Dizem que depois do jogo Adilson Batista disse que não escala jogador porque a torcida quer. Se ele fosse o Mourinho, e ganhasse um título importante por ano, e fosse considerado o melhor técnico do mundo, eu ainda acharia a frase prepotente. Mas, vindo de um treinador que em dez anos de carreira só ganhou um campeonato potiguar,com o América de Natal; um catarinense, com o Figueirense e dois mineiros, com o Cruzeiro, a opinião soa de uma arrogância atroz.

Grandes técnicos tiveram a humildade e ao mesmo tempo a sabedoria de ouvir o clamor das massas. Foi pela pressão da opinião pública que Vicente Feola lançou Pelé e Garrincha no terceiro jogo da Copa de 1958; que Zagallo finalmente deu um jeito de encaixar cinco camisas 10 na imortal Seleção de 70 (Jairzinho, Gérson, Tostão, Pelé e Rivelino, todos camisas 10 em seus clubes de origem) e Telê Santana formou um meio-campo com Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico.

Parece que quando coloca um jogador no time que a torcida gosta, Adilson trabalha contra ele, para que não dê certo e ele possa dizer: “Viu como eu estava certo?”. A implicação com Felipe Anderson mostra isso. Ontem o garoto estava muito bem no primeiro tempo. Não errou mais do que ninguém e criou boas coisas, não precisava ter saído para a entrada de Alan Patrick.

Não sei o que faz um técnico de futebol, que aparentemente é um bom sujeito, um cara tranqüilo, agir com tanto autoritarismo. Talvez o salário e a alta multa rescisória dêem aos técnicos esse topete para fazer o que bem entendem e desafiar a torcida, os dirigentes e os próprios jogadores.

A contratação de Adilson Batista, depois que ele tirou o Corinthians do caminho do título brasileiro, para mim foi incompreensível. Um dos maiores erros dessa diretoria. Em Santos há pessoas, como o veterano ídolo Pepe, ou mesmo Serginho Chulapa, que montariam um Santos melhor e mais de acordo com a filosofia do futebol santista.

Mas Adilson ainda tem tempo de corrigir as muitas falhas que vem tendo. É só fazer um exame de consciência e admitir que seu método de trabalho, que sua visão do futebol, não são tudo isso que ele acha que é. Se fosse, certamente não teria um currículo profissional tão insatisfatório.

Que não caia na armadilha de achar que só porque está ganhando muito dinheiro para ser técnico e está treinando um grande time brasileiro, depois de treinar outros dois, já se tornou um gênio do futebol. Cada time tem seu espírito, seu DNA, e Adilson, ao contrário de Dorival Junior, ainda não captou a essência do Santos.

O elenco pode ter suas limitações, e as tem, mas o grande técnico é aquele que consegue fazer jogar bem e com harmonia, mesmo elencos limitados, e o técnico ruim é o que só consegue trabalhar com um time de craques – o que, convenhamos, até minha vovozinha consegue.

O único que sofre nessa situação toda é o torcedor. Ele só dá, nada tira do clube. Seu vínculo é permanente. Não pede demissão, não é demitido, não tem salário nem multa rescisória. E continua torcendo e apoiando o time, mesmo quando não é ouvido por técnicos que se julgam os donos de uma verdade que, se existe, vive somente no coração desse torcedor.