninguém. E ninguém não sabe escalar time. Mesmo o técnico que tínhamos já falhava, tanto em escalações quanto, em especial, nas substituições. Mas ninguém é ainda PIOR, é claro!

Assim, mesmo abrindo 2 a 0, sofremos dois gols em poucos minutos – como já aconteceu diversas vezes nas últimas partidas. E o Santos, que entraria para vencer até disputa de cara ou coroa, se mostrava postado em campo para levar mais uma virada de um time de menor expressão e alegrar mais uma torcida que nunca comemorou um título relevante…

Primeiro tempo

O amontoado de santistas na marcação atrai o Avaí como um ímã, mas os catarinenses deixam claro por que estão ameaçados de rebaixamento ao insistir nas jogadas pelo meio, onde tem mais gente de branco, de azul, de tudo quanto é cor. O gol do Avaí não sai, apesar de terem maior posse de bola e a torcida a seu favor, e o Santos ameaça nos contra-ataques. Neymar é caçado dentro de campo, como já cansamos de presenciar, e o árbitro, Sandro Meira Ricci, ídolo recente da torcida do Corinthians, não levanta um cartão para o caçadores.

Mas Neymar encontra um espaço na zaga adversária. Na primeira tentativa, sai com bola e tudo pela linha de fundo. Na segunda, cruza na área para Felipe Anderson, que ainda precisa comer muito arroz com feijão, perder um gol feito, e Keirrison, graças ao zagueirão do Avaí, que literalmente entrou com bola e tudo, marcar o primeiro do Santos.

Pouco depois, Neymar, já cansado de apanhar e hostilizado pela torcida adversária, faz o seu em um contra-ataque que é só o que sobrou do Santos do primeiro semestre. O 2 a 0 poderia ter ido para o intervalo conosco…

E teria ido, não fosse a fragilidade da marcação santista na entrada da área, de onde o Avaí ameaçou durante todo o primeiro tempo e chegou aos seus dois gols para empatar a partida. Primeiro em jogada individual de Caio, que passou por meio time do Santos sem que ninguém o derrubasse ou, melhor, roubasse de forma limpa a bola, e depois, de novo com Caio, em chute de fora da área que nosso ótimo goleiro Rafael, o mesmo que cansou de fazer defesas difíceis nos 45 minutos anteriores, não viu, acredito, porque o amontoado de defensores incompetentes que tínhamos atrapalhou sua visão.

O empate só saiu porque a arbitragem deixou seguir um lance em que Keirrison tentava prender a bola justamente para não sofrermos o gol de empate antes de descermos para o vestiário e porque o jogo correu até além do +1 minuto que Sandro Meira Ricci indicou que seria jogado no primeiro tempo. Assim como já havia acontecido na derrota para o Vitória, na Bahia, também pelo Brasileirão, o Santos sofria um gol que não poderia sofrer jogando fora de casa contra um time ameaçado, uma torcida empolgada e uma arbitragem descaradamente caseira.

Segundo tempo

Com a saída de Adriano, pior em campo pelo Santos no primeiro tempo, entra Danilo para sabe-se-lá-o-que. A braçadeira de pior em campo pelo Santos é passada para Rodrigo Possebon, o segundo pior até então.

Como era de se esperar, o time do Avaí, empolgado com o empate ainda no primeiro tempo e empurrado por sua torcida, pressionou o Santos desde que a bola voltou a rolar. O que não era de se esperar era que o Santos fosse ficar satisfeito com isso, com o resultado e com a forma como a partida se desenhava para mais uma virada sofrida.

Danilo, perdido em campo, nada acrescentou. Logo Rodrigo Possebon também foi substituído para a entrada de Alex Sandro. O Santos deixava de ter seis homens parados à frente de Rafael para ter “apenas” quatro – a dupla de zaga, Durval e Bruno Aguiar, e os laterais fixos atrás, Pará e Léo – com Arouca mais à frente para, como sempre, ter sozinho a responsabilidade de promover a saída de bola e distribuição.

