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Ranking da Folha de São Paulo: um primor de incoerência e manipulação

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Há 48 anos o jornal Folha de São Paulo reconhecia no vencedor da Taça Brasil o campeão brasileiro. Hoje, alguns de seus jornalistas tentam desmentir os próprios colegas que cobriram o evento (clique na imagem).

A Unificação dos títulos brasileiros a partir de 1959 despertou uma reação rápida de quem é responsável pelo ranking do jornal Folha de São Paulo. Como se interesses tivessem sido contrariados, logo que a Unificação foi aprovada pela CBF, várias regras foram mudadas no ranking do jornal, para que não houvesse alteração nas primeiras posições.

Particularmente, acho esse negócio de ranking uma bobagem. Ao menos enquanto cada veículo e entidade tiver o seu. Que critério usar para dar mais ou menos pontos para uma competição? Sem um estudo pormenorizado de cada evento e cada situação, o que se tem no final é um chutômetro sem nenhuma credibilidade, como é o caso deste ranking da Folha.

Na matéria, publicada no dia 26 de dezembro, o jovem jornalista Rodrigo Bueno – que, assim como sou santista, confessou-se são-paulino –, explica as muitas “adaptações” do novo ranking. Reproduzo abaixo o texto da Folha e faço minhas observações em negrito. Veja se as explicações do Rodrigo o convencem:

A essência do Ranking Folha permanece, mas a lista terá um olhar mais técnico e não primordialmente oficial. Para entrar na lista, era preciso um time ser campeão ou vice de uma disputa nacional. Agora, isso foi estendido para competições internacionais.

Desde 1996 o ranking abordava disputas nacionais. Por que, logo depois do anúncio da Unificação, se estende para competições internacionais? E por que faz isso precipitadamente, sem um estudo detalhado das competições?

O Ranking Folha não acompanhará a unificação de títulos nacionais aprovada pela CBF. O Brasileiro continua sendo a disputa nacional mais valorizada. A lista, no entanto, aumentou a pontuação do Torneio Roberto Gomes Pedrosa.

Ótimo. A Folha não seguirá a lista oficial da Confederação Brasileira de Futebol e optará por um caminho marginal, tomando a atitude de um pasquim, um jornal alternativo. Por que? Sem argumentos para tomar tal medida, que contraria as próprias coberturas do jornal quando a Taça Brasil e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa foram disputados, as razões não são explicadas.

O embrião do Brasileiro passa a dar agora 20 pontos para o campeão e 13 para seu vice (eram 15 e 10). O “Robertão”, ampliação do Rio-São Paulo, era uma disputa restritiva, sem acesso e descenso. Nasceu quando ainda era jogada a Taça Brasil e morreu quando o Brasileiro foi criado, em 1971.

Por que 20 e 13 e não 19 e 14, ou 18 e 13? Enfim, de que cabeça saem estes números? E se o critério para se desvalorizar o Robertão era o fato de ele não ter acesso ou descenso, então várias edições do “Brasileiro” também deveriam ser rebaixadas. E “Brasileiro”, oficialmente, só aconteceu a partir de 1989. A Folha continua seguindo um caminho próprio, sem dar satisfação a ninguém.

A Taça Brasil permanece equivalente no ranking à Copa do Brasil. São duas competições com perfil semelhante – disputas de tiro curto, restritivas, usando Estaduais como classificatórios e oferecendo vaga na Libertadores ao campeão.

Anacronismo total. A Taça Brasil era a única competição nacional, a mais importante, a que dava as únicas vagas do Brasil na Copa Libertadores. A Copa do Brasil é tão secundária que os times brasileiros classificados para a Libertadores não participam dela. Dar a mesma pontuação para as duas é misturar as épocas e as importâncias de maneira primária, amadora. Quanto às vaga na Libertadores, a Taça Brasil dava 100% das vagas brasileiras, a Taça Brasil dá 20%. Essa proporção não significa nada?

Também levando em conta o critério técnico, o ranking passa a contar o título do Flamengo de 1987. E isso sem desconsiderar o Sport como campeão. O aspecto oficial e o técnico serão levados em conta.

Mais incoerência. Se o aspecto técnico também deve ser levado em conta, por que o Robertão valeria menos do que o “Brasileiro”, já que foi a competição nacional de melhor nível técnico já disputada? Quanto a considerar Flamengo e Sport campeões em 1987, parece que agindo assim a Folha quer substituir a CBF, tomando para si o poder de oficializar alguns campeões e desoficializar outros.

Importante salientar que a Folha sempre noticiou a decisão da CBF e a decisão judicial que garantem a taça ao Sport e que não cabe ao jornal oficializar ou não títulos esportivos. O intuito da lista é outro: espelhar o histórico técnico dos times.

