Revista Placar, revista do Fluminense e Boletim Oficial da CBD concordam: Flu, campeão do Brasil de 70

No seu blog, o jornalista carioca José Ilan ouviu oito companheiros de profissão, todos de empresas da Rede Globo, para saber se o Fluminense, caso seja campeão brasileiro domingo, terá conseguido o título pela segunda ou terceira vez. Ou seja, a questão é saber se estes jornalistas consideram como título brasileiro o conquistado pelo Fluminense em 1970, quando a competição nacional se chamava Torneio Roberto Gomes Pedrosa/ Taça de Prata.

Que tal revermos o que os jornalistas disseram e analisar suas respostas?

Maurício Noriega – comentarista Sportv
Se conquistar o título, pra mim o Flu será tricampeão. Em todos os campeonatos daquela época só mudava o nome. Como não reconhecer o Santos de Pelé, a Academia do Palmeiras, o Bahia de 1959, o Flu daquela versão do Robertão em 70? O Robertão era de fato o primeiro Campeonato Brasileiro. Antes, a Taça Brasil, que também era importante, era como a Copa do Brasil atual. Em 67, o Palmeiras ganhou as duas. Claro que não pode ser considerado campeão brasileiro duas vezes no mesmo ano, mas é como se tivesse ganho o Brasileiro e a Copa do Brasil. Se o Vasco foi campeão em 2000, num campeonato com outro nome (Copa João Havelange) e fórmula toda modificada, o de 70 também vale, é muito justo. Não dá pra considerar só de 71 pra cá como a “vaca sagrada”. Temos mania de seguir a nomenclatura oficial da CBF, mas eu vou considerar tricampeão.

Maurício Noriega demonstra algum conhecimento da história, mas ao comparar a Taça Brasil, jogada de 1959 a 1968, com a atual Copa do Brasil, criada 30 anos depois, comete um erro grave. A fórmula das competições e suas denominações são parecidas, mas a importância é bem diferente. A Taça Brasil foi criada pela CBD para dar ao vencedor o título de campeão brasileiro e o direito de representar o Brasil na Copa Libertadores. A Copa do Brasil nunca foi a competição nacional mais importante,

Luis Roberto – narrador TV Globo
Acho que se ganhar, o Fluminense será bicampeão. Vai ser bicampeão brasileiro e campeão do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, que era outro campeonato, e isso não diminui em nada a conquista, não é uma preocupação que eu considere relevante. Como o Vasco foi campeão Sul-Americano em 48, mas não era Libertadores, e o Santos da Taça Brasil nos anos 60, assim como o Bahia, em 59. Se na época era a competição mais importante, não precisa mudar o nome. Os casos da Copa União (1987) e da Copa João Havelange (2000) foram diferentes. Esta segunda, por exemplo, foi um dispositivo jurídico para mudar o regulamento do Brasileiro. O Robertão tem sua importância histórica, como a Taça Brasil, mas título brasileiro tem que ser reconhecido de 71 pra cá.

Luis Roberto parece que ouviu o galo cantar, mas não sabe onde. Repete um discurso contrário à unificação que já li em outros sites e blogs, mas sem fundamento. Se ele mesmo concorda que Taça Brasil e Torneio Roberto Gomes Pedrosa/Taça de Prata eram as competições mais importantes de sua época, e se (isso não sei se ele sabe) a CBD declarava o vencedor dessas competições como campeão brasileiro, então só mesmo por desconhecimento ele pode dizer que “título brasileiro tem que ser reconhecido de 71 para cá”. Acho que ele não sabe, mas o nome “Campeonato Brasileiro” só passou a ser usado a partir de 1989.

