Bahia (1959), Santos (1962), Cruzeiro (1966), Palmeiras (1967), Fluminense (1984), Atlético-PR (2001), Grêmio (1981) e São Paulo (2006). Todos campeões brasileiros iguais.

Nesta discussão que tenta diminuir o valor da Taça Brasil e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, poucos se lembram, ou não sabem, que a instituição do Campeonato Nacional, a partir de 1971, competição estimulada pelo governo militar, significou um grande retrocesso no futebol brasileiro.

Já se tinha chegado a uma fórmula vencedora e lucrativa com o Torneio Roberto Gomes Pedrosa/ Taça de Prata, que representou uma evolução da Taça Brasil, primeira competição oficial a dar ao seu vencedor o título de campeão brasileiro.

O Torneio Roberto Gomes Pedrosa, disputado de 1967 a 1970, que nos últimos três anos, organizado pela CBD, também foi chamado de Taça de Prata, era tudo que uma competição moderna de futebol precisa ter: poucos e poderosos participantes, os melhores jogadores do Brasil – e do mundo –, ótima média de público, jogos de alto nível, credibilidade e excelente cobertura da mídia.

Tudo isso se perdeu gradativamente com o advento do chamado Campeonato Nacional, que por priorizar o interesse político, tornou-se um grande “cabide de emprego”, enchendo-se de clubes que não tinham qualidade para disputar a competição mais importante do país.

Ficou famosa a frase: “Onde a Arena vai mal, mais um time no Nacional. Onde vai bem, mais um time também”. A Arena era o partido do governo e através de convites a clubes de todas as regiões do Brasil, contentava-se as suas torcidas e se garantia a simpatia do povo.

Deixou de haver o mérito esportivo. Clubes sem currículo ou tradição eram convidados por conveniência política. Os militares viviam a febre da integração do país, com o Projeto Rondon, a Transamazôniza e o futebol. Para entrar no Nacional, bastava a indicação e a proteção de um político influente.

Cada vez maior, mais fraco e mais deficitário

O Torneio Roberto Gomes Pedrosa, que há três anos mantinha o mesmo número de 17 participantes, reunia a nata do futebol brasileiro e teve uma média de 20.155 pagantes por jogo.

Essa estrutura permitia aos grandes clubes manter os seus craques. Tanto é que todos os jogadores, titulares e reservas, da Seleção Brasileira campeã da Copa de 70, jogavam no Brasil. O privilegiado torcedor brasileiro podia ver os melhores jogadores do mundo competindo entre si.

Todas estas conquistas foram rapidamente destroçadas com o advento do malfadado Campeonato Nacional. Em sua primeira versão, de 1971, acrescentaram apenas três equipes, o regulamento foi similar à Taça de Prata do ano anterior e a média de público também se manteve na casa dos 20 mil pagantes. Mas, nos anos seguintes, o inchaço atingiu proporções gigantescas e a qualidade despencou.
Em 1972 o total de equipes passou a 26. Foram incluídos times de Amazonas, Pará, Alagoas, Sergipe e Rio Grande do Norte. A média de público caiu para 17.591. Em 1973 acrescentaram-se mais 16 participantes, chegando-se a 40, e a média caiu para 15.460 pessoas por jogo.

Bem, para resumir a história, basta dizer que em 1979 o Campeonato Nacional, cujo nome oficial passava a ser Copa Brasil, foi disputado por 94 equipes, com um público médio de 9.136 pessoas por partida, menos da metade do que o Roberto Gomes Pedrosa tinha alcançado dez anos antes.

Em uma época em que os clubes viviam exclusivamente das arrecadações, é fácil adivinhar a situação de penúria que passou a afligir grande parte dos grandes times brasileiros devido a esta estrutura de campeonato. A inclusão de muitas equipes sem gabarito contribuía para reduzir drasticamente o nível técnico da competição e diminuir-lhe o interesse.

Campeões de vida fácil

Como o objetivo maior do campeonato era “integrar o país pelo futebol”, os times de maior tradição eram obrigados a jogar com os mais fracos nas fases iniciais. Assim, as muitas chaves eram feitas de tal maneira que dificultavam os clássicos e permitiam que um clube chegasse à final, ou ao título, sem enfrentar adversários mais fortes.

Em 1980, por exemplo, quando a competição teve 104 participantes, 40 da Taça de Ouro e 64 da Taça de Prata, que depois embocavam em uma competição só, o Flamengo enfrentou apenas quatro times dos de maior tradição e força no futebol brasileiro: Internacional, Santos, Atlético-MG e Palmeiras.

Os outros adversários do rubro-negro carioca na campanha que lhe valeu seu primeiro título brasileiro foram: Botafogo da Paraíba, Mixto (MT), Ferroviário (CE), Itabaiana (SE), Bangu, Ponte Preta, Santa Cruz, Coritiba e Náutico.

