Olhar o passado com os olhos do presente é cômodo, mas é um erro que deve ser evitado

Em uma matéria publicada hoje, o Uol compara quantos jogos o Santos fez para conquistar seis títulos brasileiros nos anos 60, e quantos fez o São Paulo para obter o mesmo número de títulos. Há uma diferença de quatro décadas entre as duas épocas, além de formatos diversos de competição, mas o Uol achou que poderia misturar tudo. Isso me lembrou uma piada de português.

Quando o português Carlos Lopes venceu a maratona de Los Angeles, veio a gozação: o lusitano precisou correr 42 quilômetros para ganhar a mesma medalha que o norte-americana conseguiu correndo apenas 100 metros.

Alguns argumentos que certos sites desinformados estão usando para tentar diminuir a importância das competições nacionais do Brasil antes de 1971 se parecem com essa piada sobre o herói Carlos Lopes.

Comparar duas competições de épocas e formatos diferentes, distantes quatro décadas uma da outra, é como colocar um corredor de 100 metros e um maratonista frente a frente na mesma competição.

É impressionante que, por mais que se fale sobre isso, poucos conseguem captar o espírito desta unificação. Ou estas pessoas não querem entender de forma alguma, e aí demonstram uma má vontade que não combina com o espírito do jornalismo, que deve estar aberto mesmo para pontos de vista divergentes, ou não entenderam mesmo, e aí talvez tenhamos um problema mais grave, pois não sei desenhar.

O segredo é olhar a unificação como sinônimo de respeito ao passado

Fico aqui imaginando que matéria fantástica o Uol não poderia fazer se fosse um site da Itália. Poderia comparar o campeonato italiano atual, com 20 clubes, em que cada um faz 38 jogos para ser campeão, com as primeiras competições, vencidas pelo Genoa, que fez dois jogos no mesmo dia, em 1898 e 1899.

Não sei precisar agora quantas partidas o Genoa fez para ganhar nove títulos italianos entre 1898 e 1924, mas, certamente, é um número bem inferior ao dos campeões atuais da Itália. No entanto, nenhum time reclama e a imprensa italiana não faz campanha para tirar os títulos de seu primeiro campeão.

Tenho a impressão de que, às vezes, quando você desvia certas pessoas de um pensamento linear, elas se perdem. Compreendem números, quantidades, mas ficam confusas quando precisam lidar com a abstração.

Reconheço que respeito, cultura, história, são coisas abstratas, de difícil quantificação. Porém, mesmo assim, esperava que estes conceitos não fossem tão estranhos mesmo para uma minoria de jornalistas – que parecem só se preocupar como o seu time ficará agora no ranking de campeões brasileiros.

Ora, essa visão estritamente numérica é muito pobre, muito rasteira. Como temos dito, a unificação jogará luzes sobre um período de ouro do futebol brasileiro que estava indo para a lixeira da história. Haverá mais trabalho e mais temas a serem desvendados para quem não se incomoda em trabalhar e pesquisar.

Essa redescoberta de um era dos sonhos é o grande tesouro dessa unificação. Saberá lidar com ele quem tiver disposição, talento e criatividade para mergulhar no passado e sair de lá com histórias e informações enriquecedoras. Porém, comparar conquistas anacrônicas, separadas por quatro décadas, com regulamentos e competições diferentes – apesar de terem a mesma finalidade – é o mesmo que colocar, lado a lado, um corredor de 100 metros rasos e um maratonista.

O que você acha de comparar competições de épocas diferentes? Prova alguma coisa?