Eu, a testemunha-chave João Havelange e José Carlos Peres, o mentor da unificação.

Algumas pessoas, estranhamente desesperadas com o inevitável reconhecimento, por parte da CBF, dos títulos brasileiros a partir de 1959, estão atirando para todos os lados. E entre as alegações desses trainees de profetas do apocalipse, está a de que tudo deveria ficar como antes, porque agora uma enxurrada de dossiês será produzida.

Ora, tirando a parte que não respeitam e banalizam o meu trabalho – como se pesquisas históricas pudessem ser feitas como posts de cinco linhas em um blog –, acho que se houver mesmo uma produção contínua de dossiês sobre competições de futebol já realizadas no Brasil, isso será ótimo, pois ao menos evitará que caiam no esquecimento, como muitos queriam que acontecesse com a Taça Brasil e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa.

Quem diz que tudo deveria ficar como antes desse reconhecimento, na verdade está dizendo que as competições nacionais antes de 1971 deveriam permanecer no limbo, no buraco negro da história.

Pelé, Garrincha, Ademir da Guia, Tostão, enfim, uma geração incomparável de craques que lutou pelo título brasileiro de 1959 a 1971 seria jogada na lixeira de nossa memória esportiva. Era isso que queriam?

Sem o testemunho dos jogadores e do senhor João Havelange, não seria possível produzir um documento irrefutável, como foi feito. Ou seja, com o passar do tempo, a recuperação da era de ouro do futebol brasileiro poderia estar irremediavelmente perdida.

No entanto, por interesses deconhecidos, muitos pediam e ainda pedem – pois têm opinião formada, mesmo sem estarem informados – que se deixasse tudo como estava, ou seja: com as duas primeiras competições nacionais e oficiais, a Taça Brasil e o Robertão, menos conhecidas e valorizadas a cada ano, e um campeonato que começou em 1971 e, sob forte influência do governo militar, tornou-se um monstro deficitário, de nível técnico baixo, muitas viradas de mesa, dez mudanças de nome e troca de regulamentos a cada ano.

É este Nacional que querem que continue como a única referência de “campeonato brasileiro” (oficialmente a competição só se chamou assim em 1989)? Por que tanto rigor, tanta exigência com a Taça Brasil e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa e ao mesmo tempo tanta tolerância com esta competição que, todos sabem, apresentou sérios problemas na maior parte de suas edições?

Regras para um dossiê dar certo

Tenho sido consultado por jornalistas e pesquisadores sobre a possibilidade de se produzir dossiês sobre determinadas competições do passado e enviá-los para a análise da CBF. A todos tenho respondido que para se ter sucesso na empreitada, é preciso que se consiga provar vários aspectos da competição.

O essencial é que ela tenha sido criada para o mesmo objetivo que é proposto no dossiê. Não adianta, por exemplo, pegar um torneio Rio-São Paulo e tentar transformá-lo em Campeonato Brasileiro. Ele foi criado para unir equipes de São Paulo e Rio de Janeiro em um torneio regional, não nacional.

Mesmo sabendo-se que São Paulo e Rio concentravam os melhores times e jogadores do País à época, a competição não tinha abrangência nacional e nem, repito, tinha sido criada com esse objetivo.

Documentos, imprensa, testemunhas

Esta oficialidade do evento tem de ser comprovada com documentos da própria federação ou confederação. Há muitas competições amistosas que podem adquirir prestígio, reunir grandes equipes, atrair ótimo público e ganhar grande espaço na mídia. Mesmo assim, não deixarão de ser amistosas.

É preciso comprovar-se também a finalidade da competição. Dezenas de torneios internacionais – o Hexagonal do Chile é um deles – tiveram um nível técnico superior a qualquer “campeonato” mundial de clubes já realizado. Porém, não tinham como objetivo definir um campeão mundial.

Depois de se cercar da documentação suficiente, é preciso constatar se a imprensa corrobora com essa finalidade. No caso da Taça Brasil, a CBD diz que é oficial e foi criada para definir o campeão brasileiro, e toda a imprensa do País à época concorda com esse objetivo.

Como é impossível que todos os jornalistas esportivos de um período de dez anos tivessem cometido o mesmo equívoco quanto à finalidade da competição, destacando em títulos e nos leads das matérias que elas definiam o campeão brasileiro e único representante do país na Copa Libertadores da América, conclui-se que a imprensa corroborava com a finalidade oficial do evento.

Neste ponto, provada a finalidade da competição e sua confirmação pela imprensa, talvez o dossiê já seja bem-sucedido. Mas, ainda é preciso ouvir as testemunhas. No meu caso, os jogadores foram muito importantes. Porém, mais do que eles, a testemunha-chave era o senhor João Havelange, presidente da CBD, que criou não só a Taça Brasil, como o Torneio Roberto Gomes Pedrosa e o Campeonato Nacional.

E Havelange foi enfático. Em carta e, principalmente, em depoimento para mim e o Peres, em Santos, deixou claro que a Taça Brasil e o Robertão tinham o objetivo de definir o campeão brasileiro. “Se foram disputados, foram oficiais, e se foram oficiais, tem de ser respeitados”, concluiu (seu depoimento está no vídeo entregue à CBF, junto com o Dossiê).

Quem ganha é a história

Desta forma, mesmo que o sucesso do “Dossiê pela Unificação dos títulos brasileiros a partir de 1959” desencadeie uma onda de dossiês, isso não quer dizer que todos serão aprovados. Há exigências para que sejam aceitos e a maior delas, obviamente, é a de que expressem, rigorosamente, a verdade.

Porém, aprovados ou não, estes dossiês acabarão preenchendo uma lacuna importante na história do futebol brasileiro, pois jogarão luzes sobre competições e períodos hoje pouco ou nada conhecidos.

Trabalhar para recuperar a história não é uma loucura. A loucura é esquecê-la.

E você, tem se informado sobre Taça brasil e Torneio Roberto Gomes Pedrosa para poder defender a causa justa do reconhecimento?