Texto de Marcelo Da Viá

Como é sabido, o Corinthians foi novamente eliminado da Taça Libertadores da América, desta vez de forma humilhante, por um time desconhecido, na fase preliminar. É certo que esta competição já se tornou para o clube um fantasma tão poderoso quanto o do antigo e longo jejum de títulos do Paulistão.

No day after, claro que já havia uma infinidade de piadas a respeito, sem falar da quantidade expressiva de rojões que pipocaram pela cidade logo que a derrota se consumou.

A pretexto de falar de mais essa eliminação do meu time, comentei com meu amigo Odir que achava que a internet havia acirrado os ânimos dos torcedores. Já há um bom tempo que penso assim. E longe de mim fazer uma crítica à internet, uma das grandes invenções da humanidade. O problema – e isso não deveria ser um problema – é que a repercussão deixou de ser monopólio dos grandes veículos de comunicação, foi se pulverizando entre os próprios torcedores, fato que deveria, sim, ser saudado, mas que, infelizmente, tem um lado sombrio.

Se hoje existe mais gente podendo se expressar sem depender da grande imprensa, o que é ótimo, muita gente também se deixou impregnar pelo ódio, que sabidamente é cego, burro, simplificador. A piada do dia seguinte às derrotas dos rivais sempre existiu, nada contra, é parte da graça do futebol. Mas algo mudou nos últimos dez anos, período no qual a internet se disseminou no país – essas derrotas passaram a ocupar um papel tão ou mais importante que as vitórias e comemorá-las virou quase uma obrigação, um exercício de sadismo a que muitos – incluindo crianças e pré-adolescentes – aderem sem nada questionar.

Sem medo de exagerar, constato que, atualmente, essa alegria pela desgraça alheia compete quase em grau de igualdade com os triunfos, e como me parece que esse fenômeno é crescente, é certo que, num futuro bem próximo, festejar derrotas tende a ser o objetivo último dos torcedores. Sempre foi assim?

Não. Tenho 44 anos, adoro futebol, sou um corintiano entusiasmado e não me lembro de sair berrando a cada gol sofrido pelo São Paulo, Palmeiras ou Santos. Pelo contrário, a depender do time, chegava a torcer por estes clubes, como foi o caso do Palmeiras de Telê Santana, no Brasileirão de 1979 – vibrei com a goleada imposta por Jorge Mendonça e Cia contra o poderoso Flamengo de Zico, em pleno Maracanã. Aliás, minto – a partir da constatação, na internet, de que meu time é nada menos que odiado pelos rivais, passei a torcer contra, como não fazia antes. A pergunta é: isso é bom?

Penso que não, que a energia gasta em secar, quando em doses exageradas, turva a alegria de simplesmente torcer a favor. E nada contra as secadinhas – é claro que se assisto a um jogo do rival na TV, principalmente contra um pequeno, me divirto em ver esse pequeno triunfar. Mas tudo tem limite, e acho que todos esses rojões, insultos, gritaria e piadinhas viraram uma grande chatice, e para mim o futebol sempre foi diversão. Esse é o ponto, o meu ponto aqui. A quase obrigação de ser mal educado, de berrar e gritar um gol apenas porque foi contra o time X ou Y, é antes de tudo aborrecido.

No caso do Corinthians, assim como acontece no Rio em relação ao Flamengo, é inquestionável que essa tendência à hostilidade é ainda maior. Como corintiano e parente (pelo lado de minha mulher) de rubro-negros fanáticos, acredito que a origem dessa má vontade tem muito que ver com o fato de que esses times possuem as maiores torcidas de suas cidades e estados. Seria um invejinha, sim. E o fato de vivermos numa era em que a TV passou a ser onipresente, transmitindo tudo que é jogo (até solteiros e casados), mas brigando pelas melhores audiências, implicou uma certa predominância das transmissões desses dois clubes, causando uma justificada irritação entre os torcedores dos demais grandes de cada cidade.

Mas isso está longe de explicar esse fenômeno recente, já que Corinthians e Flamengo há muito possuem as maiores torcidas. Aí entra a internet, o anonimato proporcionado por ela (e nada contra, se usado com honestidade), os chats, a tentação de ser agressivo e violento com impunidade, a vontade de responder a uma provocação, enfim, a forma como cada indivíduo se comporta em sociedade varia muito, e, como a grosseria tende a se destacar, é como se na internet só houvesse gente desse nível, o que sabemos que não é verdade.

O fato é que esse tipo de comportamento tem mudado até a atitude dos jogadores e dos clubes. Os nortes éticos – e por que não dizer morais – se tornaram mais “flexíveis”. Hoje um time, por maior que seja, pode entrar em campo para perder, contanto que o faça em consonância com parte da torcida, e a derrota prejudique diretamente algum rival que ainda briga pelo título. Aconteceu no ano passado e em 2009, envolvendo (e maculando) o trio de ferro da capital – Palmeiras, Corinthians e São Paulo – e, infelizmente, penso que esse comportamento tende a se tornar lugar comum. Mas pergunto: alguém aqui consegue imaginar Ademir da Guia, Pelé, Rivelino, Sócrates, Falcão, Furlan, Chicão, Pedro Rocha e tantos outros craques do passado entregando um jogo, ou “amolecendo” para estragar a festa de um rival? E quanto a Oswaldo Brandão, Minelli, Telê, Vicente Matheus, Aidar? Não mesmo. Sinal dos tempos? Não duvido que a truculência do atual “torcer contra” tem tudo a ver com isso. Fico por aqui, porque o assunto renderia – e espero que renda – um livro.

Você também acha que as torcida estão mais agressivas? O que era apenas secar o rival agora virou manifstações de ódio?