Algumas vozes, poucas e repetitivas, ainda não perceberam que ser contra a unificação dos títulos brasileiros é o mesmo que ser contra o último Campeonato Brasileiro. Sim, porque tanto o Bahia, vencedor da Taça Brasil em 1959, como o Fluminense, vencedor do Campeonato Brasileiro de 2010, são campeões iguais de uma competição organizada pela mesma entidade (CBD/CBF) com a finalidade de definir o campeão nacional do ano.

Os departamentos da CBF analisaram o Dossiê com cuidado, e vinham acompanhando a discussão do assunto pela mídia. Há dois anos eu e José Carlos Peres iniciamos um trabalho de informação e debate sobre a Taça Brasil e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Todos foram convidados para participar dele. Mas só os jornalistas que respeitam o valor da informação aceitaram o convite.

Todos foram convidados para o painel para a imprensa realizado no salão nobre do Palmeiras, no início de 2009. O mesmo se repetiu pouco depois, no salão nobre do Fluminense, no Rio de Janeiro. Nestes eventos, apresentasmos um audiovisual com mais de uma hora de duração provando o objetivo e a relevância dessas competições, distribuímos cópias reduzidas do Dossiê para todos os presentes e abrimos, democraticamente, o diálogo com os presentes.

Dei também palestras sobre o assunto, como uma no Bar Boleiros, na qual, me lembro bem, o atual presidente do Santos, Luís Álvaro Ribeiro, então apenas um torcedor santista, estava presente. Participei de programas de rádio e tevê, respondi a centenas, talvez milhares de perguntas em sites e blogs. Estive sempre à disposição para conversas ou debates.

Além disso, produzi artigos com perguntas e respostas sobre a Taça Brasil e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa e os ofereci a centenas de jornalistas. Alguns – como José Roberto Torero –, publicaram esses arquivos e os discutiram amplamente com seus leitores; mas houve quem nem tenha se dignado a recebe-los, como se sua opinião “formada” não precisasse de mais informações sobre o tema.

Veículos que se tornam nichos de desinformação

Desculpem-me se pareço saudoso, mas acho importante lembrar como funcionava uma redação que sempre foi essencialmente ética, além de reunir alguns dos mais gabaritados jornalistas esportivos do Brasil: a redação do Jornal da Tarde nos anos 70, onde comecei a carreira.

No esporte velho JT prevalecia a informação. Não havia textos editorializados, campanhas a favor de nada ou contra nada. Um foca bem informado valia mais do que um medalhão que já não demonstrasse tanta vontade de ir atrás da notícia. Talvez por isso eu tenha ganhado dois Prêmios Esso em três anos de carreira. A estrela era o fato, a notícia.

Hoje vivemos a fase dos donos da verdade. Todo veículo tem o seu dono da verdade, ou às vezes mais de um, pois em algumas equipes há mais comentaristas do que repórteres, o que é um absurdo. Uns poucos vão atrás dos fatos e um montão passa a ruminá-los indefinidamente.

Provavelmente picados pela vaidade e pela falta de um crivo mais sério ao seu trabalho, esses profissionais realmente se julgam capazes de, numa opinião, numa frase, derrubar uma longa pesquisa feita por um outro profissional que ele deveria considerar colega, mas olha como adversário.

Como colocam a opinião pessoal acima dos fatos, como querem ser mais importantes do que a notícia, usam todos os argumentos – mesmo ilógicos, desconexos, ridículos – para provar que estão com a razão. E nessa cruzada, contra a justiça e o bom senso, sentem-se vitoriosos ao conseguirem arregimentar um exército de incautos torcedores que no fundo só querem um motivo, qualquer um, para demonstrar sua falta de espírito esportivo.

Confusão? Só na cabeça de quem não consegue pensar

A lógica da unificação é cristalina. Só não consegue entende-la quem não quer. Tento imaginar por que alguns jornalistas, que deveriam respeitar a história do futebol brasileiro, estão tão incomodados com a justíssima restauração de competições legais, abrangentes, indiscutíveis, que definiram os campeões nacionais na fase áurea de nosso futebol.

Que motivos alguém teria para negar que o Bahia, com todos os méritos e embasado em todas as provas, foi o primeiro campeão de clubes deste país, em 1959? Ou que o Palmeiras de Ademir da Guia e o Santos de Pelé, que tantas vezes defenderam o Brasil na Copa Libertadores, não foram os maiores campeões brasileiros de todos os tempos?

Um leitor me alertou para o fato de que 99,999999% dos jornalistas que estão contra a unificação torcerem para times que não ganharam nada de 1959 a 1970. Recuso-me a acreditar que um motivo tão pueril move senhores, alguns de cabelos brancos, contra um fato histórico que eles próprios testemunharam.

Não sei para que time torcem alguns jornalistas, mas este leitor, que me assegurou saber, garantiu-me que é isso mesmo que está acontecendo. “Isso está mostrando que vocês, da imprensa, são muito mais apaixonados por seus times do que nós pensamos”, escreveu-me ele.

Será? Recuso-me a acreditar nisso. Prefiro crer que está havendo uma grande coincidência, só isso. Mas que é estranho notar como alguns se recusam a entender o óbvio, isso é. Ou eu supervalorizava a inteligência de algumas pessoas, ou elas nunca tiveram grande capacidade intelectual e eu não percebia.

Aos jornalistas que estão começando, eu só diria que esse processo de unificação só confirmou que, mais do que status, fama ou uma empresa poderosa de comunicação por trás, o repórter precisa ser humilde diante do fato jornalístico. E essa atitude implica pesquisa, horas e horas de pouco glamour e muito trabalho, cercado por velhos jornais, revistas e livros cheirando a pó, tentando descobrir, em arquivos esquecidos pelo tempo, os sinais de uma época que já se foi, mas revelou-se fundamental para a história do futebol brasileiro.

Qualquer outra forma de lidar com a informação não se revelará eficaz. Uma pesquisa mal feita deixa buracos e uma opinião parcial, que não se baseie nos fatos, cairá no vazio e na incredulidade. Enfim, a unificação representou a vitória do trabalho de pesquisa. Ponto. E revogam-se as disposições em contrário!