Alex Sandro e Danilo, como alas, nada fizeram. Acabaram tendo de ajudar na marcação, já que o Avaí pressionava todo o tempo, e deixaram Neymar, Felipe Anderson e Keirrison lá na frente. O que fizeram, na verdade, foi um bom tanto de faltas, já que não sabem marcar na bola. Assim como também fizeram um bom tanto de faltas todos os outros marcadores do Santos. A maioria recebeu amarelos por isso.

O que poderia ter sido uma reestruturação de disposição tática do time com o jogo correndo, com as saídas de dois volantes – Adriano e Rodrigo Possebon – que não sabem dar um passe para as entradas de dois alas – Danilo e Alex Sandro – que não sabem marcar nem fazer um cruzamento, acabou não acontecendo. O Santos continuou com seis atrás. Continuou no sufuco. Continuou sendo pressionado. Até que permitiu a virada – que estava na cara que viria.

Pará ainda saiu para a entrada de um Zé Eduardo que mal tocou na bola e que vem demonstrando não ter a capacidade técnica mínima para vestir a camisa do Santos em uma competição como a Libertadores. Mas nada mudou.

Mesmo com campo e bola entregues pelo time do Avaí, que já havia conseguido o que queria, a virada, e só esperava um contra-ataque para poder matar o jogo, o Santos não ameaçou. Não criou mais nada. Neymar, bem marcado, não teve com quem jogar… mais uma vez – como vem sendo durante todo este segundo semestre.

Sem André para tabelar com Neymar e atrair a marcação, e sem Wesley para, com Arouca, distribuir jogo e subir para o ataque, o Santos foi previsível como vem sendo durante todo o final deste ano que começou lindo e mais uma vez deu alegrias para o torcedor rival. E mais uma vez me deixou com vergonha. E mais uma vez me fez lembrar do primeiro semestre como se este tivesse sido só um sonho, uma partida de videogame ou passado distante.

Avaliações individuais

RAFAEL – Não falhou. Como sempre. Fez mais de um milagre no primeiro tempo. Pegou tudo o que pode também no segundo. Mas o que não pode, entrou… e foram três. Uma pena.

Rafael não merece a defesa que tem à sua frente. Rafael merece muito mais. O Santos deveria poder mais para ele. Muda Adriano, Roberto Brum, Rodrigo Possebon, Rodriguinho… e o Rafael segue levando gols que não deveria. Mas todos os outros ele pega, e por isso será nosso titular na Libertadores 2011. Espero – e acredito que o Rafael também – que não com marcadores como esses à sua frente…

DURVAL e BRUNO AGUIAR – Foram bem. Não tiveram culpa em nenhum dos gols que sofremos. Isso porque todos os três gols que sofremos aconteceram em jogadas de fora da área. Todos eles deveriam ter sido evitados pelos volantes que estavam incumbidos de ficar plantados justamente à frente de nossa área para que nada disso acontecesse. Mas aconteceu. Foi a consagração de um jogador do time adversário, que teve espaços de sobra para, com sua velocidade e precisão, explorar nossas falhas… mas falhas de fora da área. Durval e Bruno Aguiar não têm culpa nisso.

PARÁ e LÉO – Não subiram. Só ficaram atrás a maior parte do jogo. Quando subiram, nada fizeram. E mesmo atrás, falharam algumas vezes (cada um). Portanto, não foram bem.

Por mais que eu goste dos dois, fico imaginando uma falha de qualquer um deles em um momento decisivo da Libertadores… e isso me dá uma sensação ruim. Talvez não tenham condições de seguir como titulares em 2011. Pelo menos não como vêm jogando neste segundo semestre de 2010. Certamente não como jogaram hoje: muito aquém do que esperamos, do que precisamos e do que já vimos os dois jogando com a camisa do Santos.