Mais incoerência. Se o intuito da lista é “espelhar o histórico técnico dos times”, por que os campeões da Taça Brasil, por exemplo, que ganharam seus títulos na época áurea do futebol brasileiro, são desvalorizados, enquanto “campeões brasileiros” de edições de baixo nível técnico, como muitas depois de 1971, ganham mais pontos pela conquista?

A lista passa a contar também o Sul-Americano de 1948, vencido pelo Vasco. O embrião da Libertadores, reconhecido pela Conmebol, teve inegável importância e relevância técnica. Porém não contará com o peso de uma Libertadores.

Ué, se a lista considera o Sul-americano de 1948 o embrião da Libertadores, por que não lhe dar o mesmo peso da Libertadores? E por que, neste caso, o reconhecimento da Conmebol é importante, enquanto o reconhecimento da CBF, unificando os títulos brasileiros a partir de 1959, é ignorado? Por que essa deferência especial à entidade dirigida por Nicolás Leoz?

Como já acontece no Ranking Folha do Futebol Mundial (cuja nova versão será publicada no próximo domingo), haverá a unificação dos segundos torneios da Conmebol. Supercopa, Copa Mercosul, Copa Conmebol e Copa Sul-Americana têm a mesma pontuação nas duas listas agora.

Que beleza! Quando interessa, a Folha faz a sua própria Unificação. Só que enquanto a CBF decidiu sobre um assunto bastante divulgado e discutido na mídia, a Folha unifica sem ouvir a opinião pública, sem ouvir ninguém. E perceba que nestas competições não é computada a Recopa Sul-americana ganha pelo Santos em 1968. E ela foi muito mais importante do que todas essas citadas e – detalhe relevante – também é reconhecida pela Conmebol, assim como o Sul-americano de 1948.

Os demais cortes do ranking continuam. De forma geral, competições que não tiveram sequência ou não conseguiram grande representatividade não são computadas. Dentre os torneios que ficam fora, estão a Copa Rio, a Copa Ouro, as Copas Master da Supercopa e da Conmebol, a Copa Suruga e a Supercopa do Brasil.

Se o Sul-americano de 1948 pode ser considerado o embrião da Libertadores, por que a Copa Rio não pode ser considerada o embrião do Mundial Interclubes? Representatividade, a Copa Rio teve, e muito mais do que muitos “Mundiais”. A decisão de não dar nenhum ponto ao vencedor da Copa Rio é inexplicável e prejudica sensivelmente Palmeiras e Fluminense. Ignorar a Recopa Mundial, ganha pelo Santos em 1969, também é inadmissível.

Rodrigo Bueno me disse que a Recopa Mundial não é considerada pelo ranking da Folha porque o Real Madrid não quis jogar e foi substituído pela Internazionale. Ora, em várias disputas de Mundiais, ou “Intercontinentais”, o campeão europeu não participou e abriu vaga para o segundo colocado. Por que nestes casos o ranking da Folha também não diminuiu a pontuação ou invalidou a disputa? E outra: o Santos ganhou a Recopa Mundial vencendo a Inter lá em Milão, em um feito técnico muito mais expressivo do que o de muitos “campeões mundiais”.


Outra matéria da Folha de São Paulo, esta de 1964, afirmando que por vencer a Taça Brasil pela quarta vez consecutiva, o Santos se sagrava tetracampeão brasileiro (clique na imagem para ve-la por inteiro).

Criticar é fácil. Fazer com competência é que são elas

A Folha de São Paulo foi um veículo que abriu espaço para jornalistas criticarem a Unificação. Um dos motivos alegados por estes articulistas era a falta de uma ampla discussão sobre o assunto. Insinuou-se também que a decisão da CBF foi política, para punir alguns clubes e ajudar outros.

Ora, Palmeiras, Fluminense e Bahia, times que tiveram seus títulos reconhecidos, recentemente votaram contra os interesses da entidade no Clube dos Treze. Por que agora seriam “premiados”?

E enquanto a CBF acompanhou as notícias sobre a Unificação por dois anos e ainda precisou mais de um mês para analisar o Dossiê, usando três de seus departamentos – o histórico, o técnico e o jurídico –, a Folha fez um novo ranking a toque de caixa, mudando radicalmente todos os seus conceitos, que prevaleciam há 14 anos.

E por que agiu assim? Só para dar o recado de que não concordava com a CBF e continuaria mantendo os líderes eternos que ela elegeu para o seu ranking particular, em um claro favorecimento a algumas equipes e o prejuízo a outras. Imagino o que a Folha não faria se tivesse o poder sobre o futebol brasileiro…

Enfim, só comentei este ranking estapafúrdio do jornal Folha de São Paulo para mostrar como alguns veículos que se mostraram tão exigentes e críticos com relação a cada detalhe da Unificação, agem de maneira incoerente, prepotente e contraditória quando eles é que têm a responsabilidade de avalizar a história das competições disputadas pelos times brasileiros.

