Prezado Sr. Orlando Silva, Ministro dos Esportes do Brasil

Neste sábado está sendo perpetrada uma grande injustiça ao Santos Futebol Clube e ao futebol brasileiro. O pior é que este ato é realizado ao amparo das leis que regem o esporte. O jovem Jean Carlos Chera, que no dia 12 de maio completará 16 anos e por isso estava prestes a assinar o seu primeiro contrato profissional com o Santos, está viajando para negociar seus direitos com um clube da Itália.

Reconhecido internacionalmente pela capacidade de revelar jovens talentos, o Santos acolheu Jean Chera desde que ele tinha 10 anos, e passou não só a sustentá-lo, como também sua família.

Trazido de Campo Mourão, no Paraná, Jean Chera recebeu do Santos apartamento, escola particular para ele e seu irmão, uma assistência e uma estrutura que poucos clubes da América do Sul podem proporcionar, e um salário digno de um profissional, que hoje supera R$ 20 mil mensais.

Além disso, pela projeção que teve ao jogar nas divisões de base do Santos e ser considerado um futuro Menino da Vila, conseguiu um patrocínio que lhe rendeu um milhão de reais e outro que lhe dá cinco mil reais a cada mês.

Para que assinasse seu primeiro contrato profissional, com validade de três anos, Jean Chera recebeu do clube a proposta de um salário de R$ 30 mil mensais, além de gatilhos por títulos e convocações para Seleções Brasileiras de sua categoria.

Seu agente, porém, que também é seu pai, o senhor Celso Chera, anunciou que tem uma proposta de um clube italiano que consiste em um pagamento de três milhões de euros no ato, além de um salário mensal de 50 mil euros. Como um clube brasileiro pode competir com uma oferta dessas por um garoto que sequer foi convocado uma única vez para seleções nacionais?

Assim, cristaliza-se a ingratidão, e o rapaz e sua família estão de malas prontas para a Itália, mais precisamente para Milão. Ao Santos, que por seis anos investiu – não só dinheiro, mas tempo, atenção e carinho – no rapaz e em sua família, não resta ao menos o direito de recuperar um mísero centavo do que gastou. O senhor diria que esta lei é justa, prezado ministro?

Para mim e para outros jornalistas com os quais tenho conversado, estamos diante de um caso lapidar, um verdadeiro divisor de águas. Assim como o passe livre adquirido pelo “rebelde” Afonsinho, em 1974, mudou a escravagista Lei do Passe, este “Caso Chera” é mais do que suficiente para obrigar a revisão da lei que se reafirma tão penosa para os clubes deste país, pois acabam punidos pelo mérito de tentar descobrir novos craques que alimentem o sonho do povo e contribuam para novas conquistas de nosso futebol.

Um país que vai sediar a Copa do Mundo não pode ter um futebol baseado em leis tão injustas, senhor Ministro. Como se sabe, o Brasil é um celeiro de craques, só que os clubes que os descobrem e formam não estão sendo amparados pela lei. Esta é a dura verdade.

É preciso que algo seja feito urgentemente para salvaguardar os direitos dos clubes formadores, ou o futebol brasileiro e o próprio Ministério dos Esportes cairão em profundo descrédito perante as pessoas deste país que ainda acreditam nos nobres valores do esporte.

Falo não apenas no meu nome, ou no nome dos jornalistas esportivos que conheço, ou dos freqüentadores de meu blog, que hoje alcança 50 mil leitores, mas, estou certo, em nome dos milhões de amantes do futebol deste País que já estão cansados de ver seus clubes perderem jovens valores precocemente, sem que nada seja efetivamente feito pelo Governo para impedir este vergonhoso êxodo que empobrece e esvazia nosso futebol.

No aguardo de que medidas urgentes sejam tomadas para impedir novos casos como o do jovem Jean Carlos Chera, despeço-me com votos de estima e consideração.

Odir Cunha, jornalista
São Paulo
Mtb 12.748

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