Oscar Schmidt e Ivan Lendl ajudaram o talento com treinos exaustivos. E chegaram ao topo.

O garoto Felipe Anderson ainda pode ser tímido, mas é inteligente. E inteligência, como em tudo na vida, é essencial para um jogador de futebol. Você já viu um craque burro? Eu, nunca.

E a inteligência não se manifesta só no campo, na hora do jogo, mas bem antes. Perceba que nada impede que qualquer jogador tente um chute a gol de fora da área e acerte o ângulo. Mas só tenta quem tem confiança e só tem confiança quem trabalhou para adquiri-la.

Quando o repórter lhe perguntou o que a água da Vila Belmiro tinha de especial para gerar tantos garotos bons de bola, Felipe respondeu que não era a água, mas o treinamento, o trabalho.

Ouvi a mesma explicação de grandes atletas. Oscar Schmidt, o “mão santa”, maior cestinha da história do basquete, de quem tive o prazer de ser o biógrafo, treinava mil arremessos por dia, mesmo quando teve uma séria contusão na perna e, sem poder se locomover, teve de contar com a ajuda da esposa, Cristina, para lhe passar as bolas.

Hernanes, que hoje faz sucesso na Lazio, continuava treinando chutes a gol após os treinos do São Paulo. Isso lhe dá confiança – e licença dos técnicos e companheiros – para bater de fora da área.

Goleiros, filhos de trapezistas, acrobatas…

Já refletiu sobre a razão de haver tanto goleiro que cobra bem faltas e pênaltis? Ora, porque eles treinam isso todos os dias.

Ao final dos treinos, há sempre jogadores que querem aprimorar suas cobranças e, para não ficar monótono, acabam disputando com os goleiros, que além de defenderem, também batem as penalidades.

Esse treino constante acaba dando ao goleiro mais facilidade para bater na bola, o que faz com que aprimore não só a sua reposição, mas também as suas batidas de pênaltis e faltas, tornando-os, como no caso de Rogério Ceni, o melhor cobrador do time.

Desde criança eu me perguntava por que, no circo, filho do trapezista também virava trapezista. Teriam eles um componente genético especial, como os pais? Com o tempo descobri que talvez até tivessem o chamado dom natural, mas o que os fazia também trapezistas era a prática do trapézio desde crianças, o convívio com a atividade, o conhecimento técnico e o treinamento constante.

Quando fui, com os amigos João Pedro Bara e Luciana Ribeiro, sócio da Ampla Comunicação, tivemos entre os clientes o famoso Circo Acrobático da China. O que estes artistas fazem em termos de equilíbrio e precisão é inacreditável. Pois para atingir aquele nível sobrenatural, treinavam horas e horas por dia.

Todo jogador profissional deve ser capaz de acertar o ângulo

Por essas e outras é que sou mesmo exigente com erros de fundamento. O jogador profissional, principalmente de um clube como o Santos, tem todo o tempo e estrutura para se aprimorar. Se percebe que tem dificuldade em algum requisito do futebol, como o passe, o chute, o domínio de bola, o cabeceio, terá todo o apoio para esticar o seu treino pessoal além do expediente.

Quem disse que passe e chute são atributos que devem ser desenvolvidos apenas por jogadores do meio-campo para a frente? Quem disse que aos zagueiros é permitido serem “grossos”, desde que despachem o perigo? Pois eu afirmo, e o tempo confirmará isso, que no futuro todos os jogadores terão de saber jogar, de ter controle para executar não apenas uma boa jogada, mas a melhor jogada.

Na Festa do Octa, o lateral-esquerdo Dalmo, o menos badalado daquele Santos que foi o melhor time de todos os tempos, definiu o estilo de jogo daquela equipe fantástica ao dizer que, na defesa, “ninguém dava chutão, nós procurávamos os dois do meio que armavam o jogo”. Pura verdade. É só ver os filmes antigos para se comprovar isso.

Recuperar esse estilo de jogo, de bola de pé em pé, de deslocações e passes, dribles e chutes na hora certa – e quase sempre precisos –, é uma meta que o Santos não deve abandonar, pois é sua alma, sua identificação. Mas para isso é preciso implantar nos jogadores a necessidade desse aprimoramento, que só vem com muito trabalho, muito esforço individual.

Na maioria das modalidades esportivas o grande atleta é obrigado a um treino constante. No tênis, o australiano John Newcombe fez horas diárias de saque a vida inteira, mesmo depois de ter conquistado os maiores torneios do mundo e de ter liderado o ranking mundial. Sua meta não era apenas títulos ou a liderança, mas atingir o máximo de seu potencial. E o serviço era o seu ponto fraco.

O tcheco Ivan Lendl, mesmo depois de alcançar a posição de número um do mundo e se tornar imbatível por várias temporadas, resolveu fazer balé para desenvolver seu jogo de pernas (antes que insinuem, um aviso: o rapaz não era gay).

Na ginástica olímpica, os atletas treinam tanto quanto os acróbatas chineses. São horas e horas diárias de exercícios estafantes, que exigem concentração total. Isso serve para o basquete, o vôlei (leia o que o técnico Bernardinho fala sobre seus vitoriosos métodos de preparação), o handebol, a natação, as lutas…

Mesmo Pelé, o Rei do Futebol, aprendeu a matar no peito, a cabecear e a chutar de esquerda com seu pai, Dondinho, e com seu técnico Valdemar de Brito. E veja que, assim como Pelé, Neymar treinou tanto bater com a perna esquerda, que virou ambidestro.

Essa consciência falta à maioria dos jogadores de futebol, que não se dedicam aos fundamentos como deveriam. O garoto Felipe Anderson, por ser mais inteligente do que muitos veteranos, já percebeu que, sem trabalho, de nada lhe valerá o talento que Deus lhe deu. Mais do que um grande jogador que, tenho certeza, ele será, é um exemplo que pode influenciar no surgimento de um Santos preciso, dedicado e talentoso, como nos bons tempos.

Por mais abençoada que seja a água da Vila Belmiro, é o suor que fez, faz e fará dos jogadores melhores do que são, dignos de envergar a camisa do melhor time de todos os tempos.

Reveja o gol de Felipe Anderson contra o Noroeste. Bola no ângulo não foi sorte nem água santa, mas resultado de muito treino.

Bem, mas esta é apenas minha opinião. E você, acha que jogador de futebol já nasce sabendo, ou é importante treinar fundamento?