ADRIANO e RODRIGO POSSEBON – Os responsáveis diretos pela entregada no primeiro tempo, que no final das contas nos custou o resultado. Dois jogadores lentos, que não sabem marcar sem fazer faltas, que nem acompanham como deveriam, já que foram colocados em campo com a única e exclusiva função de marcar, e que não sabem dar um passe.

Não têm condições de vestir a camisa do Santos em 2011. Adriano foi sacado no intervalo da partida levando consigo um cartão amarelo e, mesmo substituído por Danilo, uma negação na marcação, não fez falta alguma dentro de campo. Rodrigo Possebon, que o juiz deixou de amarelar em uma chegada pesada e atrasada por trás, que derrubou o jogador do Avaí, saiu para a entrada de Alex Sandro, outro péssimo marcador, e também não sentimos sua ausência. Não só não sentimos como eu comemorei, na verdade, as saídas dos dois. Quem quer que entrasse, seria melhor. Quaisquer outros dois. Menos Adriano e Rodrigo Possebon. Que não podem ficar para 2011, repito. Não têm quaisquer condições.

AROUCA – Dispensa uma análise mais completa. É o segundo melhor jogador de linha do Santos em atividade, atrás apenas de Neymar. Tem atuações tão regulares que muitas vezes supera o Neymar em produção. Hoje, não superou, mas mais uma vez foi nossa única válvula de escape do amontoado de marcadores lá detrás que não sabem tocar uma bola no pé de um companheiro, ou sair jogando.

Arouca deu ótimos passes durante toda a partida, não me lembro de ter errado algum – grave, ao menos – e levou o time ao ataque quando não havia mais ninguém para armar as jogadas. Funcionou mais como um meia-armador do que Felipe Anderson, que ainda é bastante jovem, inexperiente (na categoria principal) e sente o peso da partida e, mais do que isso, da marcação.

FELIPE ANDERSON – Já falei sobre ele durante toda a análise, acredito. Sente muito o jogo. Não aparece tanto, recebe passes e não tem a tranquilidade de matar a bola, olhar o jogo, ligar um companheiro. Não consegue usar de sua velocidade porque para na força bruta da marcação. Ainda tem muito o que melhorar e o que se soltar, mas precisa continuar tendo chances para tanto.

Não tem condições de entrar como titular, como foi hoje (por falta de opções, acredito), mas precisa continuar tendo chances, sim, sem dúvida nenhuma. Ainda não mostrou quase nada pelo time principal, mas quem conhece a base do Santos sabe que esse garoto tem futuro. E, independentemente disso, ao menos não deixa o time com um a menos como acontece quando temos Marquinhos em campo. Espero que entre na próxima partida e que continue entrando em 2011. Torço por ele, porque este garoto é, junto com alguns companheiros da base, o futuro do Santos!

NEYMAR – É gênio. Pena que não tem com quem jogar. Conseguiu fazer um dos três gols que faltam para alcançar o Serginho Chulapa na artilharia santista pós-Pelé. Perdeu um tentando encobrir o goleiro. Mas deu um feito para Felipe Anderson perder e Keirrison, junto com o zagueiro do Avaí, empurrar para dentro. Portanto, fez tudo por nós, como costuma ser. Pena que o momento seria de nós, ou o resto do time, fazermos por ele. Assim Neymar chegaria a seus objetivos individuais, que é só o que o Santos pode obter de glória neste segundo semestre. O que obtivemos no primeiro foi pelos pés dele. Retribuir não seria mais do que obrigação. Mas faltam companheiros…

Neymar não tem com quem jogar, diretoria.

KEIRRISON – Um ex-jogador. Tão jovem e já perdeu seu futebol. Será que tem volta? Não sei. Gostaria que fosse descobrir em outro clube. Não pode ficar no Santos para 2011. Já imaginaram dependermos do Keirrison para matar um jogo decisivo na Libertadores?!

