De canela é mais gostoso…

Passei o dia 2 de dezembro de 1982 fechado na técnica central da Rádio Globo de São Paulo. Como coordenador da jornada esportiva, distribuía a bola para repórteres, locutores, comentaristas e fazia o meio-campo dos homens da latinha com os operadores de mesa e técnicos de som. Só tínhamos uma tevê, sem som, para vislumbrar o jogo, quando dava. E meu coração, é claro, estava apertado.

Depois de muitos anos no sistema eliminatório (mata-mata), a Federação Paulista de Futebol resolvera voltar o Campeonato Paulista à fórmula dos pontos corridos, e o Santos se mantivera à frente o tempo todo. Nas últimas rodadas, entretanto, o Corinthians se aproximara perigosamente. Se vencesse aquela última partida – coincidentemente contra o Santos, líder do campeonato – o alvinegro da capital seria tricampeão paulista, repetindo o feito do Santos em 1967/68/69.

Estavam construindo o metrô na Rua das Palmeiras e, naqueles tempos, o que não faltava na Rádio Globo eram baratas e corintianos. Eu estava cercado por elas e eles. Conversei com o Osmar Santos antes da transmissão. Geralmente ele me pedia alguma frase para dizer na hora do gol. Naquele dia, só me lembro de ter passado a ele que o gol, em uma final como aquela, seria o momento da verdade que se eterniza. Ele improvisava em cima das minhas sugestões e percebo, ouvindo agora, que deu uma acoxambrada no que eu lhe disse.

Feios, sujos e malvados

Esta é uma expressão que o escritor José Roberto Torero utilizou para definir o time do Santos campeão em 1984 e concordo com ela. Aqueles jogadores fugiam do padrão santista. Depois de ver seus Meninos da Vila caçados em campo e roubados pela arbitragem – revolta que chegou ao clímax em 1983, quando Arnaldo César Coelho garfou o Alvinegro na final do Brasileiro, no Maracanã –, o torcedor queria um time menos ingênuo, com jogadores mais durões, malandros e até violentos.

E aquele Santos, com jogadores da estirpe de Rodolfo Rodríguez, Márcio, Toninho Carlos, Dema, Humberto e Serginho não era mesmo de levar desaforos para casa. Podia até perder na bola, mas no pau, nunca…

Debate de “O Grande Jogo”

No livro que fiz com Celso Unzelte sobre aquela que chamamos a maior rivalidade alvinegra do futebol, Celso e eu falamos desta final de 1984, claro. Reproduzo aqui o que cada um disse sobre ela:

Celso Unzelte
1984 era para ser o ano do tri, e só não foi porque apareceu justamente o Santos, e Serginho Chulapa, no meio do caminho. Reforçado pelo dinheiro da venda de Sócrates para a Fiorentina, da Itália, o Corinthians montou um time quase todo novo, com o goleiro Carlos e o lateral-direito Édson, que eram da Ponte; o volante Dunga, jovem revelação do Inter; o meia Arturzinho, o centroavante Lima, o ponta-direita Paulo César (ex-São Paulo) e até um ex-santista histórico, o ponta-esquerda João Paulo. Mesmo atrapalhado pela Seleção Olímpica, que durante um bom tempo nos tirou o volante Dunga e o técnico Jair Picerni, o Timão reagiu espetacularmente naquele campeonato, ganhando 22 dos últimos 24 pontos disputados, em uma época em que vitória valia só dois pontos. Bastava, na última rodada, vencer o Santos, que só precisava do empate para ser campeão.

O Santos era um time baseado principalmente nas defesas de Rodolfo Rodríguez e nos gols de Serginho. Passou o ano inteiro jogando como se deve jogar em um campeonato de pontos corridos, como foi aquele: empatando fora e ganhando em casa. Confiantes como sempre, os corintianos foram ao estádio plageando um sucesso da época, cantado pelo grupo de garotas Sempre Livre: “Eu sou tri, sempre tri, eu sou tri demais…” Eu poderia aqui choramingar um pênalti claro sobre o Zenon não marcado pelo árbitro José de Assis Aragão quando estava 0 a 0, mas não vou fazer isso porque não gosto de desmerecer as conquistas dos outros. É a sua vez de detalhar um pouco mais aquela vitória do Santos.

Odir Cunha
Como você bem disse, Celso, o Corinthians vinha de grande reação e precisava da vitória para chegar ao tricampeonato, repetindo o feito do Santos em 1967/68/69. Mais de 100 mil pessoas (101.587) pagaram para ver o jogo e no final tiveram de aplaudir os campeões Rodolfo Rodríguez, Chiquinho, Márcio, Toninho Carlos e Toninho Oliveira; Dema, Lino, Paulo Isidoro e Humberto; Serginho e Zé Sérgio, comandados pelo técnico: Castilho.

Você disse que aquele Santos vivia das defesas do uruguaio Rodolfo Rodríguez, um dos melhores goleiros que já atuou no Brasil, e dos gols de Serginho. Realmente, eram excelentes em suas posições, tanto que Serginho foi o artilheiro daquele campeonato, com 16 gols, repetindo o feito do ano anterior, quando havia marcado 22. Mas o Santos tinha muito mais.

Os zagueiros Márcio e Toninho Carlos chegaram a atuar pela Seleção Brasileira, assim como os meio-campistas Dema e Paulo Isidoro e o atacante Zé Sérgio. O time era melhor do que o Corinthians do técnico Jair Vicerni, ou melhor, Picerni.

As imagens do jogão

Trago três vídeos sobre a partida. No primeiro, logo abaixo, perceba que o Morumbi está dividido ao meio. Mesmo tendo o mando de jogo, o Santos jamais marcaria um clássico final do Campeonato Paulista para a Vila Belmiro, ou para o Pacaembu. Só o Morumbi comportava essa grande rivalidade. Portanto, trata-se de mais um título vencido longe da Vila. Note, ainda, que bandeiras e fogos eram permitidos.

Reveja agora os principais momentos do jogo. Costumo dizer que Serginho fez o gol de canela. Note bem que foi mesmo. Repare ainda que João Paulo, um dos Meninos da Vila de 1978, jogava pelo Corinthians e teve boa chance, defendida magistralmente por Rodolfo Rodríguez. Por fim, perceba que o gol do Santos começou com um passe errado de um corintiano, que cai no pé do santista Paulo Isidoro. Quem foi o corintiano? Ora, ninguém menos do que Dunga, este mesmo que não levou Ganso e Neymar pra Copa.

Por fim, termino com a narração do gol por Osmar Santos. Perceba como ele pega o lance em cima, narrando cada detalhe com precisão. Para mim, foi o grande nome da narração esportiva do Brasil. Claro que sou suspeito, pois além de ser seu redator por quatro anos, também fui e sou seu amigo.

E pra você, que recordações o título de 1984 traz?