O interino Marcelo Martelotte teve duas grandes vitórias dirigindo o Santos no Campeonato Brasileiro: 3 a 0 sobre o campeão Fluminense, no Engenhão, e 4 a 1 sobre o vice Cruzeiro, em Barueri. Mas dele também foi o pecado de inventar Danilo, Pará e Alex Sandro no meio. Agora que voltará a dirigir o time, espero que ouça os jogadores antes de armar a equipe.

Não é desdouro nenhum para um técnico ouvir os jogadores. Aliás, pode ser uma vantagem. O grande Lula, que tinha o raro dom de montar o time com os melhores jogadores, deixava a Zito a incumbência de comandar a equipe dentro de campo.

Sim, Zito era como um técnico do time em campo, com autoridade para dar as ordens aos jogadores e fazer mudanças táticas, principalmente do meio-campo para a frente. Na defesa, a liderança era do capitão Mauro Ramos de Oliveira.

Ou seja, aquele Santos, que representava um trabalho de equipe perfeito, não dependia de nenhum professor. Usava o que cada um tinha de melhor, se valia da autoridade natural de alguns jogadores e do sentimento de união e da amizade que os unia para enfrentar qualquer adversário, em qualquer lugar, e inevitavelmente sair vitorioso.

Lula, mais do que um chefe, era um mentor, um coordenador. Zito mantinha o time motivado em campo, Mauro orientava a marcação e no ataque cada um sabia exatamente o que fazer, ou seja, gols e mais gols.

Responsabilidade dividida

Neste momento, em que o técnico contratado para organizar a temporada falhou e o time ficou na mão, jogar toda a responsabilidade nas costas de um interino é uma velha receita de fracasso. Fica cômodo para os jogadores jogarem a culpa por uma derrota na falta de comando. Por isso, eles precisam fazer parte desse comando.

Por serem jogadores acima da média, ídolos da torcida e bastante identificados com a história do Santos, Léo, Elano e Neymar deveriam ser ouvidos pelo técnico antes de armar a equipe. Talvez o grupo possa ser ampliado com a presença do capitão Edu Dracena e o volante Arouca.

Mesmo Paulo Henrique Ganso, que ainda não está jogando, deveria ser ouvido, pois tem uma visão de jogo diferenciada e, acredito, possa contribuir com boas sugestões para um plano que leve a equipe à vitória contra o Cerro Porteño.

Não sei como os jogadores reagiriam diante de tanta responsabilidade, mas, acredito, os verdadeiramente focados na vitória se sairiam bem. Que discutam à vontade, mas que, após chegarem às conclusões aceitas pela maioria, se comprometam a cumprir em campo o que foi determinado.

É claro que outros jogadores, cuja titularidade é incerta, não poderiam participar do encontro. Martelotte funcionaria apenas como mais um participante, além de mediador. Da reunião sairia o time titular, o sistema tático e as prováveis mudanças durante o jogo, com previsão até das substituições.

Um time e uma tática contra o Cerro

Se fôssemos consultados para escalar o Santos contra o Cerro, que time colocaríamos em campo? Analisemos…

O jogo é na Vila e o Santos, com um ponto ganho, é o terceiro de um grupo de quatro equipes, no qual apenas duas se classificarão. Assim, é preciso jogar pela vitória, certo?

No começo do ano o ataque formado por Zé Eduardo, Keirrison e Maikon Leite estava arrasador. E de uma hora para outra nunca mais foi repetido pelo Professor Pard…, quer dizer, o técnico Adilson Batista. Óbvio, então, que ele seja escalado para esta quarta-feira, com uma única alteração, que é a saída de Keirrison para a entrada de Neymar.

Na defesa, setor para o qual não houve contratações, não há muito o que mexer: Rafael, Jonathan, Edu Dracena, Durval e Léo. Se Jonathan, machucado de novo, não puder jogar, entra Pará – que não deveria ser titular do Santos, mas Danilo também não. Ou seja, tirando Jonatham, que também não é nenhuma Brastemp, o Santos não tem um jogador à altura da camisa que já foi de Lima e Carlos Alberto Torres. Paciência. É preciso usar o que se tem.

No meio, se Arouca puder jogar, a solução é simples: ele, Rodrigo Possebon e Elano formam um bom meio-campo. Possebon também não é exatamente o jogador que o santista quer, mas, das opções para o setor, é o menos problemático. Porém, sem Arouca, a coisa se complicará.

O limitado Adriano é o único volante de ofício no banco de reservas. Sem ele, o jeito é improvisar Danilo no setor, uma opção que o torcedor abomina e que foi um dos motivos da queda de Adilson Batista. Escalar Pará e Alex Sandro por ali não tem sentido, mas dá medo de lembrar que este mesmo Marcelo Martelotte foi o autor dessas invencionices.

Enfim, temos um problema: sem Arouca, o ideal é formar um meio-campo com Adriano, Possebon e Elano, ou tirar Adriano e colocar um jogador com mais habilidade, com capacidade de sair para o jogo?

Aí está o pulo do galo e uma “invenção” que o torcedor apoiaria, pois tem a ver com a vocação do Santos: sem Arouca, seria possível recuar Elano para formar uma parelha de volantes ao lado de Possebon, colocando Diogo para jogar mais recuado, como um meia.

Eu quase escrevi Diogo ou Alan Patrick, mas tenho de admitir que o garoto, pelo que mostrou contra o São Bernardo, não anda muito bem. Do contrário, seria a melhor alternativa para o meio, desde que, repito, Arouca não possa jogar.

Na Vila, o Cerro é a caça

Não se pode esquecer que, apesar de ter estreado na Copa Libertadores com ótima vitória sobre o Colo Colo, em Assunção, por 5 a 2, o Cerro será bem mais precavido na Vila Belmiro.

Suas lembranças históricas na Vila famosa não são das melhores: hoje, 28 de fevereiro, faz 49 anos que o time paraguaio sofreu a maior goleada da competição, ao ser esmagado justamente pelo Alvinegro Praiano, no mesmo Urbano Caldeira onde jogará quarta, por 9 a 1.

É o tipo de jogo em que os paraguaios jogarão recuados, à procura das oportunidades de contra-ataque. Claro que merecem cuidados, principalmente o garoto Iturbe, que brilhou na vitória sobre o Colo Colo.

Não sei se é o caso de se colocar um jogador fazendo marcação individual sobre Iturbe, mas isso tem de ser levado em conta. A mania que o Santos tem de não se preocupar com os melhores jogadores adversários quase sempre acaba mal.

Para esta função específica, sei que Adriano se sai melhor do que a maioria. Lembro-me de um jogo contra o Palmeiras em que ele conseguiu anular Valdívia. Ele não jogou – o que, convenhamos, não fez muita falta ao Santos –, mas também não deixou o craque do outro time jogar. É uma alternativa que deve ser analisada com carinho por Martelotte e os jogadores do Santos, pois Iturbe surge como um grande talento do futebol paraguaio e é daqueles que podem desequilibrar uma partida.

Reveja a goleada do Cerro Porteño sobre o Colo Colo e repare na agilidade e na precisão do arremate de Iturbe. Será que ele merece marcação especial?

Você gosta da idéia de o técnico ouvir uma junta de jogadores para montar o time contra o Cerro? Se Arouca não puder jogar, como você armaria o meio-campo do Santos?