Mas, infelizmente, não se pode esperar nada muito melhor da equipe de esportes de um jornal que há 50 anos, quando cobria a Taça Brasil, chamava seus vencedores de campeões brasileiros, e hoje tenta desmentir o que os seus próprios jornalistas escreveram. É bem provável que daqui a 50 anos a Folha desminta também o que escreve hoje. O que será que pretende com isso? Será que não percebeu que, agindo assim, está perdendo credibilidade e seguindo um destino contraditório de eterno pasquim?

Leia a matéria escrita por Rodrigo Bueno que explica o ranking da Folha

E você, o que achou deste novo ranking da Folha de São Paulo?

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105 Comentários.

  1. Se meu time tivesse sido campeão da Taça Brasil eu sinceramente não saberia lhe responder porque eu ainda tenho dúvidas a respeito. Acho que é fundamental que pessoas como você contribuam para isso, pois não vivi a época. Odir, discordo com você em relação a 1987. Primeiro, porque a CBF não havia inicialmente estipulado o regulamento da “Copa União”. Só depois da pressão dos clubes que ficaram de fora foi que ela resolveu impor o módulo amarelo. Quanto ao regulamento, nem mesmo o Sport o cumpriu. A regra do campeonato imposto pela CBF previa o cruzamento entre o campeão e o vice dos módulos verde e amarelo. Mas o Sport DIVIDIU o título com o Guarani depois de um empate em 11 x 11 nos pênaltis. Contudo a CBF inventou um casuísmo que nem existia na regra e declarou o Sport campeão. Um campeão imposto na marra. Por mais que a justiça declare o clube pernambucano como campeão brasileiro de 1987 todo mundo sabe que o campeão de fato é o Flamengo. Um campeão pirata na visão da CBF, mas muito mais campeão futebolisticamente que o rubro negro do Recife. A maior prova de que essa decisão é puramente política foi que a justiça declarou o Sport como campeão da Copa União. Um torneio que o time pernambucano nunca participou na prática. E a taça da Copa União está na Gávea. Nunca passou nem perto da Ilha do Retiro. Temos vários exemplos no passado de ligas estaduais com dois campeões diferentes. A decisão da CBF foi puramente política. E nem sempre a decisão da justiça (principalmente de uma comarca do mesmo estado do Sport) é a mais acertada. Lamentável porque a Copa União foi um dos torneios nacionais mais importantes da história do futebol brasileiro.

    A decisão não foi da CBF, foi da Justiça, e não cabe recurso. isso já foi amplamente divulgado. Não sei porque é tão difícil entender.

  2. Carlos Z, você usa vários IPs diferentes nos seus comentários. O assistente técnico deste blog pediu que explicasse o porquê de tantos IPs diferentes. O que se quer aqui é uma relação franca, honesta, entre pessoas reais, com nomes reais. Abraço.

  3. Prezados,

    Sinceramente não sei a que vocês estão se referindo, pois que eu saiba, tenho apenas um IP, com essa conta no UOL há quase 10 anos e meu nome é Carlos Alberto.

    Eu é que coloco em xeque se essa não é uma desculpa diante de minhas críticas (absolutamente honestas e francas)em relação às suas afirmações, comentários e colocações, senhor Odir.

    Se o problema é esse, por favor é só avisar-me e eu não acessarei mais seu blog, nem farei novos comentários.

    Favor confirmar.

    Grato e abraço,
    Carlos

    Meu assessor técnico informou-me que cada comentário seu aparece com um IP diferente, ao contrário dos outros companheiros que acessam o blog. Gostaríamos de ter uma explicação para isso. No mais, pode comentar à vontade. Não falo discriminação neste blog. Não santistas e mesmo oposicionistas obcecados também têm espaço por aqui.

  4. Prezado Odir,

    Infelizmente não tenho mais nenhuma explicação adicional sobre essa questão do IP.

    De q.q. forma, apesar de seu esclarecimento (“não faço discriminação neste blog”), sinto que minhas críticas e comentários não são bem vindos. Talvez tenha sido meu erro entrar em seu blog e expressar minhas opiniões!

    Assim sendo, despeço-me em definitivo do blog e, com toda sinceridade, desejando-lhe muita saúde, paz interior e sucesso em tudo que empreenderes. Se desejares algum contato comigo, tens meu e-mail.

    Deus o abençoe!

    Abraços,
    Carlos

  5. Eu acredito que cada ranking atente a interesses própios, eu só levo em conta o da CBF que é quem comanda o futebol nacional.

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