Eraldo Leite – comunicador Rádio Globo/RJ
Primeiro, acho que bi ou tri é aquele que conquista os títulos em sequência. Mas sobre este título do Flu em 1970, na época era a Taça de Prata. O Campeonato Brasileiro começou a ser disputado em 1971. Era outro formato, não tinha o mesmo nome. Assim como em 62/63 o Santos foi bi campeão do Brasil, o Cruzeiro em 66, mas era Taça Brasil, um campeonato regionalizado. Eu nessa época ainda morava em Campos dos Goytacazes-RJ, e me lembro que até os times de lá disputavam as primeiras fases. Antes de se criar um Campeonato Brasileiro, a competição mudou de nome várias vezes, mas em nenhuma tinha o sentido atual, criado a partir de 1971. Portanto, o Flu, se conquistar, será bicampeão.

Eraldo demonstra um desconhecimento constrangedor. Não houve nenhuma mudança de regras nem de “formato” de 1970 para 1971. Não há porque considerar 1971 e desconsiderar 1970. O Santos não foi bicampeão da Taça Brasil. Foi pentacampeão – 1961/62/63/64/65 –, o que o torna o único pentacampeão brasileiro de futebol. Ele também se engana redondamente quando diz que a Taça Brasil era um “campeonato regionalizado”. A primeira versão da Taça Brasil, em 1959, apesar da pouca estrutura da época (a primeira ponte aérea, entre Rio e São Paulo, foi inaugurada justamente naquele ano), já reuniu representantes de 16 Estados, em uma época em que o Brasil só tinha 20 Estados. Hoje, a Série A do Campeonato Brasileiro, que decide o campeão do país na temporada, só tem representes de nove Estados, e o Brasil tem 27 Estados. Portanto, a Taça Brasil, disputada pelos campeões de cada Estado, era mais democrática e abrangente do que o campeonato brasileiro atual. Eraldo só acerta quando diz que para ser bi ou tri os títulos devem ser conquistados em seqüência.

Alex Escobar – apresentador TV Globo
Se teve representante de RJ, SP, MG, de todos os estados com relevância no futebol e não houve uma competição nacional mais importante em 1970, pra mim será tri, sim. Ou será que o Pelé nunca foi campeão brasileiro? Jogou várias competições nacionais nos anos 60, venceu com aquele timaço do Santos… E não pode dizer que é campeão brasileiro? Pra mim é. Acho que, se vier, a torcida do Fluminense tem que comemorar o tricampeonato, sim.

Alex Escobar é curto e grosso e mata a pau. Este sabe das coisas. E note que ele já fez um belo livro sobre a Copa do Brasil. Portanto, é alguém que se interessa pela história do futebol e fala com fundamento.

Lédio Carmona – comentarista Sportv
Se for campeão, eu acho que a licença poética é valida, não é um delito. De fato, ele ganhou a Taça de Prata em 1970. Se era o Campeonato Brasileiro da época, o Flu tem todo direito de se achar campeão brasileiro, principalmente a torcida, não vejo problema. Eu acho legítimo que o clube queira o reconhecimento oficial, porque é uma questão apenas de nomenclatura, de neologismo. A CBF deveria unificar isso, independentemente do nome da competição, que depois mudou de novo, em 1987 e 2000. Como jornalista, tenho que adotar o que é oficialmente reconhecido pela CBF, mas acho justo que o Flu e os campeões anteriores da Taça de Prata sejam considerados campeões brasileiros.

Equilibrado, ponderado, conhecedor da história e dos critérios que devem ser levados em conta em uma análise como esta, Lédio Carmona mostra porque é um dos jornalistas esportivos mais respeitados da TV.

Mauro Naves – repórter TV Globo
Eu acho que em caso de conquista, será bicampeão. O Fluminense foi campeão de um outro torneio em 1970. Senão, tem que ver quantos o Palmeiras ganhou lá atrás, o Santos, o Bahia e todos que têm direito a dizer que são mais do que se diz hoje. Os casos da Copa União e da João Havelange acho que são diferentes, porque estavam dentro do contexto do Campeonato Brasileiro da época. O Robertão não era necessariamente um Brasileiro.

