Ouço comentaristas repetindo que o Santos é favorito disso, favorito daquilo, e não sei onde enxergam tanto favoritismo. A verdade é que por mau planejamento e más contratações, o Santos tem sido um time eternamente improvisado.

A entrada de Alex Sandro no meio, uma das características do estilo Marcelo Martelotte de dirigir um time, mostra que o Alvinegro ficou sem bons jogadores suficientes para o meio-campo. Isso explica porque Danilo e Alex Sandro, dois laterais, jogam por ali.

Sem Arouca, machucado; Charles, eternamente machucado, e Paulo Henrique Ganso, recuperando-se de cirurgia, a verdade é que faltam jogadores para o setor.

Rodrigo Possebon, Adriano e mesmo Diogo são aceitáveis como reservas de um bom time. Ainda não têm mostrado pedigree para serem titulares de um favorito a nada.

Por falta de dinheiro, iniciativa, ou capacidade, a diretoria não se mexeu e deixou o time ficar seriamente desfalcado justo na Libertadores, a competição mais importante para os santistas este ano.

Se analisarmos bem, veremos que no ataque o único jogador indiscutível é Neymar. Zé Eduardo sempre foi definido como um bom reserva, Keirrison não tem mostrado absolutamente nada e Maikon Leite, desde que assinou o pré-contrato com o Palmeiras, foi para a geladeira.

E justo a defesa, ponto fraco do time em 2010, foi a que teve menos reforços para 2011. Adilson Batista chegou a dizer que ela estava ótima e ninguém questionou. Veio apenas o lateral-direito Jonathan, que é menos ruim do que Pará e Danilo, mas também não é nenhum Carlos Alberto Torres.

Não vou chover no molhado de criticar Edu Dracena. Seria até covardia depois da falha horripilante de ontem. Acho até que dos zagueiros que o Santos tem, ele deve continuar como titular.

Mas o descontentamento do torcedor com ele já vem de longa data, ao mesmo tempo em que o jovem Vinicius Simon, que agradou quando entrou no time, deixou de ter oportunidades, a ponto de nem ser incluído no elenco da Libertadores.

Resumindo, o Santos é carente em várias posições e isso tem obrigado seus técnicos a improvisar. Se ao menos esses técnicos fossem humildes de colocar em campo os jogadores que o torcedor quer, a dor de um resultado ruim como o de ontem seria dividida entre todos. Mas, se inventam e armam o time de suas cabeças, que assumam as conseqüências.

Ontem, o time dominava a partida e o Cerro nada conseguia no ataque. Não era preciso fazer qualquer alteração. Faltou a Martelotte seguir um velho e sábio conselho que vem das arquibancadas, que diz: em time que está ganhando, não se mexe.

No máximo, eu trocaria Possebon por Adriano. Isso ao menos garantiu uma marcação mais sistemática sobre Iturbe. Mas as entradas de Keirrison e Alex Sandro, que só sabem atacar e marcam muito mal, deixaram o Santos mais vulnerável.

Falta agilidade e poder de decisão a esta diretoria

Time que quer ser campeão não pode esperar uma eternidade para repor um jogador importante. Ganso se machucou em janeiro. É inadmissível ficar seis meses sem um titular para a posição.

Também não pode esperar outra eternidade para substituir o técnico. Em todo o segundo semestre de 2010 o time foi dirigido pelo interino Marcelo Martelotte. E, quando contratou, escolheu o homem errado.

O tempo no futebol profissional é mais rápido, exige decisões ágeis. Não dá para contratar jogadores machucados que dependem de longa recuperação, como no caso de Charles, o titular que nunca jogou.

Também não é aconselhável especular com jogadores jovens ou em má fase enquanto não se tem um time formado. O investimento somado em Moisés, Victor Hugo, Zezinho, Diogo, Keirrison, Charles, Moisés, Possebon, Danilo, Alex Sandro, Jonathan, Aranha, além dos salários de Róbson e Maikon Leite, seriam suficientes para se contratar ao menos dois ou três titulares absolutos.

É também inexplicável as situações de Maikon Leite e Róbson. Se já estão de pré-contrato assinado com outros clubes, se não interessam mais ao Santos, por que continuam recebendo salário do clube para ficar no banco de reservas? Que motivação eles podem trazer para o restante do grupo, se já estão com a cabeça bem longe da Vila Belmiro?

Uma das qualidades de Vanderlei Luxemburgo, nos seus bons tempos, era motivar os jogadores, e uma de suas estratégias era perguntar quem queria ficar e quem queria sair. Se ele fosse o técnico do Santos e tivesse feito essa pergunta no começo do ano, os frouxos já teriam ido embora e só aqueles realmente interessados no título teriam ficado.

Se é verdade que o Corinthians ofereceu um bom dinheiro por Edu Dracena, foi um erro não te-lo negociado. Ele seria mais feliz no Parque São Jorge e a maioria dos santistas, pelo que percebo, ficariam mais felizes sem ele na zaga.

Há momentos em que são necessárias mudanças, apesar do risco de não darem certo. No início de 2010, por bênção dos deuses, Wesley voltou jogando melhor do que nunca; o São Paulo aceitou a troca de Rodrigo Souto por Arouca; o juvenil André firmou-se como centroavante; Neymar e Ganso amadureceram seus talentos; Rafael se firmou na posição que era de Fábio Costa; Robinho foi contratado e o Santos se tornou a sensação do futebol brasileiro.

Mas, todos sabíamos, aquele time tinha prazo de validade. O problema é que os artistas foram sendo vendidos e não houve reposição à altura. Saíram Wesley, André, Robinho, Ganso (machucado) e só foi contratado um jogador do mesmo nível: Elano. Essa queda técnica que se vê agora já era esperada.

Tirar mais do mesmo é algo que no futebol dificilmente funciona. Com este elenco, não creio que o Santos terá melhor sorte do que tem tido até aqui neste ano. Para piorar, Felipe Anderson e Vinicius Simon sequer estão inscritos na Libertadores, e Ganso e Charles talvez demorem mais um bom tempo para jogar. Até lá, os santistas viverão intensamente os sobressaltos do futebol e só terão a certeza de que a vitória estará garantida com o apito final do árbitro.

(Antes que insinuem qualquer coisa, deixo claro que também achei o desempenho da diretoria do Santos muito ruim nos dois últimos anos da administração Marcelo Teixeira, que primou por contratar jogadores veteranos, pagar-lhes altos salários e não deu oportunidades aos jovens da base. Enfim, o Santos ainda está devendo no que se refere à administração de seu futebol profissional e a montagem de elenco).

Você discorda? Acha que o elenco do Santos é bom? Acha que a diretoria não tem culpa?