O empate sem gols de ontem, com o Táchira, decepcionou muitos santistas. Estou certo de que se a bola de Danilo tivesse entrado, ou o bandeirinha não tivesse marcado impedimento passivo de Elano em um lance claro de gol, a reação seria outra. Uma vitória, mesmo por 1 a 0, mudaria o humor dos torcedores e aumentaria a confiança pelo título na Libertadores.

E, mesmo fora de casa, em um estádio com 40 mil torcedores contrários, o Santos comandou a partida durante a maior parte dela. Entrou marcando no campo adversário, teve mais a posse de bola e criou algumas chances. Enfim, dominou a maior parte do primeiro tempo.

Voltou inseguro no segundo, chegou a sofrer alguma pressão do Táchira, mas na metade do segundo tempo, com as entradas de Adriano no lugar de Pará e de Alex Sandro no de Léo, voltou a ganhar, literalmente, mais fôlego para dominar também a última parte do jogo.

A sensação de vitória esteve próxima várias vezes, mas a flagrante dificuldade de se chegar ao gol adversário, pela falta de atacantes, não a concretizou. Além de Neymar, Zé Eduardo e Elano, quem mais, no Santos, poderia marcar um gol contra o Táchira?

Leio e releio os comentários neste blog e percebo que a decepção maior não foi pelo empate e nem pelo fato de não ter gols; não foi pela falta de garra da equipe, que se empenhou; não foi contra um ou outro jogador, apesar de alguns terem ficado abaixo do que podem. A decepção veio com a escalação medrosa da equipe, com três volantes, contra o time teoricamente mais fraco do grupo.

Arouca, Rodrigo Possebon, Danilo e Elano é muita gente para o meio-campo, e é muito pouca gente para armar as jogadas, já que esta incumbência ficou exclusivamente com Elano, um jogador que, já se sabia, seria marcado com rigor especial.

Possebon foi muito bem, principalmente no primeiro tempo, mas só faz o simples, não dá uma metida de bola, não cria nada depois do meio-campo. Arouca até avança, mas lhe falta a habilidade do passe, ou o chute vencedor. Danilo é errático demais para ser titular. Sem contar que teve a bola do jogo, embaixo das traves, e ao invés de estufar as redes, mesmo de bico, empurrou para o goleiro. Sobrou toda a criação para quem? Elano! Justo aquele que teria marcação especial, como tinha anunciado o técnico Jorge Pinto, do Táchira.

O óbvio seria, ao invés de Danilo, um meia mais criativo. É o lugar que espera por Paulo Henrique Ganso. Mas, enquanto ele não vem, já que Adilson não quis levar o garoto Felipe Anderson, que escalasse Alan Patrick. Alguém que pense em ataque, que possa tabelar, lançar, chutar a gol, encostar nos atacantes e fazer jogadas.

Sem este meia, Neymar e Diogo tiveram de se virar mais do que charuto em boca de bêbado lá na frente. Pelas circunstâncias, não foram mal. Movimentaram-se, correram, criaram algumas oportunidades, mas estavam sozinhos e distanciados contra um batalhão de adversários. Esta fórmula nunca dá certo, a não ser que haja mais meias atacantes.

Mas Zé Eduardo, Maikon Leite e Keirrison, responsáveis por fazer do Santos o ataque mais positivo do Campeonato Paulista, estavam no banco de reservas – e, deles, apenas Zé Eduardo entrou, no segundo tempo, no lugar de Diogo. Ou seja, trocou-se seis por meia dúzia, pois o time continuou com apenas dois atacantes.

Por que não um time para todos os jogos?
Não sei se estou sendo saudosista, mas nos áureos tempos do futebol, os times tinham a mesma escalação dentro ou fora de casa. O Palmeiras jamais alteraria o seu meio-campo com Dudu e Ademir, ou o Santos com Zito e Mengálvio. A prioridade era colocar os melhores em campo, e não os que funcionavam melhor taticamente.

Essa coisa de opção tática começou, no Santos, em 1967, quando o técnico Antoninho às vezes preferia colocar Abel na ponta-esquerda, no lugar de Edu. A torcida, é claro, ficava maluca, pois mesmo sem ajudar tanto o meio-campo, Edu era um jogador espetacular e Abel apenas um craque.

Hoje os professores têm uma estratégia para cada jogo, dependendo do adversário, do lugar, da altitude, do juiz, do tempo, da pressão atmosférica etc. Será que isso realmente funciona? Acho que é complicar algo que pode ser mais bem mais simples. Aliás, ao invés de pedir aos jogadores para “fazer o simples”, Adilson Batista talvez devesse seguir o seu próprio conselho.

Qual o melhor time que o Santos pode colocar em campo hoje? A defesa que jogou ontem, com Pará na lateral-direita e Léo na esquerda (eventualmente substituídos por Danilo e Alex Sandro), Edu Dracena e Durval na zaga, Rafael no logo. Defesa, aliás, que jogou muito bem ontem, principalmente o valente Durval, que limpou tudo lá atrás. Foi possível perceber, também, que num jogo desses, de maior pressão, a experiência e a liderança de Edu Dracena ajudam a tranqüilizar as coisas lá atrás.

No meio, Arouca, Possebon e Elano devem jogar, mas ou o quarto homem tem de ser um meia, como Ganso, Alan Patrick ou Felipe Anderson; ou se mantém os três do meio e se escala o ataque com três jogadores: Neymar, Zé Eduardo e Maikon Leite. Este é o óbvio. Este é fazer o simples.

É muito mais fácil pedir para um atacante voltar para ajudar na marcação, do que pedir para um jogador de marcação ajudar o ataque. Destruir não exige tanta prática e perfeição como criar jogadas ofensivas. Pelé também sabia marcar e roubar bolas, como Pepe e Dorval. E a vantagem era que o técnico Lula não precisava, em jogos fora de casa, tirar Pepe ou Dorval para escalar mais volantes.

Adilson Batista é inventor ou científico? O futuro dirá

Em Minas Gerais Adilson Batista deixou fama de ser um técnico que inventa, que não faz o simples, que escala jogadores fora de suas posições. Por isso, trouxe de lá o apelido de “Professor Pardal”. No Santos, quem o acompanha de perto diz que é um workaholic, alguém que trabalha muito, que faz questão de saber as estatísticas de cada jogador logo após as partidas, para analisar os passes certos, errados, roubadas de bola, chutes etc. E também, dizem, é um técnico extremamente correto, sem esquema com empresários.

Por essas qualidades, torço por ele. É bom saber que o Santos tem um técnico que trabalha, é honesto e não usa da profissão para tirar vantagens ilícitas e antiéticas. Mas, na verdade, ser honesto é obrigação. Para ser o técnico que o santista quer é preciso ser também competente, ousado, motivador e passar essa determinação à equipe.

E é preciso, finalmente, ter a consciência de que o Santos não é o time que fez mais gols na história do futebol por acaso. Se o Alvinegro Praiano estréia em uma competição tão aguardada, com um empate em 0 a 0, a sensação que fica sempre será de frustração. A não ser que o 0 a 0 valha o título.

Que lições o Santos deve tirar desse empate com o Táchira? O Santos deve ter um time titular para todos os jogos, ou o técnico deve escalar conforme as circunstâncias?