Mauro Naves considero amigo, um sujeito simpaticíssimo, mas está meio perdido na história. “O Robertão não era necessariamente um Brasileiro?”. E o que seria, para o Mauro Naves, um Campeonato Brasileiro? Se é aquele que se chamou assim, ele começou em 1989; se é o campeonato por pontos corridos, então devemos contar só a partir de 2003; se é a partir do momento em que a CBF assumiu o futebol brasileiro, então deve valer apenas a partir de setembro de 1979, depois que oito edições do “brasileiro” já tinham sido disputadas. Eu perguntaria ao Mauro: O Campeonato Nacional era um campeonato brasileiro? E a Copa Brasil? E a Taça de Ouro? E a Copa União? E a Copa João Havelange? Pois todos esses nomes foram dados ao “campeonato brasileiro”. E como definir esse “campeonato brasileiro” se de 1971 a 2003 ele não repetiu o regulamento uma única vez? Pois o lógico e óbvio é admitir que, apesar de nomes e regulamentos diferentes, o Brasil tem um campeão brasileiro por ano desde 1959.

Carlos Gil – repórter TV Globo
Acho que a CBF tem que se posicionar. O Flu tá no direito legítimo de se auto-proclamar, ou de brigar pelo reconhecimento de um titulo que era o mais importante, o campeonato máximo da época; assim como o Santos, o Bahia e o Palmeiras, em anos anteriores. O grande equívoco é a CBF não se pronunciar. O nome da competição é o que menos importa. A CBF tem que dizer se o Flu é campeão brasileiro de 70 ou não é. Nos anos 80 mudaram pra Taça de Ouro, depois João Havelange e tal, mas o nome é o que menos importa. Se for o caso, a entidade tem que vir a público pelo menos para explicar por que eles não são campeões. Nada mais justo.

Outro que pensa de forma lógica e precisa, Carlos Gil vai direto ao ponto: o nome é um detalhe, o que importa é o conceito. É óbvio que o Fluminense foi campeão brasileiro em 1970 por ter obtido o título do Torneio Roberto Gomes Pedrosa/ Taça de Prata. A CBF reconhecia e divulgava isso, e toda a imprensa da época repercutia, e pelo título o Fluminense representou o Brasil na Copa Libertadores da América. Não admitir isso seria um demérito para a CBF, que se apropriou dos títulos da Seleção Brasileira antes de 1971, mas não quer reconhecer que o país já tinha clubes campeões brasileiros antes disso.

André Rizek – apresentador e comentarista Sportv
Eu sou um cara tradicional. Eu acho que, em caso de título, será bi. Aquele lá de 1970 tem outro nome. A importância pode até ser a mesma, mas era outra competição. A Copa União e a João Havelange foram uma licença poética, e confesso que não tenho resposta muito boa pra dizer por que eles são títulos brasileiros e o Robertão não é. Mas, pra mim, fico com o tradicional. Será bicampeão. Mas defendo também que torcedor pode tudo. Se o do Palmeiras quer se auto-proclamar campeão mundial de 51, o do Fluminense pode, sim, se considerar tricampeão se conquistar no domingo.

Se André Rizek é “um cara tradicional”, então deveria seguir o que é oficial desde os tempos da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), que criou tanto a Taça Brasil, como o Torneio Roberto Gomes Pedrosa/Taça de Prata e o Campeonato Nacional, em 1971. E criou para que todas estas competições, que se sucederam, definissem o campeão brasileiro. Explicar as Copas União e João Havelange como “licenças poéticas” pode servir para a poesia, a literatura, mas não para a pesquisa histórica, que deve ser racional e coerente. Se não se encontra uma linha plausível de raciocínio para juntar todas as competições nacionais, não se pode excluir algumas e validar outras. E a única linha plausível é considerar que o país já tem campeões nacionais desde 1959, apesar de disputarem competições com nomes, formatos e regulamentos diferentes. Mas eram competições oficiais e criadas com este fim. Ponto.

Veja este vídeo que fala da conquista do Fluminense em 1970 e resume a importância do Torneio Roberto Gomes Pedrosa/ Taça de Prata

Por que será que ainda existem pessoas que consideram o Nacional de 1971 e desmerecem a Taça de Prata de 1970. Dá pra entender?