DANILO e ALEX SANDRO – Substituíram Adriano e Rodrigo Possebon, respectivamente, os volantes que não sabem nem marcar, nem dar um passe, e não nos deixaram com saudades deles. Mas também, imagine se tivessem! Aí era melhor colocar quaisquer dois leitores aqui do blog como alas e tenho certeza de que o desempenho não seria tão pior.

Danilo e Alex Sandro são jovens equivalentes e com defeitos em comum. Não sabem marcar, não sabem finalizar (salvo raríssimas exceções em que acertaram um chute, como Alex Sandro contra o Cruzeiro e Danilo contra o Goiás) e não sabem jogar para o time. Não têm visão de jogo, não me parecem inteligentes e não me parecem dedicados a melhorar seus fundamentos. Como não são jogadores do Santos, mas sim de empresários que os trouxeram para nós, penso que poderiam ser dispensados. Não consigo imaginar que qualquer um desses dois seja útil para nós em 2011. Não foram úteis para nós em praticamente momento algum de 2010.

Será que vale a pena continuar apostando em garotos de fora, de empresários, quando estamos disputando a competição mais importante que um clube brasileiro pode disputar? E se a aposta se mostrar, tarde demais, um erro grave?

Sem experiência, fracos nos fundamentos básicos que um bom lateral deve ter – saber marcar, saber quando subir, saber cruzar e saber finalizar – e erráticos mesmo quando jogando onde e como preferem, não vejo futuro para esses dois. Gostaria que não tivessem futuro no Santos. Porque, penso, o Santos não tem muito futuro se depender deles…

ZÉ EDUARDO – Já me agradou mais. Hoje penso que é um jogador muito limitado, muito acomodado e que não está aproveitando – ou já não aproveitou – o momento em que a vaga no time titular caiu no seu colo para alegrar a torcida santista com gols e garantir seu espaço no elenco para 2011.

Todo jogador tem defeitos, e nós sabemos que quem quer que venha para 2011 também trará os seus, mas saber identificar e corrigir seus defeitos é o que difere os jogadores comuns, ou ordinários, dos jogadores raros, os extraordinários. Zé Eduardo é um atacante comum, ordinário, que na maioria das vezes não acrescenta nem prejudica. Algumas vezes acrescenta, como quando fez três (bonitos) gols contra o Fluminense, no Rio. Outras, prejudica, como quando entrou e foi expulso, contra o Cruzeiro.

A questão é que jogadores comuns, ordinários, precisam compensar sua limitação com raça e com vontade de jogo, e com raça e com vontade de melhorar. E o Zé Eduardo não vem mostrando nada disso. Bem agora, que tem a chance em suas mãos…

Eu já não manteria o Zé no meu Santos para 2011.

MARCELO MARTELOTTE – Sempre inventivo. Hoje, um Santos armado em uma variação do já clássico 7-1-2 daquela partida contra o Atlético-MG. Uma pena que não empatamos de novo, como daquela vez. O empate fora de casa é sempre bom, não? Mas estamos empatando sempre em casa… e perdendo fora. O Goiás, 99% rebaixado e pensando no Palmeiras pela Sul-Americana, foi a exceção dessa condição que estamos mantendo há várias rodadas. E nada muda…

Marcelo Martelotte está satisfeito. Vem fazendo o trabalho que tem de fazer. Trabalha para o Santos, a favor do clube. Pensa no melhor para todos. Escala quem é indicado a escalar. Monta o time da forma que dá, tentando não chatear ninguém. São muitos fatores a levar em consideração, na hora de escalar o time: diretoria, empresários, amizades dentro do elenco… é tudo muito complicado. Eu entendo. Como torcedor do Santos, sei que essa sequência final de partidas no ano, em que mais perdemos e empatamos do que qualquer coisa, é o melhor para o Santos agora. Afinal, estamos nos preparando para uma Libertadores!

ADVERSÁRIO – Não caiu para a Série B graças a nós. Parabéns para nós!

(E o ano de 2010, que não acaba…!)