O Brasil tem a felicidade de ser o único país do mundo com mais de dez clubes considerados grandes, com tradição, currículo e contingente de torcedores capazes de leva-los a grandes conquistas.

Ao contrário de campeonatos nacionais de outras nações, cujo título é disputado entre poucas equipes – às vezes entre duas apenas –, o Brasil tem, no mínimo, quatro times poderosos em São Paulo, quatro no Rio, dois no Rio Grande do Sul e dois em Minas Gerais.

É a maior competitividade entre eles que pode fortalece-los, elevar o nível do campeonato nacional e tornar o futebol brasileiro o espetáculo vistoso e milionário que se espera, lucrativo para as agremiações, a CBF e as empresas que atuam neste mercado.

Até agora a divisão das cotas de tevê entre os clubes brasileiros tem sido feita segundo o critério pré-histórico de dar mais a quem já tem mais, e dar menos justamente a quem precisa de mais para equiparar-se aos privilegiados.

Como se sabe, em uma fórmula que persiste há anos, até hoje a tevê paga mais direitos a cinco clubes: Flamengo, Corinthians, São Paulo, Vasco e Palmeiras. Na prática, isso não tem dado nenhum resultado, a não ser tapar os buracos financeiros criados por seguidas más administrações, que resultaram em rebaixamentos, péssimas campanhas e dívidas enormes.

Não tem havido uma relação técnica entre o montante que o clube arrecada da tevê e o espetáculo que ele proporciona. Uma análise da última década mostra que os clubes brasileiros mais vitoriosos foram São Paulo, Internacional e Santos. Destes, apenas o São Paulo está entre os cinco que recebem uma verba maior pelo uso de sua imagem.

Qual a lógica de privilegiar quem já é privilegiado?

A estrutura do futebol profissional sempre permitiu e permitirá que clubes de maior torcida arrecadem mais. A primeira e por décadas a única fonte de renda, a bilheteria, sempre foi mais favorável aos chamados “times de massa”. Agora há o patrocínio de camisa, o merchandising, os produtos licenciados… Tudo isso beneficia, logicamente, quem tem mais torcedores.

Mas para a competição tornar-se um sucesso financeiro, ela não depende só de uma ou outra equipe. Todos os participantes fazem o mesmo número de partidas, enfrentam os mesmos adversários e são igualmente importantes até que os resultados provem o contrário.

E está provado que, mais do que o nome dos contendores, é a relevância da partida que mais atrai a atenção do público. Uma decisão de título entre duas equipes menores certamente terá mais audiência do que a maioria dos jogos disputados por um time mais popular.

Corinthians e Flamengo querem formar um cartel

O que querem as diretorias de Corinthians e Flamengo – negociar em separado com a TV Globo e com isso receber verbas bem maiores pelos seus jogos –, pode ser definido como um truste, ou um cartel, práticas proibidas em um mercado livre, pois além de impedir que este mercado flua livremente, gera concentração de riquezas.

Segundo o Dicionário de Economia do Século XXI, de Paulo Sandroni, o truste ocorre quando “várias empresas, já detendo a maior parte no mercado, combinam-se para assegurar esse controle”. E o cartel, com objetivo similar, ocorre quando “um grupo de empresas independentes formalizam um acordo para sua atuação coordenada, com objetivos comuns”.

A participação direta da Globo no episódio é, no mínimo, antiética. Como uma concessão do governo, obrigada por contrato a não favorecer grupos ou facções, ela estaria influindo diretamente no equilíbrio de forças do futebol brasileiro, destacando desmesuradamente algumas equipes, independentemente de sua performance e qualidade técnica.

Isso ficou evidente em 2008, quando, após celebrar contrato com o Corinthians, a Globo preferiu transmitir a estréia do alvinegro paulistano na Série B do Brasileiro, ao invés de mostrar, no mesmo horário, a partida do São Paulo, bicampeão brasileiro da Série A. É óbvio que esta decisão desvalorizou não só o São Paulo, como também o principal campeonato do País. Uma emissora comprometida apenas com o esporte e não vinculada comercialmente a um clube, não teria agido de forma tão parcial.

Em uma época em que os clubes lutam desesperadamente por visibilidade, e para isso investem dinheiro e muito trabalho para montar equipes vencedoras, é lamentável que um contrato comercial assegure a apenas uma agremiação um espaço precioso na mídia mais importante do país, qualquer que seja o rendimento desta equipe em campo.

É evidente que acordos assim, que desrespeitam a maioria dos fãs, despertam uma enorme antipatia dos torcedores não só com a equipe em questão, mas com a emissora de tevê, e isso tem se refletido na queda acentuada dos índices de audiência da Globo em transmissões do futebol. Para ficar bem com uma parcela de seus telespectadores, a Globo acabou se indispondo com a maioria.

O exemplo milionário da NBA

O campeonato mais rentável do mundo é o da NBA, a liga profissional de basquete dos Estados Unidos. Situados em outra dimensão no que se refere ao marketing esportivo, os mentores da liga sabem que a alta competitividade, o poderio das equipes e o equilíbrio entre os times é que fazem dos jogos uma atração em todo o mundo.

Partidas com duelos entre grandes astros, quase todas decididas apenas nos últimos segundos, dão aos jogos da NBA um charme e um valor insuperáveis.

Enquanto no futebol brasileiro – esporte que, é oportuno lembrar, tem 11 titulares em campo –, os grandes clubes pagam folhas salariais que não chegam a 15 milhões de dólares por ano, na NBA apenas cinco das 30 equipes não ultrapassaram o teto de 57,7 milhões de dólares anuais.

Lá, como se sabe, as piores equipes de uma temporada têm a preferência para contratar os melhores jogadores universitários para a temporada seguinte. Tudo dentro dessa filosofia de equiparar as forças, de promover ume espetáculo mais atraente.

Uma proposta para os acordos com a tevê

O momento é tenso. Fiquei sabendo que se Corinthians e Flamengo radicalizarem em sua vontade de fazer acordos à parte, que lhes garantam mais dinheiro e mais visibilidade na Rede Globo, os outros clubes vão pedir que façam um campeonato só entre eles dois.

Creio que o mais justo, mais ético e melhor para os clubes e o futebol brasileiro, é dividir o bolo da tevê entre um número bem maior de times, talvez os 12 reconhecidamente grandes, talvez incluindo ainda outros campeões brasileiros que estejam na Série A, talvez dividindo os valores entre a cota de participação e prêmios aos mais bem classificados.

O que não se pode é empurrar o futebol brasileiro para o caminho do monopólio e do elitismo, o que só vai acabar com a maior e talvez única vantagem de nosso campeonato nacional com relação ao de outros países: a notável competitividade, que faz com que uma dezena de equipes possam sonhar com o título a cada ano.

E você, acha que a divisão das cotas de tevê deveria abranger mais times, ou os de maior torcida devem ganhar mais mesmo?