Esse fenômeno aconteceu várias vezes nesse período: Em 1977 o campeonato reuniu 62 times, mas, dos mais fortes, o campeão São Paulo só precisou enfrentar cinco: Palmeiras, Corinthians, Internacional, Grêmio e Atlético-MG.

Em 1981, eram 88, mas o Grêmio só pegou três “pedreiras”: Corinthians, Botafogo e São Paulo, mesmo número que o Flamengo em 1983, que só fez clássicos contra Santos, Corinthians e Vasco.

Do caos veio o Clube dos Treze. Mas ainda falta muito…

O campeonato que começou em 1971 chegou a uma situação caótica em 1986, provavelmente a sua edição mais desorganizada (mais ainda do que as de 1971, 1979, 1984 e 1985). Em 1986 a Confederação Brasileira de Futebol resolveu juntar as Taças de Ouro, Prata e Bronze (respectivamente séries A, B e C) numa única competição, com nada menos que 80 clubes.

A bagunça, que gerou várias demandas jurídicas, afastou o público, provocou insistentes críticas da imprensa, afetou ainda mais a credibilidade da CBF e fez os grandes clubes brasileiros fundarem, em 4 de julho de 1987, o Clube dos Treze, que organizou o campeonato nacional daquele ano.

Batizado de Copa União, o campeonato contou com “apenas” 32 participantes, divididos em dois módulos, vencidos por Flamengo e Sport (por ter se recusado a jogar a decisão, o Flamengo perdeu, na justiça, o título para o clube pernambucano. Porém, a CBF ainda não tem uma posição definitiva sobre o caso).

Apesar da esperança de dias melhores, o campeonato nacional, que passou a se chamar “Brasileiro” apenas em 1989, continuou com altos e baixos. Impossibilitada pela justiça de organizar a competição no ano 2000, a CBF passou novamente a incumbência para o Clube dos Treze, que realizou a confusa Copa João Havelange.

Com equipes de várias divisões que se cruzavam no final, a Copa reuniu 116 times, teve público médio de 11.546 pagantes e acabou revelando o São Caetano, que veio de baixo e chegou à final contra o Vasco, tornando-se vice-campeão brasileiro.

Mesmo com a fixação, a partir de 2003, do campeonato por pontos corridos, interrompendo 32 anos consecutivos de mudanças de regulamento, o Campeonato Brasileiro jamais atingiu o nível técnico e o sucesso de crítica e público do Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Entre 2007 e 2009, a média de público do Brasileiro superou 16 mil espectadores por jogo, mas em 2010 voltou a ficar abaixo de 15 mil.

Taça Brasil, Robertão, Nacional… Todos têm o mesmo valor

O Campeonato Brasileiro que se tem hoje, com 20 clubes, jogado em pontos corridos e em dois turnos, creio que seja a fórmula adequada para se apurar o melhor time do país. Porém, para se chegar até ela, muitas outras foram testadas, a maioria delas inútil e desnecessariamente.

Se formos rigorosos, teremos de não aceitar como válidas muitas das edições do campeonato nacional a partir de 1971. Na edição de 1974 usou-se até a arrecadação das equipes como critério de classificação. Entretanto, as competições foram realizadas, mobilizaram jogadores, árbitros, jornalistas, dirigentes, atraíram milhões aos estádios e muitos mais através da imprensa, foram oficiais, estão documentadas, portanto não há o que contestar.

Depois de se atingir um sucesso invejável com a Taça de Prata, o Campeonato Nacional representou um retrocesso técnico e financeiro profundo, que deixou boa parte dos grandes clubes brasileiros à beira da falência. Mas, fazer o quê? A história dessas competições não pode ser apagada.

Da mesma forma, não se pode, através de julgamentos anacrônicos, que pretendem analisar o passado com os olhos do presente, querer apagar da história as primeiras competições nacionais de clubes, regulares e oficiais: a Taça Brasil e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa.

Poderiam ter sido melhores? Sim, como as edições do campeonato nacional a partir de 1971. Mas também mobilizaram jogadores, árbitros, jornalistas, dirigentes, atraíram milhões aos estádios e muitos mais através da imprensa. Enfim, foram oficiais, estão documentadas, não há o que contestar.

É só isso que precisa ser entendido: que a história não distingue a importância das competições por seus regulamentos, número de participantes ou nível técnico (se fosse assim, edições do Nacional a partir de 1971 teriam de ser impugnadas). Ela as distingue pela sua finalidade. E todas elas, da Taça Brasil, ao Campeonato Brasileiro atual, tiveram e têm um só objetivo: definir o campeão brasileiro da temporada.

Veja o programa Globo Esporte que fala da Unificação dos títulos brasileiros:

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